Entrevista com Gabriela Koatz: entre a flauta e a voz, a estreia como cantora aos 30 anos de carreira

Gabriela Koatz | Foto: Marcos Morteira

 

Premiada flautista, compositora e agora também cantora, Gabriela Koatz celebra 30 anos de trajetória com o lançamento do EP Todas as Coisas Que Eu Sou, que será apresentado no palco do Little Club, em Copacabana, no dia 22 de abril. Reconhecida por transitar com naturalidade entre o choro, o samba, a música de concerto e o jazz, a artista inaugura um novo momento ao assumir a voz como protagonista — revelando ,em cena, um autorretrato musical que reúne influências, encontros e reinvenções ao longo de três décadas.

Na entrevista para o portal Arte CultGabriela fala sobre esse movimento de se colocar, enfim, também como cantora, depois de anos lidando com a própria timidez e com o rigor de uma formação musical tradicional. Ao comentar o repertório, ela mostra como buscou traduzir, em diferentes gêneros e texturas, as várias camadas de sua identidade artística — conectando a música de concerto à canção popular, sem abrir mão da improvisação e de uma escuta atenta que atravessa toda a sua trajetória.

A conversa passa também por referências fundamentais em sua formação, como a professora e regente Valéria Mendonça, além das experiências no palco e do impacto da musicoterapia em sua maneira de criar e interpretar. Entre memórias, aprendizados e novos caminhos — como a participação no 18º Congresso Mundial de Musicoterapia, na Itália —, Gabriela compartilha um momento de virada em que arte e escuta se encontram para afirmar, com maturidade, todas as coisas que ela é.

 

1) O nome do seu novo EP Todas as Coisas Que Eu Sou é uma pista sobre todas as suas versões artísticas? Quais são elas e quais foram os seus critérios de curadoria para garantir que essas faixas traduzam exatamente o seu ‘autorretrato musical’? 

De certa forma, sim. O repertório do EP traz uma variedade de gêneros e também de texturas musicais que refletem a minha formação ao longo de 30 anos: das diferentes linguagens de concerto e popular, instrumentais e cantadas, me apresentando pela primeira vez como leading vocal e do meu alcance vocal, que se apresenta em diferentes registros a cada música. Busquei gravar releituras de arranjos feitos pela Valéria Mendonça, homenageada neste Projeto. O standard de jazz “All the things you are”, de Jerome Kern & Oscar Hammerstein II, explora bastante a região aguda e o título traduzido para o português significa  “Todas as coisas que você é”, de onde surgiu então a inspiração para o nome desse trabalho,  sintetizando toda essa diversidade musical em minhas influências artísticas.

2) No show de lançamento você estreia como cantora. É um grande passo após 30 anos de carreira. Quando você começou a cantar e porque apenas agora decidiu compartilhar esse aspecto com o público?
Quando comecei a estudar música em 1994, tive aulas de canto coral, aprendi técnica vocal com Marcelo Rodolfo e com Patrícia Costa, mas sempre fui muito tímida para me colocar em evidência, fosse cantando ou tocando flauta. Mas eu estava “lutando” contra a minha natureza,  pois eu precisava cantar! Eu precisava tocar! A música urge na minha alma como uma necessidade quase fisiológica! Então foi um longo processo de autodescoberta, de validação do meu saber e do meu talento, não era mais possível me esconder atrás das músicas que eu tocava quando essa música “gritava” mais alto que eu, me entregando ao meu público. Como dizia Gonzaguinha: “Chega de tentar dissimular e disfarçar e me esconder o que não dá mais pra ocultar e que eu não quero mais calar (…) não dá mais pra segurar… explode coração!”
3) O seu novo espetáculo traz uma homenagem póstuma à professora e regente Valéria Mendonça. Qual foi a maior lição ou legado que ela deixou na sua formação, e de que forma a essência dela reverbera neste seu primeiro trabalho solo? 
Além dos excelentes arranjos com complexidade harmônica e beleza estética,  Valéria também foi mentora, colega, amiga… aprendi muito com ela sobre valores humanos,  respeito ao próximo e aos animais, aprendi a dar aulas de música e a acolher os alunos em qualquer nível de desenvolvimento que apresentem, do iniciante ao avançado, aprendi a acreditar no meu talento e na possibilidade da Música como profissão. Uma fala da Valéria que reverbera até hoje na minha prática tanto como intérprete quanto como musicoterapeuta: “Você pode até não gostar de um determinado estilo de música, mas você não pode dizer que a música é ruim!”, o que também me ensinou a respeitar diferentes gostos musicais e a apreciar a música independente de preconceitos elitistas que tentam impor o que podemos ou não ouvir ou tocar.
4) Você fez parte de projetos como a Oficina da Música Universal, de Itiberê Zwarg, e tem dividido palcos históricos do Rio de Janeiro com grandes artistas da MPB. O seu espetáculo atual privilegia fortemente a harmonia e a improvisação. Depois de 30 anos de estrada, o que ainda te surpreende quando você está no palco improvisando com os músicos da cena carioca?
Subir ao palco sempre traz um frio na barriga e dividir com grandes artistas aumenta a responsabilidade…  Na formação tradicional, qualquer desvio da partitura pode caracterizar um “erro” quase fatal. Isso junto com a grande concorrência do mercado musical apenas reforça que os que vão subir ao palco serão sempre os mesmos, sem muitas oportunidades para novos artistas. O Itiberê me ajudou muito no meu processo de perceber que há espaço para todes, independente do degrau que já tenhamos subido no nosso desenvolvimento musical, desde que eu acredite na minha musicalidade e me permita conectar com a minha intuição. Assim, os grandes artistas não são como deuses inalcançáveis, mas como guias para onde eu quero mirar o meu desenvolvimento musical na minha escalada, pra eu poder dizer “olha só onde eu cheguei!”.
5) Como musicoterapeuta você trabalha com memória, emoção e uma escuta extremamente empática. Como essas habilidades influenciaram a sua própria musicalidade na hora de compor, interpretar e, principalmente, encontrar a sua voz como cantora?
A prática clínica na musicoterapia está frequentemente me desafiando no meu senso harmônico e na minha habilidade de criação e improvisação, a partir de recursos que eu já trago comigo da minha formação musical e pessoal, aliados às preferências musicais dos pacientes no setting. É um exercício constante de percepção, memória, colocação de voz, extensão e desenvolvimento das diferentes linguagens musicais (rítmicas, melódicas, harmônicas e agógicas). Ensino aos meus estagiários que é preciso separar a artista da musicoterapeuta, para não transformar a sala de atendimento num palco e os pacientes em plateia, pois os objetivos com a música são diferentes. Mas quando a música fala mais alto, é difícil camuflar “todas as coisas que eu sou”, pois os pacientes muitas vezes sentem essa musicalidade como um “espetáculo particular”.
6) Você está de malas prontas para a Itália para representar o Brasil no 18º Congresso Mundial de Musicoterapia. O que você levará do seu trabalho e da nossa cultura para compartilhar neste evento internacional, e qual é a sensação de viver esse reconhecimento global como musicoterapeuta exatamente no mesmo ano em que você se reinventa artisticamente nos palcos?
Conciliar a vida artística com as obrigações da rotina do trabalho “assalariado” é sempre muito difícil. Eventualmente é preciso privilegiar um lado mais que o outro, mas não por muito tempo, pois os dois ficam “enciumados” (rsrs). Aprendi que os congressos são oportunidades para transmitirmos o que a gente pensa, acredita e pratica no desempenho do nosso trabalho. Falarei sobre isso nas apresentações dos meus artigos, mas também vejo que a música – e todas as expressões artísticas – também têm esse papel de expressar ao público de qualquer lugar do mundo aquilo que forma a nossa essência, enquanto artistas e enquanto pessoas, por isso estou muito feliz de poder apresentar este trabalho: “Todas as coisas que eu sou”! Quem sabe também numa turnê pela Europa?!
7) O que você mais gosta de fazer para se divertir no seu tempo livre?
Amo estar em contato com a natureza, sol, praia, pedalar. De preferência, na companhia do meu filho e dos bons amigos que eu tenho! Ir a shows e prestigiar os amigos músicos faz parte do trabalho, mas também não deixa de ser um prazer.

 

 

Author

Redação do Portal ArteCult.com Expediente: de Seg a Sex - Horário Comercial. e-mail para Divulgação Artística: divulgacao@artecult.com. Fundador e Editor Geral: Rapha Gomide.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *