À Sombra dos Carcarás: Val Mello Alça Novos Voos Literários

 

Na vibrante cena cultural da Lapa, o dia 11 de novembro será marcado por um voo poético que promete tocar corações e provocar reflexões. É com grande entusiasmo que celebramos o lançamento de “À Sombra dos Carcarás”, a mais nova obra da escritora Val Mello (@val_mellos), que mergulha nas sombras e luzes da existência com a precisão de quem conhece os silêncios da alma e os gritos da terra.

Com uma escrita visceral e sensível, Val Mello nos convida a adentrar um universo onde a poesia se entrelaça com a resistência, a memória e a identidade. O livro será lançado em um evento especial na Coffeebreak Cafeteria, na Lapa (Av. Henrique Valadares, 17A), a partir das 18h, e contará com a participação musical de Manalu, tornando a noite ainda mais inesquecível.

Venha celebrar a força da palavra e o voo dos carcarás que, mesmo à sombra, não deixam de mirar o horizonte!

 

 

Como nasceu À Sombra dos Carcarás 

“O livro À Sombra dos Carcarás começou nascer, aproximadamente, há 4 anos, em uma tarde simples e bonita, daquelas em que o tempo parece suspenso só pra deixar a alma respirar. Lembro quando escrevi o primeiro poema pensando em um livro telúrico e regional, é o poema inicial do livro, chama-se UTOPIA DOS JANEIROS. Eu estava no Piauí, tomava café quente, comia queijo coalho fresco e via a chuva de janeiro cair sobre o telhado, enquanto o calor estalava lá fora e o cheiro da terra subia, forte e doce, como lembrança antiga. Foi ali, entre o chiado da água e o cheiro de barro molhado, que compreendi tudo o que me fez: a menina do sertão, a mulher da metrópole, a poeta que transita entre o chão rachado e o asfalto — pedia passagem em palavra.

À Sombra dos Carcarás nasceu da necessidade de reconhecer o quanto minhas raízes, fundas e teimosas, me transformaram em árvore frondosa. Minhas raízes têm pó e têm reza. Têm as benzedeiras com suas arrudas e orações sussurradas, têm os rituais simples e santos de quem cura com fé e erva. Há termos indígenas espalhados pelos poemas, porque o chão que me pariu fala em muitas línguas — de vento, de folha, de resistência. E há também o falar do sertanejo, com suas frases sábias e seus rifões que valem mais que conselhos de doutor.
No livro, o sertão é corpo e memória. Tem infusões feitas em panelas de barro, árvores nativas que guardam segredos do tempo, chuvas que vêm e vão como recados do céu. E tem o Sol, o sol é o termo mais presente, o sol que fere e consola, que amadurece a alma e castiga a terra, mas que nunca deixa de nascer.
O livro se divide em duas partes. A primeira fala do chão: da poeira e da poesia, das rezas e das mulheres que plantam esperanças no quintal. A segunda é feita de homenagens: aos professores da infância, aos poetas regionais que li e que me ensinaram a enxergar além da linha do horizonte e, que iluminaram meu caminho de palavras, às mulheres fortes que fizeram da luta uma forma de beleza, aos amigos que sigo encontrando nas travessias e outros que admiro a trajetória, chamei essa parte de Meus Piauís.
Dediquei o livro à professora Clêuma Magalhães, da quarta série, uma mulher que tive pouquissimo contato, que nunca mais a vi, mas que me fez sentir poesia mesmo quando a realidade era dura e indigna. Foi ela quem me mostrou, com pouco poemas lidos em sala de aula, que o verbo podia ser pouso e voo, consolo e coragem.
Hoje sei que carrego o sertão inteiro em mim, as dores, as bênçãos, as agruras e as bonitezas. O sertão não é um carimbo no mapa, é uma cicatriz na alma. E eu aprendi a agradecer às cicatrizes, porque são elas que me ensinam a florir.
Sou cacto e sou carcará, espinho e voo, dureza e delicadeza. Tenho a fé das benzedeiras, o sotaque carregado, a teimosia das árvores do semiárido e a claridade do sol que me guia, e como diz o grande amigo e paladino da cultura no Piauí, Cineas Santos, sinto-me a “menina vestida de Sol”, como ele me chama . Tudo isso é poesia. Tudo isso é À Sombra dos Carcarás.”

