Desta vez sobre mim, meus 47.

Coluna de Márcio Calixto

 

Com esse negócio de escrever no caderninho, percebi que consigo escrever muitas crônicas, mas digito pouco. Como exemplo, para a crônica do ano passado, a dos meus 46, eu ainda tinha a crônica dos meus 45 para digitar. Fiz duas em uma e pronto. Embalei para presente e digitei. Ao mesmo tempo, como tem gente que faz aniversário nessa época, escrever para todos se torna um exercício de volume textual que o mês de setembro – e minha publicação semanal – não me permitem dar conta. Mas o irei. Quero de alguma maneira todo mundo contemplado aqui. Quero todos contemplados à vida.

Chego, porém, nesse momento, em que devo escrever sobre mim. Só que, mesmo aos 47, com mais um ano de vida, não tenho nada de novo a contar. Persisto gordo, persisto feio, barbudo e com uma caneta na mão, escrevendo para me dar um senso de importância. Sei que não entrego nada de novo nessa seara da escrita de crônicas, nem me propus a ser um novo guimarães ou um novo machado. Sei que há os que querem. Sou despretensioso em minha pretensão egótica. Pleonasmo basal. Quero ser lido, claro, quero poder terminar meus romances, editar livros. Há um bom tempo que não lanço nada, a não ser essa constância de crônicas. É um canal que me cabe. Ainda bem.

Chego aos 47 com os mesmos desejos dos 46. A vida nessa fase é tocar o barco, às vezes o barco no rio-rio-rio, o rio, à vezes olhando Caronte na outra margem. Há outros no caminho do Rubicão (até porque desejo também possuir um Jeep Wrangler Rubicon), em outras me sento no barco. Atrasado em meu deserto particular, olhos os lados e há inundações que me tampam os pés. Eu sou uma ilha deserta, desértica, a ser desertada. Penso que todos me deixarão, eu aceito a finitude antes da finitude real. A morte dada ao lobo ferido que um dia já liderou alcateia. O lobo parte, é hora de estradas.

Chamo-a de a Mãe de todos os Exílios, quando nela, é hora de se ir, de se partir, deixar que a homeostase caótica apague rastros e deixe algum brilho à saudade. Não é abandono, é síntese natural da vida. Penso em seguir pela estrada de novo, mas a que vai para o nada, sem rumo.

Faço 47. Ponto. Está bom assim.

 

MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

 


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Author

Professor e escritor. Lançou em 2013 seu primeiro romance, A Árvore que Chora Milagres, pela editora Multifoco. Participou do grupo literário Bagatelas, responsável por uma revolução na internet na primeira década do século XXI, e das oficinas literárias de Antônio Torres na UERJ, com quem aprendeu a arte de “rabiscar papel”. Criou junto com amigos da faculdade o Trema Literatura. Tem como prática cotidiana escrever uma página e ler dez. Pai de 3 filhos, convicto carioca suburbano bibliófilo residente em Jacarepaguá. Um subúrbio de samba, blues e Heavy Metal. Foi primeiro do desenho e agora é das palavras, com as quais gosta de pintar histórias.