Com Ana Lúcia Gosling

Foto: Divulgação
Em minha escrita, afloram os sentimentos despertados por “Bituca”, o documentário de Flavia Moraes, reverenciando a história de Milton Nascimento.
Em “Milton e seu tom genial”, já escrevera aqui sobre “A Última Sessão de Música”. O documentário acompanha a turnê do show, coletando depoimentos de grandes artistas nacionais e internacionais e trazendo a dimensão do impacto mundial do talento de Milton em antigas e novas gerações. Dimensiona sua carreira, além das fronteiras atravessadas por sua música (geográficas, artísticas e sentimentais). Mostra a singularidade do artista e como há uma aura espiritual sentida em sua música, em sua presença, na sua voz preenchendo o ambiente com ternura e emoções autênticas.
Condensa, num só registro, as falas de Quincy Jones, Wayne Shorter, Paul Simon, Pat Metheny, Spike Lee, Herbie Hancock, entre outros grandes nomes internacionais, além de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Djavan, Wagner Tiso, Lô Borges, Beto Guedes, Mano Brown, Criolo, Maria Gadú, entre outros nossos.
Dos vários depoimentos, destaco os que me foram mais emocionantes. Djamila Ribeiro comparando Milton à figura do “preto velho”, no candomblé, por ser referência sábia, amorosa, longeva, da raça. Ezperança Spalding, numa admiração devota, sendo capaz de ouvir e identificar as marcas da Natureza em suas canções. Maria Gadú vendo nele uma força de cura e purificação. Pat Metheny relatando sentir espiritualidade em sua música, provocando-o a reflexões sobre as razões da nossa existência. As observações de Caetano, pertinentes, enfáticas.
Alguns momentos me sensibilizaram mais. Por exemplo, o depoimento de Milton sobre sua mãe adotiva, desembocando no do seu filho adotivo. A beleza do amor herdado da ancestralidade e repassado à descendência é um farol da sua delicadeza de alma.
O ponto forte do documentário é esse lastro de afetividade cobrindo a narrativa, como cobriu a vida e o trabalho de Milton. Está no texto, nas imagens recriadas do menino se descobrindo, na reverência e no amor que artistas, amigos ou não, dedicam ao homenageado. O registro de cenas e falas não é só técnico. É, principalmente, afetivo. E poético, no casamento entre o texto narrado em off por Fernanda Montenegro e as imagens simbólicas da vida do artista. O trem, a arquitetura de Minas Gerais, fotos do Clube da Esquina, as mãos dadas a Milton nos bastidores de um show.
Há vozes sobrepostas que, por vezes, me soaram pouco nítidas. Mas funcionaram na cena em que vários artistas declamam os versos de “Morro Velho”, emocionados. Há Milton, idoso, sentado na cama, regendo no ar a voz de Angela Maria, gatilho de sua inspiração no início de tudo. Estes, os outros momentos mais sensíveis, pra mim.
O documentário é amoroso, poético e honesto. Não apela à emoção da despedida ou às limitações de Milton, hoje. Sensibiliza pelo reconhecimento do seu talento e da profundidade de sua arte, mostrando ao espectador o quão único é o artista. Aquele senhor na tela, de sorriso manso, gestos calmos, humilde, não produziu apenas beleza. Construiu um legado magistral.


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com César Manzolillo