VAL MELLO

 

Entrevista com a autora 

ArteCult: Sei que cada autor é regido por leis próprias no momento da criação literária. No seu caso, como um poema pode surgir?

Val Mello: Um poema, para mim, nasce quando a palavra se inquieta. Às vezes vem de um silêncio antigo, outras de uma lembrança que insiste em respirar. Ele pode nascer da terra rachada do sertão ou do asfalto da metrópole, o que importa é o impulso vital de dizer o indizível. Escrevo quando algo me indaga, incomoda, me transfere ou me paralisa: um cheiro, uma injustiça, uma saudade, uma beleza súbita. Tudo vem como se fosse um choque de existir, cada verso nasce do atrito entre o que sinto e o que o mundo me nega. Sob uma forma poética,  eu diria que a escrita é o meu modo de respirar quando a realidade aperta o peito, de forma simbólica eu diria que é a centelha que arde entre o caos e a ternura, mas sendo bem realista,  digo que é farejar o sentido, transformá-lo em linguagem e um  poema é, antes de tudo, um movimento de escuta, do mundo e de mim mesma.

 

AC: Sobre À sombra dos carcarás, alguém já falou que a obra une lirismo, coragem e pertencimento. Poderia nos explicar o que isso quer dizer?

VM: Essa definição me representa muito. O lirismo vem da minha necessidade de cantar o humano, de dar beleza até àquilo que dói. A coragem é a de olhar sem desviar, enfrentar as feridas sociais, históricas e afetivas que nos atravessam. E o pertencimento é o chão de tudo, vai além de um lugar físico, é um estado de bravura, reafirmar as raízes quando o mundo tenta soterrá-las, reconhecer o peso da beleza de vir de onde se veio: das minhas origens piauienses, das vozes que me antecederam, da terra vermelha que moldou meu olhar. Pertencer é resistir à aniquilação, é manter viva a voz ancestral, ser raiz e asa ao mesmo tempo.  Escrevo com o corpo inteiro, entre amores e denúncias, logo, lirismo, coragem e pertencimento pode ser  explicado em ser poeta, ser mulher  e ser nordestina,  carregando três frentes de batalha: contra o silêncio, contra o apagamento e contra o  preconceito.

 

Val Mello. Foto: Divulgação

AC: De onde veio a inspiração para escrever À sombra dos carcarás, seu mais recente lançamento literário?

VM: O livro nasceu do desejo de reunir as muitas paisagens que habitam em mim, da necessidade visceral de dar voz àqueles que me formaram, gente simples, firme, de alma funda. Homens e mulheres que me ensinaram a resistir. Cada poema carrega um traço dessas pessoas, o gesto calado de quem planta, a fé de quem espera a chuva, o humor de quem enfrenta o sol com ironia e dignidade. Minha inspiração vem da força anônima que me antecede, das vozes que nunca foram ouvidas e dos rostos que a literatura costuma esquecer. À sombra dos carcarás é meu modo de retribuir, de transformar memória em canto e resistência em poesia. É uma travessia entre o Nordeste ancestral e o Brasil contemporâneo, por esse motivo faço algumas homenagens aos meus Piauís, cada um com sua peculiaridade dentro de um só lugar. Os carcarás simbolizam a astúcia e a beleza indômita do povo que não se entrega, a sombra dessa ave é o abrigo e o alerta, um lugar de observação do céu e da terra. Escrever À sombra dos carcarás foi também um gesto de cura e afirmação, um modo de dizer que nossas raízes não são atraso, mas força.

 

AC: Você usou a referência “meus Piauís”. O que exatamente representam essas homenagens e por que você escolheu usar a expressão no plural, “meus Piauís”?

