CONTO DE QUINTA: Cibele

com César Manzolillo

 

CIBELE

 

Cibele sempre adorou um espelho. Desde criança, ficava horas diante dele. Penteava os cabelos, fazia e retocava a maquiagem. Experimentava roupas. Saias rodadas e blusas rendadas. Sapato boneca de salto alto, sandália anabela, bolsas de vários modelos para todas as ocasiões, cintos, joias. Porta do armário aberta, mudava de posição, afastava-se, aproximava-se, levantava a saia, ajeitava a blusa. Que brinco combina mais? E a tiara do cabelo? Colar ou gargantilha? Tradicional, não dispensava os broches. E esse decote? Ousado demais? Que nada, ela sabia do seu potencial. Unhas e batom vermelhos sempre foram os seus preferidos. A cor do cabelo? Loura, claro. Realçava sua feminilidade, seu lado fatal. Quanta futilidade. Coisa de mulherzinha, diriam alguns. Mas Cibele não ligava. Nunca se importou com a opinião alheia e vivia muito feliz assim. Era forte, segura de si e sabia suportar as adversidades. Naquele último dia de julho, era seu aniversário. Antes de ir para o banho, deixou na cama tudo o que poderia usar: vestido de seda azul, scarpins pretos ainda não estreados, lingerie cor da pele, meia-calça de náilon, perfume suave de frutas. Terminado o banho, roupão a envolver-lhe o corpo, toalha na cabeça, Cibele entra no quarto. Cantarola uma música de Mina, a diva pop que lhe foi apresentada pelo ex-marido italiano. Se telefonando io potessi dirti addio ti chiamerei. Itália, o casamento… ótimo enquanto durou. Está feliz agora. Liga o rádio e repara que ainda não escolheu os adereços da noite. Brinco com pingente? Grande? Isso mesmo. Pingente e grande, decide. Pulseira de ouro fino. A canção que sai do aparelho lhe traz lembranças… a infância em São Fidélis. Pai, mãe, duas irmãs mais velhas. Para por alguns instantes esperando que a música acabe. Um aceno a esmo feito com a mão direita e um discreto muxoxo impedem que a nostalgia a invada. A hora avança. Não pode mais perder tempo. Na frente do espelho, Cibele retira a toalha e deixa cair o roupão. Satisfação plena e nudez completa. Com certo cuidado, pega então o próprio pau e o empurra para trás, fazendo-o sumir por entre as pernas.

 

 

CÉSAR MANZOLILLO

 

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Author

Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de 32 coletâneas literárias. Autor do livro de contos "A angústia e outros presságios funestos" (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos. Toda quinta-feira, no ArteCult, publica um conto em sua coluna "CONTO DE QUINTA", que integra o projeto "AC VERSO & PROSA" junto com Ana Lúcia Gosling (crônicas) e Tanussi Cardoso (poemas).

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