DESATO

Coluna de ROSE ARAUJO

 

A convite do ator e amigo Betho Borges, me organizo para assistir a peça DESATO, baseada em textos e poemas da poeta, filósofa e psicanalista Viviane Mosé, voz significativa e inquietante em nosso cenário contemporâneo.

Chego exatamente às 18h30, com tempo para um papo, uma foto, um cappuccino e uma percepção do ambiente. Combino com Mari, amiga querida, também psicanalista e poeta, que está a caminho.

O foyer é florido de gentes de variadas tecituras, na mesma expectativa que eu – assim, em uníssono: sermos atravessados, impactados pela entrega que há de vir, nesse espetáculo de aguçar os sentidos.
Ouço diálogos entrecortados, percebo abraços, reencontros de longo tempo, clima de romance entre casais, sorrisos contidos, gargalhadas, amigos-cúmplices, primícias embaladas pelo plano de fundo profundo da arte que nutre, desperta e instiga.

Mari chega e não atrasada – a adiantada fui eu! – o reencontro foi esfuziante, em meio a conversas soltas, poesia, e atualizacão de alguns episódios perdidos, desde a última vez em que nos vimos.

Primeiro sinal

Segundo sinal

Terceiro sinal

 

O palco nos abraça no lilás, no espaço do sagrado, no feminino, por dentro e por fora.

Versos à baila nos embalam e afetam.
Figurinos e vozes e gestos sobrepujam, assentando morada no corpo e na memória. Há transcendência no verbo, no lavrar da palavra, sentindo o pulsar do texto de Viviane – a filósofa.
A compilação bem alinhavada das falas da peça apresenta e liberta sentimentos, lançando olhar sobre o cotidiano, o outro, o corpo, a vida, e o corpo da vida: um olhar sobre si, significado e significante, de encontro a cada um de nós.

As atrizes Letícia Medella, Ana Carbatti e Ana Paula Novellino achegam-se e realizam uma narrativa em corpos, gestos e vivências.

Desato, como Viviane Mosé diz, é um não lugar, um revelar, um inquietar o espaço do corpo desastroso: abertura para um novo gesto e experiência de vida.

Contamos com o figurino, pontuando o espetáculo, o cenário aquecendo o olhar, e a sonoplastia conduzindo a imersão.

O ritmo, a melodia, o jogo de palavras e as palavras em jogo se revezam no protagonismo de vidas, corpos, conceitos, transcendências, finitudes, amplitudes, desdobrando universos.

Desato é tátil, é têxtil, é dinâmico e tamɓém azul …lilás! Os gestos são versos e o versos são o verbo, o corpo do verbo.

Termina o espetáculo e versos seguem ecoando na mente:

Não tenho pele
tudo me fere
sofro de carne viva

A vida pulsa
mesmo que a dor
desague suas enchentes

Quando fiz um filho
e ele me fez

A vida não é o que passa
a vida é o que fica
passando
passando…passando…passando…

 

Foram setenta minutos de peça, alados de tempo e pouso no encanto.

Na saída o registro, a foto e um breve bate-papo com uma das atrizes – Letícia Medella, também palhaça no projeto pioneiro Doutores da Alegria, que introduziu há mais de trinta anos a arte do palhaço no universo da saúde. (www.doutoresdaalegria.org.br)
Letícia conta-nos da singularidade da direção de Duda Maia, onde utiliza os gestos como extensão poética pulsante. Comenta que o processo de compilação foi tecido também com a atriz Anna Paula Novellino, no garimpo dos poemas: processo primoroso e atento, entrelaçando narrativas e voos e tempos e olhar.

Ainda curiosa e impactada pergunto à Letícia como foi o seu processo, com o texto e ela nos revela seu labor:

“A Duda (diretora) desenvolve o espetáculo pelo corpo, pelas veias. A poesia da Vivi é uma experiência que se vive. Não se entende com a cabeça e sim pelos ossos, corpo, respiração, pelos órgãos. Eu não me preparei para estar nesse espetáculo. Ele que me preparou para estar nele: as palavras, o trabalho da Duda me envolveram, me colocaram no lugar da poesia.”

