ELES

Foto TimeLapse de Pessoas Passando pela Rua

Crédito: unsplash.com

 

ELES

 

Conto de Rodolfo Guimarães Neves

 

A cara de desconfiança de Bruno era indisfarçável. Na recepção do consultório de Dra. Lúcia Helena, a recepcionista, Rebeca, serviu água com açúcar, pois sabia que o nervosismo do único que esperava o atendimento era crescente. Enquanto a Dra. Lúcia não autorizava a entrada, Rebeca saboreava uma maçã do amor. A cada mordida, Bruno se sentia um pouco mais confortável, uma vez que a jovialidade daquela comida, a forma como os dentes de Rebeca cravavam na crosta açucarada e a mastigação estalada na boca salivada da moça só demonstravam que o que tinha por vir não poderia ser algo de seriedade elevada.

—  Espera mais um pouquinho que ela chama. Quer uma mordida? — disse Rebeca.

—  Estou sem fome, obrigado — respondeu Bruno, estranhando a oferta.

— Por enquanto — retrucou Rebeca de boca cheia. Bruno corou involuntariamente.

Enfim, o telefone tocou e Rebeca, cumprindo as ordens da chefe, levou-o à sala da psicanalista, onde Bruno rapidamente reconheceu as estantes com livros, um divã, uma poltrona, estrategicamente voltada de costas ao citado móvel, e um quadro, na parede ao fundo, retratando as moiras, as três irmãs da mitologia grega que determinavam o destino dos deuses e dos homens.

—  Esse é um daqueles que aguardou a vida toda para ser atendido. Pense numa impaciência.

“Como?” pensou Bruno consigo, não conseguindo entender a maluquice que aquela recepcionista havia falado.

Após as apresentações costumeiras, a doutora foi incisiva:

—  Acomode-se, meu rapaz — disse a jovem e bela psicanalista indicando o divã, o que foi logo obedecido por Bruno. A blusa branca folgada e a saia justa negra transpareciam o tom profissional da especialista.

Tomando assento na poltrona, quase totalmente de costas para o divã, Lúcia Helena deu início à terapia.

—  E então, o que o traz aqui?

—  Doutora, ando muito angustiado.

—  E o que lhe dá essa angústia?

Bruno esfregou a mão direita no rosto, como que para acordar ou criar coragem.

—  Entenda, doutora, acho que descobri algum tipo de grupo de pessoas ou uma classe de pessoas especiais.

—  Tipo o quê? Médico, advogado…

—  Não, doutora. — Bruno demonstrava ansiedade. — É apenas um grupo de pessoas, não tem a ver com profissões, religião ou classe social…

—  Uma sociedade secreta?

—  Também não, não dessas que se reúnem na calada da noite. Eles apenas são… eles.

—  Eles? — Lúcia Helena em nada parecia surpresa, em tantos anos de profissão já tinha visto de tudo saindo daquele divã. Anotou com sua esferográfica “mais um” no seu bloquinho de notas, esboçando em leve sorriso.

—  É difícil dizer, mas não é uma classe como algo demográfico da geografia, eles se reconhecem entre eles.

—  Como? Por sinais, por assim dizer?

—  Não sinais, ou senhas. Pelo olhar, doutora, sobretudo pelo olhar.

—  Nesse caso, você deve ser um deles, ou não é isso? Ou como saberia reconhecê-los?

—  Também não. Eu apenas percebi as ligações entre eles. Eu fui perspicaz.

—  Nossa, que mistério! Dá até medo! — Dessa vez, contudo, ela anotou “sabido” no bloquinho de notas, num tom um pouco mais sério.

Bruno empertigou-se novamente no divã. Com o tempo ele escorregava e tinha que, por vezes, endireitar-se no móvel.

—  Entenda, doutora, eles apenas são eles.

—  Você já me disse isso, querido. Mas me diga, o que faz eles serem eles?

—  É difícil explicar… um brilho no olhar, uma sinceridade sem perder a elegância, uma honestidade… uma vontade de se ajudarem… é como se todos fossem meio que apaixonados por todos…

Após anotar “nosso” com dois tracinhos embaixo balançando a cabeça levemente de cima para baixo, ela perguntou:

—  Honestidade, auxílio, sinceridade, brilho… eles seriam assim, pessoas verdadeiras, assim?

—  Isso, doutora! Eles são muito verdadeiros, essa é a palavra.

—  Tipo assim, como se não tivessem nada a esconder uns dos outros?

