Com Ana Gosling

Imagem gerada por IA/ChatGPT
Há poucas pessoas com quem se pode falar sobre perdas. Bem intencionados sugerem mudar de assunto, evitando testemunhar a tristeza do outro. Quem não se quer próximo, foge do tema para não criar intimidade. Outros evitam o assunto, simplesmente, por não saberem lidar.
Mas é preciso falar sobre a perda. Ao contrário do que alguns pensam, a dor não passa no silêncio. É preciso verbalização. A fala traz elaboração, esvaziamento, estruturação da mente. Garimpando memórias felizes, balanceando o que marcou e trouxe alegria, cicatrizam-se feridas. Lembranças boas tornam pequenas as ruins.
O amor perdido fere e traz experiência. A oportunidade desperdiçada ensina a apostar, mesmo com medo. O luto ensina a importância de demonstrar seus sentimentos àqueles que ficam. Não há panos quentes nem copo cheio ao lidar com a perda: dói, é horrível, modifica-nos, quisera poder evitá-la. Mas o amadurecimento é efeito colateral do processo.
Se perdemos o olhar romântico sobre a vida, ganhamos a completude da experiência real. Se ficamos desconfiados, a prudência se torna obrigação. Se vivíamos como se não houvesse amanhã, encaramos os dias como únicos, melhoramos nossas escolhas, não desperdiçamos tempo nem energia com pessoas, lugares ou tarefas que não valham a pena.
Há perdas que deixam lacunas eternas, sem se remodelarem. De tempos em tempos, reclamam uma lágrima, atravessam uma espinha imaginária no coração. Não tenho medo delas. O que marca profundamente, deixando tamanha saudade, foi privilégio, valeu ser vivido, foi bom a ponto de tornar-se inesquecível.
As brincadeiras na vila da infância. O cheiro do sofá da minha avó. O olhar do meu pai a zelar por mim no mar. A espera da oportunidade de dançar com o garoto dos sonhos. O perfume deixado nas luvas que me emprestou. O melhor lugar em que trabalhei. Os momentos em que me senti amada. Aqueles em que mais amei. O beijo me acendendo na alma a possibilidade de superar o fim do sonho. A noite em que, apaixonada, dancei na chuva, no meio da rua. O cheiro do meu bebê, a textura de sua pele. Os almoços na casa dos pais. Os poemas declamados por minha mãe. Nada volta, tudo se perdeu lá fora, há muito, e ficou guardado em mim.
Mas se falo da perda, afasto ouvintes. “O futuro, o que será? O presente é o que interessa. O passado passou, sigamos”. E sou esse mosaico cheio de ontens e agoras, puxando conversa. Carrego orgulho de ter sonhos realizados, culpa por abdicar de outros, angústia por desconhecer o sentido profundo desta existência e o itinerário da próxima. Tento conexões além de risadas, jogos, viagem, sexo ou praia. Há dias em que preciso de companhia em silêncio, na frente da tevê, na antessala do consultório ou para ouvir os pássaros.
Não temo as perdas inevitáveis. A morte. O amor esgotado. O fim dos ciclos. Medo tenho de não colecionar lembranças alegres. Do sofrimento me obrigar a desistir antes do tempo certo. De sair antes que se perceba minha existência e se enterneçam por mim. De nada me importar a ponto de eu ignorar o morno da ausência.


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com César Manzolillo