Obrigada, Leticia!

Reforçamos o convite a desvelar o universo da palavra, com a peça DESATO, que é imersão e também expansão, um entrelaçar da poesia tamɓém em outras artes.
Atualmente faz o circuito Sesc julho de 2026, a peça integra a programação oficial da 24ª edição do Festival Sesc de Inverno.
As sessões contam com valores populares e algumas opções gratuitas. Confira as datas e locais confirmados:

Petrópolis:
Apresentação no Centro Cultural Sesc Quitandinha
Data: 31 de julho de 2026, às 20h
Ingressos: Vendas no Portal Sesc RJ ou na Ingresso.com

Nova Friburgo:
Ingressos: Vendas presenciais na unidade Nova Friburgo: Apresentação no Sesc N.Friburgo
Data: 23 de julho de 2026
Ingressos: Disponíveis para retirada no Ingresso.com

Prestigiem, evoé!

Mari e eu brindamos, nutridas de poesia.
Sim, a vida pulsa.

 

DESATO

Texto: Viviane Mosé
Direção: Duda Maia
Idealização: Marilia Medina
Intérpretes-Criadoras: Ana Carbatti, Ana Paula Novellino e Leticia Medella
Iluminação: Lina Kaplan
Direção de Arte e Figurinos: Karen Brusttolin
Trilha Sonora Original e Direção Musical: Azul
Assistente de Direção: Marilia Medina
Fotografia: Lorena Zschaber
Produção Executiva: Renan Fidalgo
Assessoria de Comunicação: Dobbs Scarpa
Direção de Produção: Luiz Prado
Realização: 8 Produção Cultural e Marilia Medina

Na CasAmarÉlinha, cinco anos se acendem e transcendem: espaço das artes bordado em encontros, tecendo versos em sorriso que alumia. Que venham mais cinco, passarelando em poesia!

ROSE ARAUJO 

Rose Araujo (@rose_araujo_poeta). Foto: Divulgação.

Conheça a coluna de Rose Araujo

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com Rose Araújo

Author

Rose Araujo considera-se paranaóca: paranaense de raiz e carioca de toda a vida. No entrelaçar das culturas algumas vezes de lá e outras tantas de cá. Assim leva a vida gostando de gente, de bicho, de livro, de planta e - sobretudo - de poesia, tecendo artes, aguçando o olhar, em meio a tantas gentes. Desenhista industrial de formação, é também poeta, fotógrafa e produtora cultural por paixão. Realizou inúmeras produções de shows, eventos e projetos gráfico sendo, alguns, em parceria com o maestro e pianista Haroldo Goldfarb. Desde 2020 Rose coordena o Espaço Cultural da CasAmarElinha, em Itaipu - que carinhosamente renomeou de ItaiPAZ - na Região Oceânica de Niterói- RJ. Em seus seis anos de efervescência, realizou lives, saraus premiados pela Comissão de Arte e Cultura do Rio de Janeiro e APPERJ e lançamentos e entrevistas sob o projeto itinerante da Passarela da Poesia, projeto onde já passaram significantes nomes da poesia contemporânea brasileira. Estreou na literatura em coletâneas e antologias, mas seu primeiro livro solo nasceu em 2022, em plena pandemia. Em Quando Vida Poesia (Editorial Casa, 2022) foi presenteada pelo prefácio de Tanussi Cardoso e orelha de Ricardo Alfaya, tendo grande receptividade de público e crítica. Rose Araujo e membro da APPERJ-RJ, UBE-RJ, IICEM e PEN Clube, segue nas feituras de dois livros, já no forno, com lançamentos despontando logo ali. A convite do editor-chefe Rapha Gomide, vem somando à grande família de colunistas do portal ArteCult, em sua coluna quinzenal Poesia em Todas as Artes, desde janeiro de 2025. Rose acredita no coletivo, nas somas, no vamos juntos, no enquanto e no encanto da vida, sendo mais e mais poesia. @rose_araujo_poeta @passareladapoesia @rosearaujofotosafetivas

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