VM: Quando digo “meus Piauís”, falo de uma multiplicidade afetiva. Não existe um único Piauí. Há o da infância e o da memória, o do sertão e o da cidade, o Piauí real e o que vive em mim. Cada um deles me formou de um jeito e todos coexistem na minha escrita como território de lembrança e crescimento pessoal. Essas homenagens são uma forma de agradecer, de preservar e de registrar pessoas, gestos e paisagens que construíram a poeta que sou. Como a professora da infância, homens simples que eu via diariamente, os escritores que li, o canto regional, as geografias atípicas, os ditos populares, as pessoas de outros lugares que aderiram àquele lugar para chamar de seu e fizeram ou fazem diferença até hoje, na arte, na cultura, na preservação histórica e na educação. São vozes que talvez nunca tenham sido ouvidas, mas que sustentam o chão da minha poesia. Escolhi o plural porque nenhum pertencimento é simples. Carrego vários Piauís dentro de mim: o do afeto, o da luta, o da ausência e o da palavra. Cada poema é uma tentativa de costurar esses lugares, de reunir o que o tempo e a distância fragmentou. À sombra dos carcarás é, no fundo, isto: um voo sobre todos os meus Piauís, para que nenhum deles se perca no esquecimento.

 

AC: Você, como autora, tem a intenção de despertar um sentimento de amor e reconexão com as origens, especialmente entre os nordestinos que vivem nos grandes centros do sul e sudeste?

VM: Sim, entre outras coisas, gostaria de manter aceso o amor pelas origens, sobretudo em quem precisou partir. Muitos nordestinos que vivem nos grandes centros acabam sendo empurrados a esconder seus sotaques, suas comidas, suas histórias, como se pertencer ao Nordeste fosse algo a ser explicado ou suavizado. Eu quis escrever contra isso. Quis lembrar que nossas raízes não são um fardo, são uma força. O livro é um convite para olhar o Nordeste sem caricatura, sem pena, sem romantização, mas com respeito. Desejo que o leitor, principalmente aquele que vive longe da própria terra, sinta orgulho do chão que o formou, reconheça sua herança de coragem e beleza. À sombra dos carcarás é também um ato de reconciliação entre o passado e o presente, é o grito de quem partiu, mas nunca deixou de pertencer.

 

AC: Peço que deixe aqui, para apreciação dos seguidores do ArteCult, um dos poemas de À sombra dos carcarás.

GEMA DE RUDEZAS

Nasci poesia agreste

mandacaru em veredas

joia gema das rudezas

miolo a ser lapidado

 

Meio fome, meio força

erva que mata e cura

rede de buriti

corta a pele, acalma a alma

 

Sou natureza rachada

garganta aberta a sementes

plante em mim versos e rimas

sob a chuva dos sentidos

prometo compor a flor.

 

AC: Planos futuros: o que vem por aí nos próximos meses?

VM: Depois de À sombra dos carcarás, continuo gestando palavras. Tenho trabalhado em um novo projeto que mistura poesia e prosa, uma espécie de cartografia afetiva das minhas vivências. Também pretendo circular com o livro, encontrar leitores, levar essa poesia aos espaços onde ela nasceu (no Nordeste) e aos lugares onde ela ainda precisa ecoar, ampliar o diálogo entre literatura, identidade e território, levando a força da palavra nordestina para diferentes espaços: escolas, saraus, feiras literárias, debates literários, universidades e comunidades. O voo continua e os carcarás ainda me guiam, pois nesse livro há em um espetáculo poético-musical, que une voz, imagem e som, um encontro entre poesia, canto, memórias e ancestralidade. Quero que o público sinta o voo dos carcarás, que escute as vozes do Piauí ecoando em cada verso. Mais do que um livro, À sombra dos carcarás é um território em expansão, um convite à memória, ao diálogo e à continuidade do voo.

 

 

QUARTA CAPA- ESCRITA POR SALGADO MARANHÃO

“Egressa da aridez nordestina – igual a tantos outros conterrâneos seus que deram ao Brasil o melhor das nossas letras -, a poeta piauiense Val Mello nos apresenta neste “À SOMBRA DOS CARCARÁS” uma vitalidade telúrica que dialoga com a sua origem e com a tradição poética do seu povo. Sem negar o falar coloquial da sua geração, trabalha na geografia “dos confins do abandono”, na “superfície craquelada”, onde só a poesia atenua a dureza de existir. Val Mello tem alma de passarinho, como se vivesse para voar. Mas, aqui, suas palavras buscam entrar na carne, cavar memórias, ancestralidades. Aqui, neste poemário com cheiro de sertão, uma poeta plasma com intensa beleza o poder do clamor das vivências extremas.” (Salgado Maranhão)

