
Coluna de Márcio Calixto

Crônica de número 120
Chego a um marco particular: escrevo minha crônica de número 120 aqui no ArteCult. Ao mesmo tempo em que penso em como comemorar os dez anos de coluna, que farei ao fim desse ano, em Dezembro para ser mais exato. Desde que passei a anotar cada um dos textos que escrevo, colocando em um índice próprio em um dos meus caderninhos, vi que preciso ainda mais escrever.
Logo em minha primeira contagem, julguei que havia algo próximo de 50. Vi que, na verdade, eu já havia passado desse marco e escrevi o texto de número 60. Chego agora ao de 120, esperançoso, com desejo de mais, como um garoto que descobre a capacidade de fazer dribles com uma bola, que vê intimidade com a bola, que consegue pensar o jogo. Penso que esse não seja apenas o poder de se escrever cotidianamente. Quando começamos a mexer nas histórias dos grandes escritores, há esse vil desejo ao cotidiano, marcado pela religiosidade da escrita. Eu levei tempo até conseguir. Por já ter crescido na era dos teclados, nem sempre estar diante de um computador era possível. Para quem é classe média como eu, o computador tem lá suas distâncias. Demoramos a ter computador em casa, depois, quando já afeito da minha realidade laboral, consegui comprar um laptop usado. Ele me levou à escrita, mas a toda escrita. Ali estava um instrumento para todos os outros afazeres. Poder escrever era um luxo. Ao mesmo tempo, a tela cansa a vista e nem sempre quando se está afeito ao tempo de se escrever, você quer escrever em uma tela. O meu primeiro romance foi todo ele no computador, mas porque me forçava, deixava de fazer alguma coisa para abrir o Word e digitar um parágrafo, por menor que fosse, o negócio era escrever. Só que tela cansa. E cansa muito. No caderno, a caneta tem intimidade, e passei a escrever mais e mais.
Pena eu ter demorado a perceber essas nuances. Claro, escrever no caderninho me leva depois a ter de digitar. Vir à tela. Escrever com os dedos em cada ritmo de tambor em algo que se chama teclado. O som é outro. Gostoso sim, perfeito nunca. Amos Oz uma vez afirmou que escrever para ele era como abrir a loja de roupas às dez da manhã e esperar que o cliente chegue. Nem sempre vem. Nem todo dia se vende. Ver o prompt piscando gera ansiedade. Não indica somente estar pronto à digitação, mas impõe esse desejo constante a ficar pulando letra por letra até conseguir chegar plenamente ao parágrafo. Agora, eu só imponho os óculos no rosto para entender a minha perniciosa caligrafia (que nada tem de caligráfica) e digito. Um processo gostoso como forno que assa bolo. Ver o bolo crescer. O perfume do bolo. O calor do forno. Hora de passar aquele café. O dia pode ser quente, mas café e bolo quentes dão a sensação de felicidade de uma tarde feliz, como escrever esse texto, como lê-lo e depois esperar que me retornem os comentários dos amigos que me leem.
Essa semana, lendo a colega de bancada Analu, em sua crônica às quartas, ela escreveu sobre esse leitor que a acompanha. Lembro de uma outra – maravilhosa – crônica dela, em que escrevera ao amigo que partira, que de alguma forma a levou a escrever e escrever. Se devemos a esse amigo que a levou à escrita, se devemos aos nossos leitores a escrita propriamente dita, nesse retorno sutil e valioso do que fazemos não ser em vão, torna esse processo de encarar a tela e de traduzir minha própria caligrafia em algo ainda mais pessoal e profundo. Não faço mais para mim. Escrever tem disso, esse ego intransponível à morte. Escrever tem dessa metalinguagem mesquinha e portentosa de se vencer a morte. Tenho de concordar com Saramago, escrever é vencer a morte.
Ao lado de meu telefone celular está a cartela de losartana potássica. 50mg. Vi que esqueci de tomar a dose de ontem. Ao ver a cartela preenchida, sinto uma leve falta de ar. Se não tomei os remédios, a doença me toma, na sua sutileza peculiar dos tempos. Ela me lembra finitude. Não tomar os remédios me faz perceber finitudes mais próximas. Preciso de alguma maneira fechar essa crônica. Preciso me concentrar e encontrar o último parágrafo para que possa logo colocar na plataforma e meu editor torná-la visível. O que adianta eu escrever e deixar o editor na mão? O texto, no fim, só servirá a mim e não a todos. Tomo a losartana. É hora de buscar o último parágrafo.
Relembro quando fiz as contagens do que já escrevera ao ArteCult. Havia escrito um texto ao fim de um amigo, que morrera precocemente em Dubai, deixando filho e esposa. Soube essa semana da morte de mais uma daquela época, tomada pelo câncer e esperando sua passagem. A fez essa semana, gerando um misto de perda e liberdade, por ela não estar mais sofrendo. Ver amigos com menos de 50 anos partindo é péssimo, no entanto também esfacela o quanto nossa inquietude e nossa finitude caminham juntas. Já penso na crônica de número 1000, programada para daqui a mais de 20 anos, se eu continuar publicando apenas uma por semana. Sem pressa, então. É melhor. Não vou ficar olhando esse prompt pouco amistoso desejando letrinhas a serem digitadas. É no caderninho que as palavras se encontram. E aqui também, nessa coluna.
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação


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