Com Ana Gosling

Foto: Jason D, em Unsplash
Passara o tempo de afligir-se. Agora seria aproveitar o construído, a família, o naipe de amigos, os compromissos assumidos, a lista de músicas preferidas salva no celular. Questionar escolhas passadas soava como desperdício de tempo na época da vida em que se tem cada vez menos tempo a viver.
Mas carregava o incômodo de não ser vista em sua essência. Por exemplo, definia-se como artista, pelas manhãs dedicadas à pintura, mas a classificariam como uma executiva pragmática, pelo trabalho que a mantinha. Talvez isso pusesse em jogo tudo que se sabia sobre ela, desde os valores reais até as emoções que lhe roubavam o ar. Afligiu-se, como se fosse importante deixar claro a todos, todo o tempo, tudo que se é.
Mas o que somos senão todas as diferentes coisas que somos? As afirmativas e as negações em convivência harmônica. As contradições e os limites intransponíveis.
Pensou nisso de madrugada, ao levantar-se para fechar a janela. Debruçada sobre a noite, o mais era silêncio. Só a mente conversava sozinha, entre perguntas e respostas, sobre como se definiria.
Para a mãe, amorosa. Para o pai, relutante. Para a irmã, aventureira. Para o irmão, irresponsável. Para o companheiro, parceira. Para a filha, abrigo. Para a outra filha, rigor. Para o chefe, compromissada. Para os colegas, seriíssima. Para os amigos da pintura, debochada. Para o vendedor de flores, simpática. Para o balconista da loteria, indiferente. Para o da padaria, boa prosa. Para o garçom do restaurante semanal, amiga. Para o gerente, cliente fiel. Para uns, artista. Para outros, burocrata. Para alguns, multitarefeira. Para outros, talentosa.
Não regularia as lentes do outro, o ângulo pelo qual enxergava o mundo. Fracassaria em isolar seus sentimentos e percepções individuais para moldar-se a outros olhos exatamente como supõe mostrar-se. Impossível definir-se, a não ser para si. Não devia esclarecimento ao mundo. No contato externo, rótulos só se sustentam se encontram ressonância. E, às vezes, a graça estava na comunhão mas podia, também, estar em ser única. Inútil tentar arrumar a mente àquela hora da manhã. Inútil vestir uma definição que excluiria outras hipóteses.
Definiu-se como cristal. Artista e executiva. Racional e amorosa. Talento e razão. Sensível e indiferente, conforme o sentimento, a pessoa, a disponibilidade, o cansaço a dor ou a alegria consigo. Era refratária. E frágil. Era várias. Contraditória para uns. Mas coerente para si. Somava-se mas não se fundia.
Antes de deitar-se, correu as cortinas, bloqueando a claridade. Amava o sol e rejeitava seus raios àquela hora da manhã, tarde para desejar a noite, cedo para aceitar o dia. Nesse simples gesto, encontrou a tranquilidade para o sono: se a vida é dissonante, por que exigiria de si coerência e definição?


Confira as colunas do Projeto AC Verso & Prosa:
com César Manzolillo














Definir-se é quase impossível e, talvez, nem seja necessário.
Que crônica linda e plena de verdade! “Cristal” fala sobre algo que todo mundo sente, mas nem sempre consegue colocar em palavras: a dificuldade de se definir. Mostra que somos feitos de muitas camadas, às vezes até contraditórias, e que isso não é defeito, é riqueza. Gostei muito da metáfora do cristal: transparente, refratário, frágil e resistente ao mesmo tempo. Traduz a “beleza de ser vários”. É exatamente assim que somos: múltiplos, complexos e únicos.
O trecho final é um achado: se a vida é dissonante, por que exigir coerência? Essa frase dá vontade de guardar para sempre. Crônica com ritmo, sensibilidade e uma maturidade que toca fundo.
Ah, Paulo, que bom que te sensibilizou exatamente o que a mim, quando a escrevi. Obrigada pela sua leitura fiel, amigo! Grande beijo.
Pura verdade. Para que definições de si! Vamos trilhando a vida que se apresente, ora dias melhores, ora piores! É a vida!
Somos muitos, dependendo do que nos exige a vida. Beijo, amiga.