
Imagem do acervo pessoal da autora
O PEDIDO
Laurinda despertou-se da noite, em boas-vindas ao dia, rechonchudo em compromissos. Desvencilhou-se cuidadosamente do seu edredom vermelho, para não acordar Manfredo, ronronante aos seus pés.
Ansiosa por vencer as etapas do dia, projetou os passos – mentalmente – entre um e outro gole de café.
Em pensamento intruso pôs-se a adivinhar quantos e quantos goles de café sorveu ao longo das fases, das tardes e auroras dessa breve jornada?!
Girou a chave do tempo e da vida, atravessando portais. Já na sala desligou o alarme do portão, com o pé no mundo lá fora.
Já no Uber do seu Ataxerxes, que, surpreendentemente, ainda oferece balas de menta, Laurinda confere no celular notícias e mensagens de maior ou menor relevância. Uma delas chama-lhe a atenção: número desconhecido, sem nome, foto ou qualquer identificação, apenas com a mensagem QUANDO PUDER CONTE-ME ALGO.
Entre o estranhamento e certa curiosidade, tal pedido ecoou durante todo o percurso: quando puder conte-me algo. Algo sobre o que, para quem, em qual tom ou estilo, qual área específica? Algo de pergunta, resposta, conselho? De amor, dor, humor? Algo com sabor, verso, poesia, dúvida, solução? Subjetivo, objetivo, afetivo, olfativo? Algo de esperança, consolo, partida? Tal pedido sombreou seus compromissos, ao longo do dia.
O que realmente a inquietava não era o pedido em si, mas o anonimato: como escrever algo a alguém sem rosto, idade, contexto ou singularidade?
Poderia ser uma mãe solo, desejando força e direção; um adolescente em meio a um bullying, buscando alguma validação. Poderia ser um senhor solitário, no ápice de uma depressão, um enlutado, desejando consolo ou proteção. Poderia ser um refugiado, despido de solução ou ainda um autor desejando um mote, alguma inspiração.
QUANDO PUDER CONTE-ME ALGO.
Laurinda desfilou com o pedido a tiracolo por todo o dia, profusa em respostas. Andou de lá pra cá, cumpriu prazos e atendeu demandas, no abre e fecha de seu laptop. Tomou água de coco, suco de goiaba, chá de cadeira e alguns ensinamentos. Até que, ao fim de produtivo dia, encorajou-se a revisitar a pergunta:
QUANDO PUDER CONTE-ME ALGO, com a qual respondeu:
PERCEBER O PRESENTE
COMO NOSSO MAIOR PRESENTE:
A VIDA NOS PEDE CORAGEM.
Pronto, feito.
Aliviada com o [auto]conselho, Laurinda programou pras seis e trinta os novos rascunhos de um novo dia: uma xícara de chá de hortelã, a ração do Manfredo no potinho e contou um rebanho de carneirinhos, até Morfeu chegar.

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