Com Ana Gosling

Arif Riyanto, em Unsplash
CABRA-CEGA
A pergunta deixa a noite insone: quem é meu leitor?
Há uma resposta simples: os colegas das oficinas, alguns familiares, amigos, um ou outro desconhecido lêem o que publico. Não muita gente, imagino. Talvez por serem fáceis de serem apontados, não penso no seu prazer, por já contar com sua curiosidade.
Bem, mais ou menos. Há coisas tolhidas do texto. Por quê? Se não me arrisco a compartilhar uma ideia ou uma confissão é pudor ou compaixão? Poupo ao leitor ou a mim?
Quando comecei a escrever, tudo era sobre mim. A elaboração dos sentimentos, o gozo de juntar miçangas literárias. Fui instigada a publicar meus textos e ver se ressoavam. Ressoaram. Vieram respostas, identificações, críticas. A validação pelo outro. Eu, exposta, tanto pela profundidade das confissões (mesmo as fictícias) quanto pela ousadia sem técnica. A escrita com roupa de casa, sem maquiagem, abrindo a porta e deixando entrar quem lhe apontasse rugas e manchas na pele.
Encontrei conexões, dores semelhantes e encantamentos. Fui, nas oficinas, atrás de “roupa de gala”. Quis ouvir gente que fazia, com consciência, o que eu arriscava num salto de “body jump”.
O leitor começou a desenhar-se diante de mim. Por trás da tela, nos encaramos. Passei a escrever para fora, caiu o umbigo. Queria falar de feridas por saber que poderiam machucá-lo também. Queria dizer-lhe verdades por imaginar haver, no mundo, poucos que a digam. Se caminho à margem, sem entender os cenários, as motivações, a violência, a ira, talvez ele também se sinta sem rumo, aporte numa ideia minha e me dê a mão. Encontrar lógica é refrigério, mesmo quando é triste. Mas ainda não sei: foco seu prazer ou sua companhia?
Conto histórias, torcendo para se emparelhem a seu coração. Mesmo se dissonamos, desejo ser vista como parceira de estrada. Como no Cabra-Cega, tenho os olhos vendados e as mãos esticadas para alcançá-lo. Almejo tocá-lo, perceber-lhe. Embora saiba: ao tirar a venda, ele será um rosto diferente.
Às vezes, escrevo para aconchegá-lo, noutras para provocá-lo. Ele me entrega riquezas. Cobre-me com suas leituras inimaginadas. Desnuda-se, confessando uma lágrima. Marca terreno ao escolher a ribeira oposta. Mesmo abertos, permanece o mistério. Não sei por que se emociona com o que pertence a outros tanto quanto a mim. Nem quem se enternece das chagas exibidas ou das palavras escolhidas para nomeá-las. Talvez confie em mim para trazer o que é íntimo, sem precisar acusar-se.
A ele, peço: me leia e volte. Não me deixe só.


com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo













