Entre bordões, gírias e expressões, o passado nos condena pacas, morou?
Por Jorge Ventura
O dicionário Michaelis, entre algumas definições, responde à pergunta: o que é gíria? “Gíria é uma linguagem, em geral, marcada por vocabulário novo, ou já existente, porém com outra significação, e construções metafóricas, muitas vezes cômicas”.
Pois bem! A força da gíria é tamanha, eu diria, que, por meio do vocábulo ou da expressão informal usada por diversos grupos sociais, acaba por se popularizar, de maneira rápida e carismática, a ponto de, em certos casos, substituir o próprio idioma.
Existem gírias inteligentes, engraçadas, completamente transgressoras (em relação ao real significado da palavra), neologísticas e até onomatopaicas. É claro que, nesse balaio, podemos reunir, além das gírias, palavras que caíram em desuso, jargões e bordões publicitários ou de personagens de programas humorísticos e de charges de humor.
A maioria dessas expressões ou gírias tem sua origem etimológica no latim, herdado do idioma português falado em Portugal, ou na língua dos povos indígenas e na dos povos de matriz africana.
Poucas palavras ainda ouvidas, atualmente, são utilizadas apenas para enfatizar exageradamente o significado que se quer dar à ação, à ideia ou ao adjetivo do sujeito. Como exemplo, “ziriguidum” nos soa como um movimento cadenciado, uma palavra associada ao ritmo ou ao balanço do samba e às coreografias populares. A passista tem ziriguidum. “Borogodó” já nos remete a uma pessoa atraente, que tem charme ou atributos sedutores. Aquele homem tem borogodó. Não confundir com a expressão “ó do borogodó”, que pode se referir a uma ocasião desagradável, insuportável: Aquilo, pra mim, foi o ó do borogodó!
“Balacobaco” descreve algo extraordinário, agitado. Mas “quiprocó” não gera dúvidas: é confusão, briga generalizada, troca de ofensas. A festa deu o maior quiprocó!
Existem também ditados populares e expressões regionalistas – conforme o linguajar interiorano – que apresentam palavras com significados específicos. Peças do nosso vestuário, partes anatômicas do corpo humano, nomes de iguarias, plantas, legumes e frutas divergem de acordo com a região do país. A fruta-do-conde pode ser chamada de fruta-pinha, ata, condessa ou araticum. “Sururu de capote” tanto faz alusão ao prato típico alagoano quanto a tumulto ou à algazarra. A genitália masculina, Brasil adentro (sem duplo sentido, por favor), é comparada a uma ferramenta agrícola ou a uma coisa esquisita, sendo referida como “estrovenga”. No vocabulário nordestino, outro exemplo, a palavra “venta”, uma das narinas, às vezes, conhecida como o próprio nariz, está presente no dito popular: Fulano tem pelo na venta – quando a pessoa é valente ou geniosa. Ou então essa: Tô meio borocoxô… (triste, desanimado, chateado). Muita gente entende borocoxô como um objeto de aspecto velho, gasto ou capenga.
“Amigo da onça” é mais um caso de expressão popular muito antiga, mas quase sem emprego ou referência nos dias atuais. Essa expressão diz respeito a uma pessoa falsa, egoísta ou traiçoeira, que se passa por amiga, porém vive a prejudicar ou a tirar vantagem dos outros. O “amigo da onça” surgiu de uma piada sobre o diálogo entre dois caçadores que questionava a iniciativa de ambos, caso encontrassem uma onça. A solução mesquinha de um dos caçadores levou o outro a perguntar se ele era amigo verdadeiro dele ou da onça. Esse mote inspirou o cartunista Péricles de Andrade Maranhão a criar, em 1943, um personagem para a revista O Cruzeiro. O Amigo da Onça, de Péricles, fez tanto sucesso que foi sinônimo, durante anos, de um homem cínico, irônico e sacana, que deixava as pessoas em situações perigosas e vexatórias.
No histórico dos famosos programas humorísticos de rádio e TV, sempre ouvimos bordões de personagens antológicos que entraram, facilmente, em nosso vocabulário como gíria ou provocação. Na pré-adolescência, quando a turma do bairro se reunia, uma simples imitação desses personagens virava uma zoeira geral. Era um tal de um chamar o outro de Sua múmia paralítica – expressão do professor Aquiles Arquelau, interpretado por Agildo Ribeiro, dirigida ao seu mordomo/copeiro (Pedro Farah), em O Planeta dos Homens (1976-1982). Os mais crescidinhos da minha geração, nunca me esqueço, zoavam os colegas quando suas namoradas “davam um perdido” neles: Vai pra casa, Padilha! – gritavam, fazendo referência ao personagem Padilha (Martim Francisco), criado por Jô Soares para o mesmo programa humorístico. Chico Anysio, com o seu professor Raimundo, não deixou por menos. Os bordões E o salário, ó! e É vapt-vupt! caíram no gosto popular. E os bordões dos alunos da Escolinha (na TV Globo, 1990-2001) também fizeram sucesso, como os das personagens Dona Bela (Zezé Macedo) – Só pensa… naquilo… – e Dona Cacilda (Cláudia Jimenez) – Beijinho, beijinho, pau, pau – uma frase maliciosa que, na verdade, se tratava de uma paródia bem-humorada da apresentadora infantil Xuxa, que se despedia ao final de cada programa mandando para os baixinhos um beijinho, beijinho, tchau, tchau.
É claro que esses bordões são alguns exemplos. Se formos buscar pela memória tantos outros que entraram em nosso colóquio diário, não haveria espaço neste artigo.
No caso dos bordões lançados pelas propagandas brasileiras, caberia um catálogo à parte para elencar os que fizeram história. No entanto, podemos citar o personagem Teobaldo, interpretado pelo ator Roberto Marquis, dos comerciais do Guaraná Antartica, nos 1970, que fez popularizar a expressão “boko-moko” (em uma menção a algo brega ou ultrapassado). O termo “tio Sukita” ou “tio da Sukita”, que passou a ser adotado como um arquétipo de um “coroa” (homem de meia-idade) que age como garotão e dá em cima das meninas mais novas, saiu do comercial de TV para a marca do refrigerante, criado em 1999, com os atores Roberto Arduim e Michelly Machri. Podemos lembrar ainda do conceito da propaganda da Brastemp, sob o slogan “Não tem comparação”. Os atores que fizeram parte da campanha televisiva associavam a imagem do padrão de excelência da máquina de lavar às qualidades ou aos atributos físicos de uma pessoa. Tornou-se, com o tempo, quase uma metáfora, uma figura de linguagem: Ele não é uma Brastemp.
Muitas vezes, o povo absorve a linguagem marginal dos malandros e bandidos para acentuar a narrativa. Qualé, cara?! (o mesmo que se surpreender com a fala ou atitude de uma pessoa e indagar: “O que é isso?!”). Larguei o ferro no alemão! (ou seja, a pessoa confessou que atirou no inimigo).
Há gírias do passado que são faladas ainda hoje, algumas foram adaptadas, mas sem perder o sentido. O cara é legal. O cara é bacana. Cara legal ou bacana diz muito sobre o bom caráter, a boa índole da pessoa. Cara é o sujeito, é claro. Vamos ver mais um exemplo. Maneiro continua sendo difundido como um adjetivo de igual significado. Beltrano é muito maneiro. Já Beleza ou belezinha é a livre tradução para ok. Uma variação da antiga gíria chuchu beleza, que ficou para trás. Temos ainda a expressão interrogativa tudo joia? que se transformou em joinha?.

