
Com Ana Lúcia Gosling

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Morar próximo à reserva florestal tem seus contratempos. Há épocas em que os insetos me visitam com frequência. Várias espécies que não sei classificar: de perna longa ou curta, corpo redondo ou hexagonal, pretos ou coloridos.
Uma coisa interessante aconteceu há dias. Lembram-se da revoada branca no céu da Praça de São Pedro, no velório do Papa? Uma dessas sincronicidades que parecem fabricadas pela Espiritualidade, fazendo o homem flertar com a esperança. No dia seguinte às imagens divulgadas, minha cozinha foi invadida por um bando de mariposas.
Mariposas não são angelicais como pássaros brancos. Muitos, até, as associam a mau agouro. Não penso assim. Se é para achar que a sorte meteu o bedelho, acho logo que foi a boa sorte.
Foi uma semana triste, aquela em que o Papa partiu. Além disso, naqueles dias, senti muita dor no joelho, um problema há meses. Era véspera de apresentar-me num festival de dança. Vi os pássaros num dia; no outro, rezei para a dor não me pregar peças. Ao chegar na cozinha para beber água, seis mariposas voavam em volta da lâmpada. Senti uma alegria, como se fora molecagem, um sinal positivo para desfazer a ruga da testa. Mariposas representam recomeço, esperança, também.
Na manhã seguinte, acordei sem dor. Dancei com a segurança de quem tem um joelho bom. Efeito placedo ou pequeno milagre, não me importa saber. Recebi a graça. Desde então, as tenho bem vindas.
Hoje, as mariposas voltaram. Neste momento, escrevo e há oito delas na minha cozinha, umas em torno da luz, outras pousadas no ladrilho, uma no teto. São pequeninas, crianças ainda. Eu, vendo conexão em tudo, me lembrei de sentir-me boba nesses dias. Tanta era a alegria dos últimos acontecimentos, ligados à dança e à escrita, que tive uma espécie de deslumbramento infantil.
Sempre séria e responsável, ando alegre como menina, ocupando lugares que nunca foram meus. Como em sonho. Tenho medo de o porre passar e vir a vergonha do quanto exagerei a empolgação. Sem arrogância: só a leveza de transitar fora do conforto, topando o risco do ridículo e da rejeição. E sendo recompensada pela ousadia.
Já fui muito séria, desde criança (fui dessas crianças-adultas). Isso trouxe peso às minhas escolhas. Não deixei de ser responsável mas, talvez, tenha aprendido a brincar. Buscando, ainda, a plenitude dessa liberdade.
As mariposas pequenas invadem a cozinha e parecem dizer-me: “hoje, viemos as crianças”. Nada falam de verdade. Está tudo em mim: a fantasia, a coragem, as dores, os sorrisos, a fragilidade e a força.
Que mau agouro, o quê! Venham, meninas, me ensinem também a voar.


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com César Manzolillo













