Jacqueline Sato: em entrevista exclusiva, conversamos com a atriz, apresentadora e ativista ambiental sobre a importância da representatividade no audiovisual

O ArteCult conversou com a atriz, apresentadora e ativista ambiental, Jacqueline Sato que se destaca em diversos trabalhos na televisão, cinema e teatro. Entre os mais recentes estão as novelas “Sol Nascente” e “Orgulho e Paixão”, ambas da Globo, e a série “(Des)Encontros”, do Canal Sony. Atualmente, ela está também na série inédita “Os Ausentes”, da HBO MAX. Como apresentadora, comandou até meados do ano a série “Bruce Lee: A Lenda” e o programa “Encantadores de Pets”, da Band.

Conversamos com ela sobre a importância da representatividade no audiovisual, já que ela ainda é uma das poucas referências de atrizes nipo-brasileiras.

Jacqueline foi convidada também a palestrar no TEDxMacedo em 2020, que teve como tema Essência, em que falou sobre a importância da representatividade.

Confiram:

 

Fora das telas, a atriz também se tornou a mais nova embaixadora do Greenpeace Brasil e tem entre as bandeiras que levanta a da sustentabilidade, preservação da natureza, incentivo ao slow fashion e marcas sustentáveis, e proteção dos animais, é também fundadora e CEO da associação de proteção animal House of Cats, que já ajudou mais de 1800 gatos a encontrarem lares. Lá eles recolhem gatinhos da rua, e são responsáveis por todos os cuidados até que encontrem um novo lar. É algo bem estruturado e que conta com apoio de veterinários que fazem também castração, vacinação, vermifugação, além de muitos outros cuidados.

Confira abaixo a entrevista:

Você já serviu de inspiração e força, para que outras pessoas que buscavam na arte uma carreira para vida, se sentissem representadas. O que isso representa para você? Não só de forma pessoal, mas para sua carreira também.

Jacqueline Sato. Foto: Pupin+Deleu

Nossa, sempre que penso nisso me arrepio toda. De verdade, me emociona. É algo muito importante e de enorme significado pra mim. Lembro muito bem da primeira vez que eu soube que tinha sido inspiração para alguém, é uma mistura de sentimentos. Foi uma surpresa, ao mesmo tempo que me encheu de gratidão, orgulho e ainda mais garra para seguir em frente quebrando padrões e conquistando espaços. Saber que com minha trajetória contribuí positivamente com a trajetória de outras pessoas é algo que não tem preço, não tem como mensurar. Eu sei o que é sonhar com uma profissão e, por não ter representatividade, este sonho parecer ainda mais distante e difícil. Saber que de alguma forma eu aproximo o sonho e a realidade para algumas pessoas,  permito que elas se enxerguem e acreditem que há possibilidade é algo que me enche de alegria, e me faz ter vontade de lutar cada vez mais para que pessoas como eu tenham oportunidades. Já passou da hora de termos diversidade e representatividade de forma justa no audiovisual. Isto importa e muito. Afeta diretamente a autoestima e os sonhos das pessoas que assistem aos conteúdos. Na minha carreira, eu sempre busquei, desde o início, provar que eu poderia fazer uma diversidade de papéis fugindo propositalmente de estereótipos que reforçam preconceitos e são um desserviço. Saber que consegui cumprir com isto e que, por isto, tantas outras pessoas passaram a crer que também poderiam, que também haveria espaço para elas, me deu ainda mais força e gana de seguir em frente.

O significado de representatividade, é bem claro, de forma simples pode dizer que é uma imagem representada, seja na TV, no cinema, no mercado de trabalho… Porém o que realmente significa representatividade para você?

Pertencimento. Não só naquela obra, mas na sociedade. Saber que ela pode ocupar aquele e outros espaços, e que é vista, valorizada. Isto tem uma importância extrema. Faz com que a pessoa acredite mais nela mesma e veja que há oportunidades para pessoas como ela.

Hoje é possível notar um aumento no consumo de ‘produtos’ da cultura asiática no geral. Você acha que esse movimento pode ajudar na produção de mais conteúdos nacionais mais diversificados?


Jacqueline Sato. Foto: Pupin+Deleu

Acho que essa ascensão e o acesso a conteúdos do leste asiático em larga escala influencia positivamente, pois as pessoas passam a enxergar os talentos e a enorme diversidade que há dentro deste recorte. Existe uma gama de personagens que os leste asiáticos e seus descendentes são capazes de interpretar. Acho que isto ajuda a quebrar alguns preconceitos que se tem com as pessoas amarelas em geral, tanto as nascidas no leste asiático, quanto às nascidas aqui no Brasil. Por exemplo, isto de que somos sempre certinhas, submissas, tímidas, boas em exatas e etc. Eu imagino que esse contato com os produtos que vêm de lá influenciam o olhar de quem assiste e de quem produz conteúdo. Penso (espero) que isto signifique mais oportunidades de trabalhos para pessoas amarelas.Fora do Brasil já vejo isso acontecer com mais intensidade, mas espero que aqui também siga este fluxo em direção a castings com representatividade. E espero que isso aconteça exponencialmente e rapidamente. Pois, pra você ter noção, 3 décadas de novelas se passaram até que surgisse a presença da primeira amarela em uma delas (Cristina Sano), e depois mais 3 décadas se passaram para que houvesse a primeira protagonista em uma delas (Ana Hikari). É muito tempo! 66 anos especificamente. Não dá para seguir neste ritmo. E eu creio que, uma vez que a sociedade acordou para esta questão, e ainda com a internet democratizando vozes, a representatividade pode caminhar mais rápido em direção ao que é justo. Algo que só vai trazer mais riqueza e complexidade às obras, e mais identificação do público para com elas. Nosso país é multiétnico. O público gosta de se ver representado nas telas, ou nas páginas. E cada vez mais, quando percebe que não está, tem reclamado e sido ouvido. Acho que muitas empresas têm prestado mais atenção. Vivemos um momento de mudança positiva em relação a isso, se compararmos com anos atrás, mas é preciso muito mais.

Você é uma atriz que já fez novelas, séries, filmes e segue no mercado audiovisual. Hoje você acha que já é possível batalhar por um papel sem distinção, ou a maioria dos teste ainda são para papéis que o personagem já é pré-determinado oriental?

Eu acredito que não só é possível, como é necessário! Eu e outras pessoas racializadas deveriam ter os mesmos direitos de serem testadas para papéis diversos independente da nossa cor. Deveríamos, sim, ser testadas para papéis lado a lado com pessoas brancas, e a escalação deveria ser definida de acordo com o resultado do teste. Quem trouxer vida àquele texto com mais propriedade, mais profundidade e riqueza é quem deve pegar o papel. E não o que ainda segue acontecendo na maior parte das vezes, pessoas racializadas sequer são chamadas para os testes. Nem tem chances de mostrarem seu trabalho. E aí seguimos tendo uma hegemonia branca nas produções e prosseguimos com a falta de representatividade.  Parte da Indústria vem mudando o seu modo de pensar. Já existem produtores, diretores, e roteiristas que estão mais conscientes da importância de haver esta multiplicidade em seus castings. Afinal, uma vez que você se conscientiza de algo, não tem como voltar atrás. Espero que quem já adquiriu esta consciência, seja lá a profissão ou cargo que ocupe, faça o possível para que haja uma mudança ainda mais significante.

A série “Os Ausentes” da HBO Max aborda um tema que vai muito na contramão do que estamos acostumados a assistir, quando o assunto são séries de ação/policial. Como foi dar vida a Ayumi?

Verdade, a série consegue trazer um lado mais humano, consegue revelar mais das vulnerabilidades de cada personagem, o que é fantástico! Dar vida a Ayumi foi incrível. Já a amei desde que li o roteiro pela primeira vez, e o processo foi me fazendo gostar mais ainda. Tomaz Rezende e Carol Fioratti foram sensacionais na preparação dela. A cada ensaio, novas descobertas. E isto tudo foi lindamente revisitado na hora do “Ação”. A direção da Carol e do Raoni permitiam total liberdade e contribuíam muito para que nós atores pudéssemos entregar o melhor de nós.

Com tantos papéis, em diferentes plataformas, teve algum que você se identificou mais?

Sempre me perguntam isso, e eu nunca tenho um eleito. Gosto de todos os papéis que fiz, e me identifico em certa medida com cada um deles, independente do tamanho ou tempo que passei interpretando eles. Em novela a gente passa quase um ano se dedicando a um personagem só, em séries, alguns meses, em filme, alguns meses ou semanas, dependendo do personagem. Mas para todos há um mergulho, há um se debruçar sobre aquele universo e se inserir nele.

Você se tornou a mais nova embaixadora do Greenpeace Brasil, mas essa já está ligada à causa ambiental há bastante tempo. Como foi receber esse convite e como isso agrega no trabalho que você já realiza?


Jacqueline Sato. Foto: Pupin+Deleu

Foi um presente maravilhoso! Eu já divulgava as campanhas deles, já colaborava mensalmente, durante a pandemia fizemos algumas lives, e creio que perceberam em mim alguém que realmente se importa com a causa, daí o surgimento do convite. Sim, é verdade que sou ligada à causa ambiental há muito tempo. Acho que desde que me entendo por gente. Mas meu envolvimento foi crescendo junto com o meu crescer e minha conscientização. Eu estou amando estar mais próxima e mais envolvida. Assim consigo ajudar mais ainda na causa e espalhar as informações fresquíssimas e devidamente apuradas, ajudando mais gente a se conscientizar e se engajar. Espero ser cada vez mais útil e juntar uma galera cada vez maior nessa luta. Pois ela é urgente.

Além do trabalho ambiental você também é muito ligada à proteção dos animais, inclusive com a House of Cats. Você tem vontade de unir esse trabalho social com seus trabalhos no audiovisual?

Com certeza. Longe de me comparar a ele, mas o que Leonardo DiCaprio fez com “Flood” me inspirou muito. Poder direcionar parte da verba angariada com o filme para uma ONG e ajudar diretamente na causa é demais. E fora isso, acho que seria maravilhoso conseguir incluir também na ficção, dentro da própria história e dos objetivos dos personagens esta importância da proteção ao meio ambiente e aos animais. Consigo visualizar isto. Quem sabe, em breve, eu mesma não torno esse simples vislumbre em obras audiovisuais.

É isso. Jacque nos representa!

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@jacquelinesato

Fotos: Pupin+Deleu
Parceria Conteúdo: Brunda Brandão

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Jornalista por paixão. Música, Novelas, Cinema e Entrevistas. Designer de Moda que não liga para tendência. Apaixonada por música e cinema. Colunista, critica de cinema e da vida dos outros também. Tudo em dobro por favor, inclusive café, pizza e cerveja.

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