Ilustrações com auxílio de IA por Victor Marques
Eu me lembro, perfeitamente, que, nos anos 1970, a minha mãe e as vizinhas da vila residencial achavam os atores Tarcísio Meira e Francisco Cuoco um pão. Isso mesmo, leitor(a), eles eram um pão – que, na gíria da época, significava um homem bonito, um galã. E os homens chamavam as jovens bonitas de broto ou brotinho. E mais: se o rapaz e a garota estivessem apaixonados, eles se declararam assim: Estou gamado/gamada em você. Sim, eles ficavam gamadões. Ah, às vezes, eles ficavam vidrados. Ainda nas relações amorosas, nós praticávamos o exercício da paquera quando estávamos interessados em alguém. Infelizmente, não vejo mais ninguém conjugar (e praticar) o verbo paquerar, mesmo estando a fim da pessoa. Para efeito de curiosidade, as gírias gato e gata permanecem fortes e resistentes para designar a sensualidade do homem belo e da mulher bela.
- Ilustrações com auxílio de IA por Victor Marques
- Ilustrações com auxílio de IA por Victor Marques
Porém, antigamente, nem tudo era amorosidade. Havia sempre alguém que era tratado (ou xingado) de cafona, quadrado ou careta, sabia? Eu explico: Cafona era alguém deselegante ou de péssimo gosto. Quadrado era o jovem certinho, conservador, dotado de bons modos, bem-educado demais, que seguia à risca os padrões de bom comportamento impostos pela sociedade. Careta era mais ofensivo aos “bons moços”, que não tinham vícios – não fumavam, não bebiam e nem usavam drogas – e viviam de papo furado (gíria que reforçava uma conversa desinteressante, boba e sem argumento).

Ilustrações com auxílio de IA por Victor Marques
Ao contrário do papo furado, havia a garotada que era papo firme (não alienada, “antenada” com o mundo a sua volta), que transmitia segurança e simpatia. Lembrei-me, agora, de outras: Senti firmeza! Que barato! É lenha! Sacou? Se liga na missão!
Demais expressões daquela época foram dando lugar para outras expressões com o mesmo significado. Patota virou turma ou galera. Pilantra virou 171 (referente ao número do artigo penal sobre o crime de estelionato). Entrar pelo cano virou Entrar numa fria ou numa furada. Diferente de Entrar na minha ou na sua – o mesmo que concordar com o pensamento, a postura e passar a gostar da pessoa.
O mundo da moda também originou gírias e expressões. Sicrano está na beca. Vive andando nos trinques. Com essa roupa, ele é muito prafrentex (termo usado para pessoas ousadas, modernas). Mais uma curiosidade: os cantores da Jovem Guarda, gênero musical liderado por Roberto Carlos, se apropriaram de gírias oriundas do movimento hippie daqueles idos de 1970. Falou, bicho! Falou, tá falado! Vô batê pra tu (na gíria, “bater” era o mesmo que “contar”). Nas letras das canções, apareciam, de vez em quando, expressões como tá tirando onda, um cara barra-limpa (confiável, que não se envolve em encrencas, crimes ou trapaças, sendo o oposto do barra-pesada). Contudo, a frase mais famosa e que ficou marcada pelo “Rei” foi, sem dúvida, É uma brasa, mora?

Ilustrações com auxílio de IA por Victor Marques
Naquele tempo, era comum usarmos palavras rebuscadas em nosso dia a dia, até no tratamento com as crianças. Direto das páginas dos clássicos infantis, líamos e falávamos Que menina serelepe! É muito levada da breca!. Houve um tempo em que a expressão à beça (grande quantidade) era tão difundida que até fazia parte do slogan e do refrão do jingle do extinto supermercado Mar e Terra, no Rio de Janeiro – “O Mar e Terra serve bem àààààà bessa” (a palavra “beça” foi grafada incorretamente nas peças promocionais e publicitárias). Um detalhe: novas gírias faziam conotações para advérbios de intensidade, como pacas e de montão – que queriam dizer “muito”, “bastante”. Comprei bebida pacas. Existem brinquedos de montão.

Ilustrações com auxílio de IA por Victor Marques
E, para encerrar esse artigo, vale a pena comentar a respeito de umas frases do passado, extraídas de letras de música que funcionavam, sonora e intencionalmente, como um palavrão falado e ouvido. “A tonga da mironga do kabuletê”, canção de Toquinho e Vinicius de Moraes, lançada no início dos 1970, era feito um protesto bem-humorado e um xingamento disfarçado contra a ditadura e a censura vigentes no Brasil. Em tom de farsa, esse refrão, adaptado de uma expressão da cultura nagô, era como se fôssemos mandar alguém pra pqp, ou melhor, pra tonga da mironga do kabuletê! Da mesma forma que o refrão da música “Ferro na boneca” (Moraes Moreira/Luiz Galvão, gravada pelo grupo Os novos baianos, em 1970), criado como exaltação à energia psicodélica e contestadora da época, foi ressignificado para um contexto erótico apenas pela força imagética da frase É ferro na boneca, é no gogó, nenê! Outra frase ingênua que se refere a uma peça qualquer imaginária, mas serve de argumento ou desculpa quando um mecânico não sabe identificar o real problema da engrenagem motora. Foi a rebimboca da parafuseta! – diz. Pesquisadores afirmam que essa frase foi propagada no programa Shazan, Xerife Cia. da TV Globo (1972-1974) e mencionada como uma peça mágica pelo personagem Xerife, o mecânico da bicicleta voadora, interpretado por Flávio Migliaccio. Essa frase foi reaproveitada e falada amiúde pelo comentarista esportivo Washington Rodrigues, durante as transmissões dos jogos de futebol, no momento em que criticava o chute sem direção de um jogador ou a péssima atuação do juiz. Na ressignificação de Washington Rodrigues, o termo passou a ser um lugar muito longe, onde “o vento faz a curva”. O jogador mandou a bola lá na rebimboca da parafuseta! Tem que mandar esse juiz apitar lá rebimboca da parafuseta!
Ah, tempo bom! Quem se lembra?
SOBRE JORGE VENTURA

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Tem 14 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ (Associação Profissional de Poetas no Estado do Rio de Janeiro), titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ (União Brasileira de Escritores) e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, nacionais e internacionais, como autor e intérprete. Tem poemas vertidos para os idiomas inglês, francês, espanhol, italiano e grego. É também sócio-proprietário da Ventura Editora, CQI Editora e da Editora Iniciatta. Jorge é colunista do ArteCult, responsável pelo AC RETRÔ.
E, agora vocês já sabem… Uma das maiores referências no Brasil sobre o universo Batman.
Instagram
@jorgeventura4758

SOBRE O AC RETRÔ
Prepare-se para embarcar em uma viagem no tempo! O AC RETRÔ é um espaço dedicado à nostalgia, à memorabilia, ao colecionismo, relembrando também aquelas propagandas icônicas da TV, telenovelas, anúncios inesquecíveis das revistas e jornais, programas que marcaram época e filmes que nos transportam diretamente para tempos dourados! ️
Aqui, cada post será um convite para reviver memórias, despertar emoções e compartilhar as lembranças que moldaram gerações.
Se você sente saudade de jingles que não saíam da cabeça, comerciais que viraram clássicos, seriados que marcaram a infância ou até mesmo daquele filme que você alugava na videolocadora todo fim de semana, então o AC RETRÔ será o seu novo ponto de encontro. Afinal, recordar é mais do que viver: é reconectar-se com o que nos fez sorrir, sonhar e se emocionar. Fique ligado, porque essa viagem ao passado JÁ COMEÇOU! ✨