APRESENTAÇÃO – ESCRITA POR CLIMÉRIO FERREIRA

“NÓS À SOMBRA DOS CARCARÁS

A minha poeta Val Mello mergulha, com seus belos versos, no interior de si mesma e arranca daí a poesia que nos habita. É lá que repousa em nós esse amor apaixonado pelas pessoas, pela fala que canta a nossa paisagem, a beleza cruel das nossas vidas e a perene postura de resistência de que somos feitos. É aí que a nossa infância brinca, sorri e aprende a amar a vida. Há algo de índio em nós, nessa visão solidária, nessa compreensão da dor de todos. Temos namoro infindável com a natureza, queremos que tudo mude para salvar o que há de belo em nós. É isso amiga Val: vamos povoar os povoados à sombra dos carcarás para que o que há de poesia em nós não deixe a vida morrer.” (Climério Ferreira)

 

TRECHO DA ORELHA ESCRITA POR JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO

“A FRONDOSA SOMBRA DA FILHA DO SOL DO EQUADOR

Após ler “A sombra dos carcarás”, a impressão que fica é que cada minuto dedicado à sua apreciação foi honrado e que Val Mello, Filha do Sol do Equador, é uma poeta auroral que celebra o milagre da chuva a encher os caldeirões e os barreiros, onde irão proliferar os piaus de muitos y/is – piabas poéticas para saciar nossa fome de viver.
Coisa boa é estar sob a frondosa sombra da poesia de Val Mello, poeta/carcará que assina seu testamento com o melhor dos alimentos: “tinta azul/ café, cuscuz e um bocado de poesia”. (José Inácio Vieira de Melo)

 

TRECHO DO PREFÁCIO ESCRITO POR LUIZA CANTANHÊDE

O VOO DA LINGUAGEM QUE RESISTE.

“Nos sertões, nos piauís e nas geografias de Val Mello
cada poema é chão que racha, mas não cede.
Cada verso é como o voo do carcará: destemido, certeiro, rasgando os ares da indiferença com fome de verdade.
Val Mello escreve como quem planta em terra batida e, ainda assim, colhe flor:
entre o silêncio e a fala, entre a perda e a semente, entre o rasgo e a sutura.
Não há concessão ao exótico nem ao decorativo.
O sertão de Val é íntimo, vivido, encarnado.
Um território onde cada pedra tem nome,
cada mulher carrega uma reza,
cada homem traz um canto de resistência —
e o tempo, esse velho lavrador, é testemunha e barro.
Ao leitor, só se pede uma coisa: entre com humildade.
Aqui, a poesia é viva — e não admite visita sem escuta.
E é isso que este livro nos oferece: abrigo.
Para a memória. Para a luta. Para o encantamento.”

(Luiza Catanhêde)

 

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@val_mellos

 

 

SERVIÇO

Lançamento de À SOMBRA DOS CARCARÁS

  • Onde: Coffeebreak Cafeteria.  Avenida Henrique Valadares 17A, LAPA – Rio de janeiro (RJ).
  • Quando : 11 de novembro. A partir de 18h.
  • Presença da Cantora Manalu (Luiza Breves).
  • Haverá sarau durante a noite de autógrafos.

 

 

Author

Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de 32 coletâneas literárias. Autor do livro de contos "A angústia e outros presságios funestos" (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos. Toda quinta-feira, no ArteCult, publica um conto em sua coluna "CONTO DE QUINTA", que integra o projeto "AC VERSO & PROSA" junto com Ana Lúcia Gosling (crônicas) e Tanussi Cardoso (poemas).

5 comments

  • Obrigada pelo espaço, foi muito legal poder fazer parte, com a minha história e produção literária, nesse canal cheio de inteligência e cultura.

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  • VAL MELLO ,é uma escritora maravilha, que admiro demais.
    Ver essa mulher declamar seus poemas, é sentir cada verso.
    Todos deveriam conhecer o seu trabalho, super recomendo !

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  • Conheço Val há algum tempi e a paixão por seus escritos me fez dedicar muito carinho à sua obra e à pessoa maravilhosas que ela é .

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  • Val Mello é muito bom te ver se transbordando em mais um livro…
    Parabéns pelo empenho e doação! Que a beleza do seu coração não fique nas prateleiras e sim no coração de cada um dos seus leitores !!!
    Te admiro muito , e meus profundos votos é que você alcance uma biblioteca inteiras dos seus transbordos .
    Sucessos pra ti! Amo você!

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