—  É por aí mesmo, mas há um brilho no olhar, uma bondade sem piedade, mas com certa compaixão, uma vitalidade, um amor à vida.

—  Hum… — Anotou “conhece a ti mesmo” no bloquinho e virou a página.

Depois de um tempo falando sobre sociedades secretas e ordens religiosas, procurando algumas em que eles se encaixassem, de modo que Bruno veementemente dizia que em nenhuma delas e, ao mesmo tempo, a todas essas pessoas poderiam pertencer, afinal, eles eram apenas eles, o tempo da consulta havia se esgotado e Lúcia Helena disse que era a hora do almoço.

—  Mas marquei duas consultas seguidas. Tenho muito ainda a falar.

—  Eu sei, querido, não vou me furtar à minha obrigação, mas fome é fome.

Pelo telefone, Lúcia Helena pede para Rebeca trazer o lanche. Esta assim o faz de forma muito simpática, trazendo ao consultório uma bandeja com duas maçãs do amor. Parecia que havia esperado horas para cumprir aquela tarefa.

—  Maçãs do amor, doutora, esse é o seu almoço?

—  Cada dia como algo diferente, hoje você deu sorte.

Ambos se serviram e Rebeca retornou à recepção, não antes de dar uma piscadela ao paciente, o que deixou Bruno meio desconfortável.

Bruno comia devagar a sua maçã com certa desconfiança, com um olho na fruta e outro na doutora. Esta, por sua vez, devorou sua maçã em grande velocidade. Por um tempo, mastigações crocantes se ouviam no consultório.

—  Retornemos, meu rapaz. Se eles são pessoas tão boas, qual é a angústia?

Bruno, ainda de boca cheia, pela ânsia de dar uma resposta, falou assim mesmo:

—  Eu acho que eles me adotaram, doutora, algo assim.

—  Adotaram? O que o leva a acreditar nisso?

—  Sei lá, sou muito bem tratado por eles. Eles me ajudam a ser melhor. — Ao terminar de falar deu outra mordida na quase finda fruta.

—  E isso o perturba?

—  É que eu não sou um deles, ao menos ainda, não me considero merecedor.

Lúcia anotou “bobinho” no bloquinho, com um sorriso que transpareceu os dentes.

—  E o que o impede de ser merecedor de pertencer a eles?

—  Eu nunca, nunca fiz algo de extraordinário na vida. Tive a infelicidade de ter todos os meus planos sabotados por mim e por outros, invejosos, penso eu.

—  E precisa fazer algo extraordinário? Como um rito de iniciação? Me fale dessa sabotagem.

—  Não doutora, a senhora não está entendendo, não precisa! Quanto à sabotagem, acho que nunca consegui vencer minhas paixões, nem ignorar a crítica, muitas vezes injustas, sobre meus trabalhos.

—  Olha, garoto, estou tentando entender isso aqui. O que você ganha com essa adoção e por que você ainda não foi, por assim dizer, incorporado. — Anotou “sabotagem” em tom sério.

—  Eles simplesmente cuidam de mim, é como um abrigo. Às vezes acho que não mereço tamanha consideração. Eu sou um lixo. — Uma lágrima furtiva rolou do olho esquerdo de Bruno.

“Tadinho”, escreveu meio consternada ao mesmo tempo que esboçou mais um leve sorriso. E virou a página.

Bruno continuou:

—  Eu penso que sou uma pessoa de pouco valor, não mereceria fazer parte deles.

—  Talvez essa seja a questão. — “Merecimento” e “chave” no bloquinho.

Falaram sobre a importância de levar a vida com autenticidade, não procurar bajular ou agradar ninguém, que deveríamos amar e confiar nas pessoas sem esperar nada ou muito em troca. Que o amor próprio seria a chave para poder amar os outros e que uma vida feliz dependeria mais de nós do que de qualquer outra pessoa. No fim, ela ainda indicou um livro de Epicteto.

Rebeca, após anunciar-se batendo à porta, entrou no consultório e disse categoricamente:

— A senhora Consolação já aguarda na recepção, doutora, ela veio no horário. — E retirou-se.

Rapidamente, Lúcia Helena demonstrou um semblante pesaroso.

— Rebeca, encomenda uns sonhos para o lanche da tarde — disse pelo telefone.

Retomando a alegria, levantou-se e se dirigiu ao divã.

—  Bem, encerramos por hoje.

