A mente de um serial killer: decepções e reflexões

 

No dia 3 de setembro estreou na cidade de São Paulo a exposição “A Mente de um Serial Killer”, uma experiência imersiva trazendo 20 ambientes e contando a história de 17 serial killers famosos como Ted Bundy, Jeff Dahmer e Ed Gein.

 

Visual chocante e “mau gosto”

Desde a inauguração, a exposição no Shopping Eldorado vem causando polêmicas, com algumas pessoas dizendo na internet que foi até de mau gosto alguns ambientes, como a réplica de Fusca que Ted Bundy usava para capturar suas vítimas.

Visualmente, as salas são chocantes, apartamento de Jeff Dahmer com cabeças e órgãos no freezer, a sala de Richard Chase, também conhecido como Vampiro de Sacramento, contendo uma banheira com sangue, e a de BTK com réplicas de corpos amarrados e com sacos plásticos na cabeça. Algumas salas, como a de Ed Gein, contavam com fotos reais usadas como evidência. No entanto, nem todas as salas eram chocantes. A primeira sala trazia mais a parte investigativa sobre a história, depoimentos de investigadores, como a evolução de tecnologias ajudou a capturar e descobrir serial killers de décadas passadas, e réplicas de materiais que eram usados em investigações, como gravadores em interrogatórios e cotonetes para aquisição de amostras de DNA em cenas do crime.

Experiência decepcionante e questionável

Porém, o que a exposição entregou de visual, falhou ao entregar de informação, muitas salas não contavam com nada de novo que poderia ser visto na internet em sites comuns como a Wikipedia, e algumas das escolhas de serial killers são contestáveis, alguns que estavam ali a própria exposição questionava se realmente tratava-se de um serial killer como H. H. Holmes, que causava fraudes financeiras e matava as testemunhas, apesar do caso ter virado uma lenda local citando um “castelo da morte”, ele não representava algo sádico como outros casos. Outro perfil que não se encaixava na exposição foi o de Armin Meiwes, apesar de ser algo perturbador, ele não se encaixa como serial killer, pois matou apenas uma pessoa que conheceu on-line, e essa pessoa consentiu com o crime por ser uma fantasia pessoal de ser morta e devorada, perturbador, mas não serial.

Nomes como Richard Ramirez e Charles Manson ficaram de fora da exposição, apesar de Manson ter sido citado na sala de investigação para entender o perfil de um serial killer, ele não teve uma sala dedicada, o que pode ser considerado uma escolha questionável para a exposição. Richard Ramirez também foi outro caso famoso na década de 1980 e perturbador pela natureza satânica dos crimes.

 

 

Questões psicossociais e erros sistemáticos

Apesar da decepção pela falta de nomes importantes para esse tema e escolhas que não se encaixavam no perfil da exposição, uma das ideias também era trazer questionamentos psicossociais e erros sistemáticos.

A exposição mostra que muitos casos poderiam ter sido evitados antes se o sistema policial tivesse levado a sério, o mais famoso é o de Jeff Dahmer, que, por conta das vítimas serem negras e de um bairro LGBT, a polícia não levou as denúncias a sério, mas esse não foi o único. O caso de Fred e Rose West, que assassinaram a própria filha e depois mais 10 jovens, poderia ter evitado vítimas. Caroline Owens foi uma babá que foi presa e torturada pelo casal, ela conseguiu escapar e foi até a polícia, mas foi ignorada completamente.

Outro ponto importante que é retratado na exposição são os perfis psicossociais dos assassinos, abuso durante a infância, exposição a drogas e bebidas em uma idade precoce e acesso a outras questões sociais que causaram impactos nessas pessoas, misturado com traços psicológicos como esquizofrenia, paranoia, TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), traços de comportamento violento e controlador, foram mostrados como combinação perigosa que levaram essas pessoas a um ponto extremo e criminoso, levando a questionamentos e debate sobre a importância de investimento em tratamento de saúde mental. O caso mais intrigante é o de Albert Fish, também conhecido como “Homem Cinzento”, que já havia na família histórico de doenças mentais como esquizofrenia, isso combinado com abandono que sofreu na infância e torturas físicas que sofreu em instituições.

A ideia não é vitimizar os assassinos, mas entender o que os levaram a isso, e como prevenir que outros cheguem a esse ponto.

Apesar das reflexões, a exposição se torna cada vez mais cansativa e repetitiva, com o passar das salas, para passar por cada uma delas e ver todas as informações demoraram até quase duas horas, dando o sentimento de “o assassino dessa sala não vai me matar, mas o tédio e cansaço vai”. A exposição se encontra no subsolo do Shopping Eldorado e ficará disponível até o dia 29 de novembro.

 

Pedro H Nogueira

 

 

 

 

Author

Interessado por arte, literatura, cinema e heavy metal. Gosto de conhecer diferentes movimentos artísticos e entender suas relações com os contextos históricos e sociais de cada época.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *