
Com Ana Gosling

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Não sei o que há. Desde o início do ano, ando com dificuldade de escrever. Eu, que adoro boa conversa, sem saber puxar assunto.
Passei pela motivação com o ano novo, pelos aniversários de janeiro (são muitos na família), pelo meu próprio aniversário, por férias, uma semana de festival de sapateado, projetos sonhados para as Gingers, as provocações da oficina literária, um musical maravilhoso sobre a Fafá de Belém, centenas de partidas de Tetris, fim de semana jogando buraco, séries da Netflix, Emmy 2026, morte brutal do cão Orelha, amigos, abraços, boicote do sol aos meus dias de praia, a saga interminável de instalação do aparelho de ar condicionado e… nada.
A pena está muda. A cara entediada diante da tela em branco. Uns quatro textos iniciados, sem futuro, engavetados, aguardando um clique para desfecho.
Você me dirá “festival? teatro? aniversário?”, surpreendido por eu reclamar “de barriga cheia”. A vida acontecendo, os elementos ao alcance, e eu me queixando de não ter assunto? Mas, sabe, não funciona assim.
Há dias em que olho para o naco de mamão que sirvo aos passarinhos e me encantam as linhas riscadas por seus bicos, enquanto se alimentavam. Perco-me nos detalhes do desenho feito ao acaso. Tenho vontade de enquadrar cada casca de mamão retirada da varanda. Enxergo metáforas para o dia, para a vida. O universo sorri e tenho certeza de tudo, acredito em magia, sinto Deus sentado no sofá da varanda.
Mas há outros em que visto olhos desencantados. A varanda suja atrapalha meu horário de saída para o trabalho. O dia passa de forma protocolar, com horários a cumprir, deveres e planos praticados. Como Adélia Prado: “De vez em quando Deus me tira a poesia./Olho pedra, vejo pedra mesmo”.
Os dias de janeiro têm sido assim. Talvez por, entre os aniversários, estarem meus maiores lutos. Talvez porque chova há uma semana e, sem sol, eu entristeça. Certamente por ter amigos enfrentando batalhas de vida, suas ou de familiares. Em janeiro, a cinza das horas (Bandeira, não?) se fez mais presente do que o brilho do sol.
Mas, enquanto redijo, algo desperta. Penso não escrever enquanto escrevo. Sinto as ausências como presença. Ressinto-me da chuva, desejo a luz, mas entendo: é necessário aos dias que durmam e se renovem. É janeiro que me escreve.
Talvez seja mais sobre sentir do que sobre falar. Tudo bem. Há crônicas que se permitem ser como esta, não?, sobre a impossibilidade de ser crônica. Talvez o silêncio sustente melhor os vazios sem a exigência da materialidade do verbo e calar seja só um processo de gestação.
Certo é: escrever sempre me leva a enxergar os riscados. Vê agora? Narrando os vazios, desenhei presença. E entreguei esta crônica a você. Toma-a.


Confira as colunas do Projeto AC Verso & Prosa:
com César Manzolillo














Ana, não canso de dizer: você parece ler minha mente. Sustentar o vazio, olhá-lo com aceitação, fazer dele uma presença… é uma arte! Num mundo acelerado que não dá espaço para pausas nem espera pela inspiração, é andar no contrafluxo – mas tão necessário. Não apressar o rio deixa a vida mais leve. É cultivar internamente a confiança de que a inspiração tem seu fluxo natural. Ela virá. Nossos olhos vão bater em algo e o coração dará sentido especial quando tiver que ser.
Que bom que estamos conectadas em sentimentos. Obrigada por essa rica devolutiva! Beijos!!!