Ao olhar nos olhos da doutora, seu rosto amável e seu porte confiante, Bruno não disfarçou o espanto.

—  Esse seu olhar doutora… esse olhar. Doutora você é uma d’Eles! Você…

Ela sorriu, agachou-se e aproximando seu rosto ao dele, deu-lhe um beijo na bochecha deixando a marca de batom, e emparelhando os olhares, disse a ele com seriedade, sem perder a jovialidade:

—  Olha, garoto, nós te amamos, mas não mija fora do penico para não estragar tudo. São quinhentos reais pelas consultas, deixe com a recepcionista.

Atônito, Bruno se despediu da doutora com a compostura que lhe restou e meio flutuante foi para a recepção, onde efetuou o pagamento a Rebeca, que anunciou a entrada da próxima paciente.

Sorrindo ao ver a marca de batom na bochecha de Bruno, Rebeca perguntou:

—  Quer deixar marcada a próxima consulta?

—  Não, não. Não vai ser necessário. — Bruno reparou nos olhos castanhos brilhantes de Rebeca e percebeu que ela também é um deles.

—  OK, garoto, beijos no coração.

 

***

 

Só, na recepção, Rebeca levanta-se, encosta o bumbum na mesa e olha diretamente para VOCÊ.

—  E VOCÊ? Já se perguntou se faz parte deles? Já se olhou no espelho hoje? Viu o sol nascer, deu um beijo no seu filho ou na sua mãe? Perguntou-se se sua vida vale a pena ser vivida, se você mais acrescenta do que tira? Se o amor vale a pena e todo o ódio e frustração não passam de uma perda de tempo na sua vida e na dos outros? Se lhe custa ser um pouco mais gentil com as pessoas e que o ressentimento é um mal que devemos evitar? Passeie no parque, faça um piquenique, admire a exuberância da natureza, não se preocupe com o que não lhe diz respeito, inclusive a vida alheia. Não julgue se não quiser passar pelo mesmo crivo. Critique se estiver condição de fazê-lo, mas não humilhe ninguém. Lembre-se de que o que vai, volta, e que tudo que semeia irá colher. Não dê atenção a assédios de todas as espécies. Perdoe, mas sem abrir mão da justiça. Seja verdadeiro consigo próprio e nas suas ações. Dê uma dose cavalar de amor e vitalidade a si mesmo e encare a vida de peito erguido. Talvez um dia, entendendo essas coisas e algumas outras você possa fazer parte de NÓS.

 

(in Eles, Outros Contos e Poemas, Editoria IGP, 2020).


com Rodolfo Guimarães Neves

com Márcio Calixto


com Ana Gosling

com César Manzolillo


com Tanussi Cardoso

com Rose Araújo

Author

RODOLFO GUIMARÃES NEVES. Nascido em Olinda, Pernambuco. Já foi advogado. Bacharel em Direito pela Universidade Federal do Espírito Santo, Bacharel em Economia pela Universidade Estácio de Sá, e com especialização em Planejamento e Gestão Pública pela Universidade de Pernambuco. Atualmente, trabalha como servidor público federal. Teve poemas e contos selecionados em diversas antologias. Foi premiado com a trilogia completa do livro “O Senhor dos Anéis” de J.R.R. Tolkien, num concurso literário do antigo sítio IGler, no início do milênio. É autor do livro de ficção científica “A Dinâmica Orgânica”, publicado pela editora Ibis Libris em 2024, assim como do respectivo roteiro de história em quadrinho de ficção científica homônima. Seu conto “O Mal Iluminado” foi selecionado para compor a antologia de contos "Mensageiros", da Editora Carnage em 2025. Já o seu conto "A Invocação" foi selecionado no concurso literário Kosmokontos da Editora Ventura em 2023 e seu conto "Uma Segunda Chance" (Menção Especial) participou da coletânea Celebração da mesma editora em 2026. É colaborador da Revista Vida Livresca (ES) e participou da coletânea de contos Vitória Sombria 1 (ES) da Editora Vida Livresca. Participa recorrentemente de coletâneas de contos da Revista Literatura Fantástica. É autor da antologia intitulada “Eles, Outros Contos e Poemas”, da Editora IGP (2020), e da peça teatral “Ressentimento”, pela editora Travassos. É o autor dos frevos "Cidades Irmãs" e "Aurora das Festas". Foi o vencedor do concurso da Revista PUB 2023, na categoria teatro, com sua peça teatral "Resignação".

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