
Com Ana Lúcia Gosling

“Celui qui tombe”, coreografia de Yoann Bourgeois (print de tela)
Não preciso falar. A mudez me pesa menos do que as realizações medíocres. Os olhos baixos, a marcha ininterrupta, chegar e nunca ter entrado, sair e nunca ter deixado. O silêncio é um alívio. Economiza-me o fôlego.
Inebrio-me com as brisas dos precipícios. Não ouso desafiá-los. Só sinto sua potência, trago sua imensidão. Deixo o vento varrer a sombra dos dias. Esperança? Não sei. Mas a vida lambe meu corpo enquanto me inclino sobre a paisagem.
Quando não tínhamos fé, firmar os pés no chão nos mantinha equilibrados. Apesar da falta de propósito, nunca deixamos de caminhar. Mesmo nos giros, estávamos erguidos. Agora, o andar solitário nos exige mais força. Disputamos os espaços com passadas mais largas.
Nessa trilha sem esquinas, talvez nos reencontremos no meio da avenida. Quem sabe a força do meu abraço, sugira a você o fim dessa solidão? Ou minha respiração em seu ouvido, traga o tempo em que a vida foi arrepio e gozo. Talvez você me explique por que mudou o rumo, girando ao contrário de mim.
Mas não penso nisso. Caminho, conformada, sobre o chão duro. Ouço passos me perseguindo e freio. Deixo que me ultrapassem. Há os que me acompanham. Uma sensação quente faz a vida parecer mais leve. É breve mas me alimenta.
Estico os braços para os que passam no outro lado da rua. Sou vista. Estendo a mão e quase posso tocar as pessoas. Se me esgueirasse mais, você me deixaria alcançá-lo? Eu repousaria seu rosto em meu peito. Sou ninho, apesar da vida em desamparo. Valsaríamos. Você amortizaria meu salto, perdoando-me a vontade de voar?
Não perco o ritmo. Calo as angústias. Firmo os olhos no horizonte. Contraio os músculos, resistindo à força. Não pauso, não penso, não choro nem gargalho. Corro, perco, encontro, mexo os braços no ar.
Você anda de costas para mim. Não economiza a pisada. Mesmo quando a roda traz seu corpo em minha direção. Você o inclina no sentido oposto, recuperando o quilômetro perdido. Se nos esbarrássemos nos cruzamentos, você se viraria?
Ah, nesse tempo de silêncios, precisa-se coragem. Se não me vê, como lerá nos meus olhos as palavras que não posso pronunciar? Se não entrelaçamos as mãos, é difícil resistir à tempestade. Não se deixe tombar nem vá para longe. Alcance-me. Venha. Sigo perdida mas caminho.
Já não vejo você. Não é mais possível parar o passo. Mesmo se os pés sangram ou a alma se fere. Ainda que tenha deixado de sonhar. A marcha ininterrupta me impele e me obriga. Sem cessar.
* Texto inspirado em “Celui qui tombe”, coreografia de Yoann Bourgeois.
DICA DA SEMANA:
E já que estamos falando de dança, não poderia faltar um convite especial para os leitores prestigiarem a reestreia do espetáculo “Gingers, uma obra de arte do tempo”, da coreógrafa Rafaeli Mattos, encenado pelo Grupo de Sapateado Sapatos Ageless.
“A artista Rafaeli Mattos traz à cena o desafio de criar e coreografar pessoas entre 54 e 90 anos, material humano não-artístico, para discutir como o envelhecimento pode ser uma fase significativamente bela da vida.
Inspirados na atriz de Hollywood Ginger Rogers, esses idosos decidiram envelhecer com todo o glamour de uma estrela de cinema, tornando a arte do sapateado seu projeto de vida de velhice.
O espetáculo representa a realização de um sonho. A dramaturgia parte da escuta e observação dessas pessoas, auto intituladas GINGERS, promovendo uma relação vida-arte-vida, performatizando seus corpos esculpidos pelo tempo e nos deixando pistas de como envelhecer com felicidade”.
Serviço:
Data: 31/07, 01 e 02/08/25
Horário: 19h
Local: Teatro Municipal Gonzaguinha
End: Rua Benedito Hipólito, 125 – Centro
Ingresso: R$ 50,00 inteira / R$25,00 meia entrada
Intérpretes: Ana Lúcia Gosling, Angela Pataro, Carlos Fernandes, Dilceia Mattos, Fátima Christina Araújo, Jacyra da Conceição, Julieta Duarte, Mariana Brasil, Maria Antonia Souza, Maria Neide Monteiro, Mônica Pinheiro e Rafaeli Mattos.
Direção artística e coreografias: Rafaeli Mattos
Link para compra de ingresso: https://tickets.oneboxtds.com/riocultura/events/46314?sessionView=LIST
Classificação Livre


Confira as colunas do Projeto AC Verso & Prosa:
com César Manzolillo














Que texto maravilhosamente forte… dá até aquele silêncio depois da leitura, sabe? Porque ele fala de coisas que a gente sente, mas nem sempre consegue explicar. Fala desse caminhar que às vezes é pesado, solitário, mas que continua. E mesmo quando a gente não entende o porquê das coisas, algo dentro da gente segue em frente.
No meio disso tudo, acho que entra uma coisa única: nossa inteligência de vida mesmo, que mistura cabeça, sentimento e um tipo de percepção mais profunda. Aquela voz interna que ajuda a separar o que vale a pena do que só atrasa, o que é ruído do que realmente importa. Isso é o que mantém a gente nos trilhos, mesmo quando o mundo parece querer puxar pro lado errado.
E, ao mesmo tempo, não dá para viver só olhando para si. Às vezes, um gesto simples nosso pode ser o que o outro precisava pra seguir também. Uma palavra, uma escuta, um sinal. Porque ninguém está 100% bem o tempo todo, mas quando a gente se reconhece, se apoia, tudo fica mais leve.
Seguimos, cada um com seu ritmo, mas tentando ser inteiro, um pouco mais humano, nesse caminho todo.
Ah, Paulo, vou repetir o que já te disse: que lindo!!!! Uma crônica em resposta à minha rs. Penso assim também. Vivemos eterno aprendizado, tenho um olhar parecido com esse teu: viver é eterno equiíbrio; estar sozinho sem ser solitário, confiar na tal voz interna, e estender mãos ou simples gestos. A vida é dança. Um salta, outro segura. Um apoia, outro se levanta. E vamos seguindo. Beijo grande e obrigada pela leitura, sempre!
Comentário super apropriado para a ocasião.
Sobre a coreografia inspiradora…. bela e a canção então….
Tudo lindo
Obrigada!
Linda crônica e super apropriada para o momento.
Sua inspiração foi cirúrgica em escolher a coreografia. A música que acompanha, nem se fala. Belíssima
Obrigada! Às vezes, o que salta aos olhos é o sentimento, mais do que técnica.
.Ana, que leitura interessante você fez sobre ‘Aquele que Cai’. É a marcha da vida! Nessa marcha nos desequilibramos, caímos, levantamos, nos perdemos, nos encontramos, nos sentimos sós, nos conectamos… Eu me vi no seu texto. Ele me gerou reflexões sobre a trajetória na terra – a delícia e o desafio de sermos e estarmos vivos.
Obrigada, querida! É isso…círculo ininterrupto de crescimento, com quedas e saídas de pista, mas constante e em frente rsrs Fico feliz que tenha sido provocativo em algum nível. Beijos!