Às Quartas – Do que lembramos, afinal?

Com Ana Lúcia Gosling

Foto: Simon Goetz, em Unsplash

Do que lembramos, afinal?

A vida não é o que se viveu,

mas sim o que se lembra,

e como se lembra de contar isso.

(Gabriel García Márquez)

Olhava as imagens em velocidade, pela janela do ônibus, quando se revelou a verdade: não são os grandes gestos nem as maiores provas de amor que contam, no fim das contas, mas o carinho nas pequenas provas involuntárias oferecidas.

Mesmo tendo a mãe, em vigília por noites inteiras, cuidado das doenças infantis, ao pensar em seu maior gesto amoroso, lembrou-se de sua mão segurando a dela, febril, prometendo pintar-lhe as unhas quando voltassem do médico. Suas mãos pequenas confundidas com as da mãe e a conversa morna no meio do dia eram recordação marcante da cumplicidade de ambas.

Deduziu serem os “grandes feitos”, às vezes, os mais fáceis. Basta-nos um passo à frente para realizarem-se naturalmente. Mas a ilusão de uma determinada emoção eternizar-se faz negligenciarem-se os dias. O movimento que nos conectou ao outro não pode perder-se, pulsando vivas as horas de solidão.

Seus pensamentos a distraíram e esqueceu-se de descer no ponto. Não se incomodou de andar por mais quadras, comprometida com a descoberta que a confortava.

Desceu do ônibus, enveredando pelas ruas onde, antes, só passara dentro de condução. Seguiu refletindo: quando experimentamos as gentilezas nas miudezas da rotina, o amor nos invade com sua alegria arrasadora. Sorrimos, recordando as gargalhadas nascidas do que, hoje, é piada esquecida. Ou como foi bom a companhia de um amigo ou de um namorado numa tarde comum, em que a atenção foi tanta e o sentimento tão calmo que nos acreditamos protegidos por um afeto que não mais nos faltaria.

Se pudesse, diria ao amor que perdeu que foi mais amada quando caminharam juntos numa noite de inverno como essa. Só por estar frio e ele tirar as luvas para vestirem suas mãos.

Há tanto esforço para sermos aceitos, ignorando bastar-nos, apenas, a espontaneidade do carinho. Porque o amor é simples e instintivo. Mesmo quem não se apega a sentimentalidades ama, alimentando-se do sentimento. No fim, o amor é a massagem nos pés quando doem, é ligar o aquecedor para esquentar a água do banho, é oferecer o melhor lado da calçada ou um abraço no fim do dia.

Do que sentimos falta, quando partem os que amamos, é de sua presença nos pequenos cantos da nossa rotina. É o que nos faz perceber a quantidade de coisas miúdas a que os associamos e que os torna parte de nós, não só uma história.

Prestou atenção às casas sempre observadas de longe, antes, imagens ligeiras na janela. Viu-lhes os detalhes da constituição. Quase iguais, tinham a mesma estrutura, variando-se as cores, a textura e as fissuras das paredes.

Sabia-se, também, rica de detalhes como as casas, as ruas, as lembranças e os sentimentos carregados. Sólida, apesar das ranhuras. Discreta, como se obedecesse a um padrão. Mas essencialmente única em suas cores e nas respostas ao trato afetuoso.

De longe, parecia possuir um amor modesto e uma recatada coragem de vivê-lo. De perto, via-se: era capaz de corajosa atitude, a de devotar-se ao amor conquistado, aceitando-lhe as imperfeições e, ainda assim, admirando sua forma.

Achou a direção de casa. Não precisava de companhia. Mas, se mais alguém descesse do ônibus, poderia caminharem em segurança. Ela conhecia as esquinas em que não deveria dobrar. Se o acompanhante fosse amigo, oferecer-lhe um cachecol nessa noite fria seria suficiente para um bem-querer germinar.  Afinal, as experiências ordinárias ficam para sempre.

ANA LUCIA GOSLING

@analugosling

 

 

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Author

Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, no ArteCult, há crônica nova da autora, que integra o projeto AC VERSO & PROSA junto de Tanussi Cardoso (poemas) e César Manzolillo (contos). Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

4 comments

  • “não são os grandes gestos nem as maiores provas de amor que contam, no fim das contas, mas o carinho nas pequenas provas involuntárias oferecidas.”

    Depois desse início, nem há mais como contribuir como venho fazendo ao longo do tempo! Ja iniciou dizendo tudo!

    Quanto tempo gastamos em pensamentos montados em nossas mentes para satisfazermos algo… E na verdade, basta se ater ao “carinho nas pequenas provas involuntárias oferecidas” que são verdadeiras e, não só do coração, mas da nossa própria existência e oferecida ao outro naturalmente…

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    • Contribua sempre porque você contribui sempre rs Obrigada pela fiel leitura e pelo carinho. Bjs.

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  • Mais uma vez, um show de delicadeza estilística e de lirismo. Parabéns! Um prazer chegar ao dia de Ana Lucia Gosling.

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    • Ah Tanussi, recebo sempre esse carinho com tanta alegria!!! Obrigada pelo incentivo! Beijo!

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