Com Ana Gosling

Foto: V.T., em Unsplash
AH, VOCÊ É TÃO ALEGRE…
Não sou alegre “natural”. Capricorniano-raiz tem o pessimismo como marca. Sabendo disso, busco razões superiores para justificar o infortúnio e viro otimista por opção.
Abraço um positivismo não tóxico. Na solidão existencial, aprendi a construir oásis. Porta aberta a quem chega para brincar, dividir ou aconchegar-se. Fechada a quem só veio ocupar espaço. Nada de dar sombra a desrespeito, ciúme ou repressão – ser feliz exige liberdade.
Alegria não é dádiva de uns; é parede a ser levantada. Se o ruim não faz cerimônia em atropelar nossas vidas (doenças, mortes, corações partidos), a alegria é muro que podemos cimentar.
Vi um vídeo por aí, com pessoas cantando “A little respect”, sucesso do Erasure na minha adolescência. Sorri. Essa é uma das minhas músicas favoritas. Fala sobre querer ser aceito, frágil diante do amor não reconhecido. É dramática (e amo uma sofrência): I’m so in love with you/I’ll be forever blue (eu te amo tanto que serei triste para sempre). Fala de um lugar que, na adolescência, quando o hit foi sucesso, várias vezes ocupei: me apaixonar por alguém que ignorava minha existência.
A música do Erasure seria associada à comunidade LGBTQ+, ganhando sentido mais universal. Would you open your arms out to me/We can make love, not war (você abriria seus braços para mim? Podemos fazer amor e não guerra) e What religion or reason/could drive a man to forsake his lover (que religião ou motivo poderia levar um homem a abandonar o objeto do seu amor?) são versos que dialogam com a angústia de aceitação e visibilidade social de todo excluído, seja ele quem for: vítima de preconceito ou apenas uma menina tímida no canto do salão. Por isso, a poesia, a música, as artes, em geral, são tão maravilhosas, agregando histórias diversas em sentimentos comuns.

Foto: Andy Bell, vocalista do Erasure – Divulgação
Faz parte do aprendizado amoroso e social aprender a colocar-se; fez parte do meu. A menina amadureceu e se fez potente. Mas preciso confessar-lhes: quando estou triste, em dias difíceis como os últimos, ponho “A little respect” no Spotify. Canto-a no banho, danço-a enquanto arrumo a casa ou se me sinto só. Não tem erro: “A little respect” sempre me empurra para a pista de dança imaginária, improvisada no carro, no quarto ou no centro da sala.
Uma amiga faleceu; não consegui dançar. Outro amigo, em coma, batalha diariamente para continuar a criar seus filhos, ainda muito jovens para se afastarem do pai. Posso nada, posso pouco. Lembrar a importância de suas existências, ter esperança, rezar por outras pessoas queridas também em suas próprias guerras, pedir por milagres ou pela ausência deles – o que for melhor para quem meu amor quer proteger.
Vi o vídeo. Escrevo. Dançarei. Talvez cante alto, talvez haja lágrimas em I”ll be forever blue… Os movimentos farão circular a energia do corpo? Romperão o loop da mente? Um átimo (que seja) de energia será faísca iluminando o dia a ser vivido. Outra lição aprendida: há dias em que estar alegre é resultado do esforço.


com Chris Herrmann
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