Às quartas – Onde, quando?


Com Ana Lúcia Gosling

Foto: Thomas Bormans, em Unsplash

Onde escondo os medos transpostos à beira dos desejos realizados? De onde me espreitam, esperando os dias ruins, em que as dúvidas golpeiam minha determinação? A noite se estende sobre meus sonhos?

Antes que me cubram os olhos, eu os domino.

Onde guardo as chaves da porta pra novo cenário? Como destranco os trincos, giro os ferrolhos, para avançar na direção da estrada? Para deixar o vento deitar as folhas do quintal no degrau de mármore? A luz riscar triângulos entre o corredor e a cozinha, mostrando lá fora ser dia?

Mantenho as portas escancaradas. Posso ser vista, caminhando, descalça, pela casa.

Em que gaveta ponho o relógio que marca minha permanência? A agenda em que está anotada a data da minha chegada, o dia da minha partida e, nas páginas do meio, os eventos principais: os dias vazios de compromissos?

Jogo para trás os registros do tempo, os calendários, o que ultrapassei.

Em que oráculo vi registradas as frases que direcionaram minhas escolhas? As previsões? O dia da paixão chegar. Do corpo se enxergar perfeito. Da saúde estar em alta, a alma em paz. De realizar o sonho. O dia de gerar. O de ser tocada por um amor. O mais feliz da vida. A despedida mais dura.

Ignoro se ilusões me desviaram do curso ou se presságios que me apontaram a direção. Sigo, entregue, apenas.

Que fiz com o peito dilatado pelo amor agora inexistente? Com o futuro planejado impossibilitado de acontecer? Com as feridas que não pude ostentar, as lágrimas recolhidas antes do sol nascer, de sentar-me à mesa ou de confessar o abandono?

Vesti de luz o coração sombrio forjado nas longas noites.

Quando saberei ser turva a paisagem? Quando terei as certezas confundidas? As memórias misturadas? Uma alegria desperta por uma canção antiga ou pelo cheiro da casa de um passado onde viverei? Uma preocupação enorme? A falta de noção do perigo, do tempo, de tudo que me era conhecido?

Talvez nunca. Talvez agora.

Por isso, a pressa. Confesso o meu amor, agarrada à lucidez com que o percebo. Escrevo, deixando pegadas no mundo. E danço, leio, beijo, deixando o mundo em mim.

 

ANA LUCIA GOSLING

@analugosling

 

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Author

Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, no ArteCult, há crônica nova da autora, que integra o projeto AC VERSO & PROSA junto de Tanussi Cardoso (poemas) e César Manzolillo (contos). Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

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