Com Ana Lúcia Gosling

Bienal do Livro – Foto da Autora
A pesquisa Retratos da Leitura, realizada pelo Instituto Pró-Livro, em 208 municípios brasileiros, entre abril e julho de 2024, revelou o Brasil ter perdido, em quatro anos, quase sete milhões de leitores. Pela primeira vez, nos 18 anos de sua realização, a proporção de não leitores foi maior do que a de leitores: 53% não haviam lido nem parte de um livro. E a redução desse número ocorreu em todos os perfis e segmentos pesquisados (faixa etária, gênero, escolaridade, classe, renda etc).
A pesquisa apontou os fatores motivadores de escolhas de livros para compras (gráfico abaixo). E fez perguntar-me onde estariam nossos leitores.

Fatores que motivaram escolhas de livros para compras | © Instituto Pró-Livro
Falo disso para explicar a alegria de a Bienal Internacional do Livro, no RJ, terminar com recorde de 740 mil visitantes, 23% a mais do que em 2023, vendendo-se quase 7 milhões de livros. Havendo, ainda, um festival literário importante em SP, a Feira do Livro, em paralelo, terminamos essa jornada literária com o coração em festa. Não se desmente o dado de realidade mas mantém acesa a esperança de superá-lo.
No tempo atual, de tanta dispersão, o que atrairia leitores? Não ouso responder, hoje, aqui. É tema para debate. Mas sigo intrigada.
Pelos pavilhões da Bienal, muitos apelos “extralivros”. Para as crianças, roda gigante, brincadeiras, cores, personagens animados etc. Para os adultos, debates, autógrafos, autores presentes. E muito mais. Labirintos de histórias, livros com possibilidades de diferentes finais, com pop-ups, caixas terapêuticas, para quem ler é experiência sensorial. Quadrinhos com QR Code dando acesso à animação das tiras ou à possibilidade de leitura do texto pelo celular; um estande do Tik Tok, patrocinador de diversos autores, harmonizando as contradições entre o virtual e o literário, abrindo espaço para falar-se de livros (na rede: “#booktok”). A Amazon, originalmente tecnológica, editora de muitos best-sellers, por vezes, inexistentes na forma impressa. A tecnologia se pareia com a imaginação literária. Houve desfile de cosplays e releitura de personagens clássicos (há quadrinistas escolhidos por Maurício de Souza para reinventarem Chico Bento, Xaveco, Anjinho, com histórias próprias e liberdade criativa, sabiam?). Releitura de sociedade e representatividade com estandes próprios: LGBTQIA+, diferentes doutrinas, religiões de origem africana; audiolivros para leitores com deficiência.

Ziraldo, autor da minha infância – Foto: Raphael Gomide
Há muitos autores numa feira dessa dimensão (Nota do editor: vejam nossas entrevistas no feed das nossas páginas no Instagram em @artecult e @quadrimundi). Editoras grandes e pequenas. Todo tipo de autor, todos os gêneros, todas as portas em que batem interesses distintos. Gente de clássicos herméticos, gente de histórias simples. A festa é assim. Garimpar, conhecer, brincar, reconhecer, apaixonar-se, identificar-se, comprar por impulso (ou não), sentar no gramado para ler ou conversar.
A Bienal é uma grande celebração. Seus fins comerciais se dissipam ante o incentivo trazido, somado à atmosfera de euforia pela literatura, tão vasta, tão democrática, tão ao alcance de quem quiser abraçá-la. Entram escolas, famílias, gente comum e pensadores. Todos consumidores de alguma literatura.
Cansam-me as horas de caminhada, a multidão. Mas voltarei em 2027. Nossa presença é vital. Dói-nos assistir ao fechamento de livrarias históricas, à perda gradativa do que nos deveria ser essencial. Aprendamos a contagiar os outros com esse sentimento profundo: a leitura é chave para a liberdade. Só quem lê não se perde frente aos dogmas, às ideias e às pessoas.


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com César Manzolillo













