Chico Pinheiro fala sobre fim da quimioterapia; Adnet revela que ataques virtuais o fizeram recusar novo trabalho político

 

No Despertar 2026, jornalista relatou seis meses de tratamento contra câncer colorretal; humorista contou que abriu mão de voltar à sátira política por receio de que ofensivas nas redes atingissem sua filha.

As marcas deixadas por experiências pessoais recentes atravessaram as participações de Chico Pinheiro e Marcelo Adnet no Despertar 2026, neste sábado (19), em São Paulo. Enquanto o jornalista falou publicamente sobre o fim de seis meses de quimioterapia contra um câncer colorretal, Adnet revelou ter recusado um convite para voltar a fazer humor político por receio de que os ataques que recebe nas redes sociais chegassem à sua filha.

Pinheiro contou que passou por duas cirurgias e seis meses de quimioterapia, encerrada nesta semana. O câncer foi descoberto em estágio inicial após uma colonoscopia que, segundo ele, decidiu fazer por iniciativa própria.

“Eu acabo de sair de uma quimioterapia de seis meses, duas cirurgias, para um câncer de intestino. Um câncer colorretal que foi diagnosticado a tempo graças a uma colonoscopia que eu fiz”, afirmou, antes de pedir aplausos aos profissionais de saúde.

Ao descrever como atravessou o tratamento, o jornalista disse ter aprendido a lidar de outra forma com o tempo e a incerteza.

“Não há nada que eu possa fazer a não ser aprender a ser paciente. É acreditar que a vida vale a pena. É acreditar que um dia a mais pode fazer uma baita diferença na vida de cada um.”

Adnet: ataques fizeram humorista recusar convite

Marcelo Adnet começou a apresentação com uma piada provocadora: saudou o ICL como “Instituto Comunista do Leblon”, mas levou a conversa para um dos efeitos mais concretos da polarização e da violência digital sobre sua vida profissional.

O humorista contou que recebeu recentemente um convite para voltar a produzir conteúdo de sátira política. Segundo ele, chegou a considerar a relevância de se posicionar publicamente, mas decidiu não aceitar por temer que as agressões dirigidas a ele chegassem à filha.

“Agora eu sou pai. As pessoas me xingarem, eu estou acostumado, eu não vejo problema. Agora a pessoa ir para cima da minha filha, eu não quero”, disse Adnet.

Segundo o humorista, trabalhos de sátira política passaram a ser acompanhados por acusações falsas, ameaças e ataques nas redes. Alguns deles chegaram a utilizar contra ele o abuso que sofreu aos sete anos de idade, experiência que revelou durante a própria palestra.

Adnet também associou esse ambiente de hostilidade à decisão de se afastar de um novo trabalho político. Em outro momento, descreveu o que considera uma estratégia de desgaste:

“É uma estratégia para eu cansar, me causar problemas psicológicos, aumentar a dose do remédio. Aí eu paro de falar.”

Humor como contraponto ao poder

A relação entre humor e política ocupou boa parte da apresentação. Adnet recordou que acompanha campanhas eleitorais desde criança e disse ter percebido, ao longo da carreira, a capacidade da comédia de interferir na desconstrução pública de uma autoridade.

“Enquanto a política gasta milhões e milhões para construir a imagem de alguém, às vezes um comediante, com um celular na mão, consegue destruir essa imagem com um vídeo”, disse.

Na avaliação do humorista, a radicalização do ambiente digital alterou essa disputa. Ele falou sobre ataques automatizados, desinformação e a transformação da opinião em produto, argumentando que a hostilidade entre grupos da própria população acaba deslocando a cobrança que seria dirigida a quem exerce o poder. As observações foram apresentadas como sua leitura do atual ambiente político e digital.

A palestra também voltou à infância de Adnet. Ele contou ter sido vítima de abuso aos sete anos e que demorou cerca de oito anos para compreender o que havia acontecido. Segundo o humorista, sentimentos de culpa, injustiça e raiva acabaram encontrando no riso uma forma de elaboração.

“Eu vi que tem outro caminho, que é o caminho da subversão e da vingança através do riso. Eu vou rir da desgraça, eu vou rir da nossa condição humana”, afirmou. Hoje, compara a lembrança a uma cicatriz: “A ferida fechou. Ela está aqui. Eu não tenho como fazer essa cicatriz ir embora, mas eu aceito. Eu passei por ela, eu sobrevivi.”

 

 

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