
Foto: Luis Villasmil | Unsplash
CICATRIZES
Todo corpo tem cicatrizes.
No meu, o traço da cesariana na pele – cicatriz artificial – aponta a minha maior alegria: a maternidade. O do queixo, o tombo da infância. Mas há outras marcas, naturais, de vida. Os ombros fechados são resultado dos muitos anos de timidez vencendo os poucos de segurança. Mesmo tendo feito RPG, Pilates, fisioterapia, musculação, para abrir os ombros, erguer o peito, sou adulta com carcaça definida pelo percurso.
As linhas na testa vêm do franzir por angústias e questionamentos, desde muito cedo. A celulite permanente, sobrevivente a dietas e exercícios, o registro do desequilíbrio em momentos em que baixei a guarda ao medo, à ansiedade, à procura de conforto no lugar errado, além da gangorra hormonal vida afora. Os seios se modificaram pré e pós amamentação.
Nosso corpo nos revela, mesmo vestido de cores ou disfarçadas as expressões faciais. De nós, brotam as histórias passadas, a energia profunda. Se alguém se dispuser a observá-las, enxergará camadas sob a superfície da pele.
Um corpo se molda vida afora e de dentro para fora: a timidez, o medo, a confiança, uma respiração fácil ou difícil, tudo esculpe a casca com que cobrimos nossa alma. Se não pensamos claramente sobre isso, a mente intui: se você me repara, você me vê. Os olhos apertados sob o risco do delineador, o peito arfante sob o colo nu, o ligeiro tremor na mão enfeitada com esmalte e acrigel. Nos detalhes, está o que se oculta e, também, o que pede aceitação.
Não há determinismo, claro. Nada é definitivo. Um corpo pode ser modificado, também, de fora para dentro. Muda-se o sexo, as curvas, os tamanhos. Procedimentos estéticos, cirurgias bariátricas, plásticas, tinta sobre os fios brancos, cintas, truques de moda e maquiagem. Mas nada se torna permanente se o interior briga com a imagem externa, se os sintomas permanecem. Um fio branco que se queira esconder sempre reclamará tintura por não se apagarem os anos vividos. Um fio branco assimilado será conquista exibida, livre, ao vento.
É difícil aceitar a cultura alardear o investimento nas alterações físicas sem pensar no cuidado psíquico. Quem acha impensável, por exemplo, indicar uma terapia a quem acredita uma lente azul sobre o castanho dos olhos sustentar o interesse do outro. Quem nega o caminho do autoconhecimento apostando que a qualidade da maquiagem cobrirá a dor. Quem nega ao outro o aprendizado de que corpo, qualquer corpo, de qualquer modelo, formato ou tamanho, é fonte inesgotável de prazer: água na pele, sabor no palato, toque íntimo, emoção profunda, borboletas no estômago etc.
Nesta manhã de Carnaval em que escrevo, observo o movimento dos corpos pela tevê, as fantasias escolhidas para os blocos, e corpos me revelam suas cicatrizes, seus humores e suas conquistas, involutariamente. Nesse mundo de padrões superficiais, avatares substituindo fotos reais e de discursos guiados por inteligências artificiais, o quanto negamos da nossa essência? Se prestássemos atenção, de verdade, uns nos outros, sem filtros, o quanto nos diria as manifestações da alma?


Confira as colunas do Projeto AC Verso & Prosa:
com César Manzolillo

Coluna de Crônicas de Thereza Rocque da Motta
Coluna de Chris Herrmann:
















Crônica sendo crônica em seu esplendor. Texto belíssimo. Impecável.