
Raquel Penner: 20 anos de uma atriz em permanente construção
Duas décadas de dedicação ao teatro, prêmios e um projeto que se tornou referência na adaptação de clássicos para os palcos. Em 2026, a atriz Raquel Penner celebra 20 anos de uma sólida carreira e os 15 anos do bem-sucedido espetáculo Te Conto em Cena, que tem texto e direção assinados por Leonardo Simões. O projeto reestreia dia 2 de julho, no Teatro Correios Léa Garcia, no Centro (Rio), em uma temporada comemorativa. O projeto é baseado em seis contos de Machado de Assis e, desde sua criação, tem circulado pelo país e já passou por cidades como Cuiabá e Chapada dos Guimarães (MT); Porto Velho e Cacoal (RO); João Pessoa e Campina Grande (PB); Salvador e Santo Amaro da Purificação (BA), além de Cabo Frio e Niterói (RJ). Com o mesmo elenco desde a estreia, Raquel divide o palco com Luiz Filipe Carvalho e Pedro Maia e por meio de uma interpretação contemporânea e sensível, reforça a atualidade de seus contos.
- Te Conto em Cena: – Foto: Divulgação
- Te Conto em Cena: – Foto: Divulgação
Ao longo da carreira, Raquel trabalhou com diretores como Fernando Philbert, Leonardo Simões, Isaac Bernat, Claudia Ventura e Alexandre Dantas. Seu talento foi reconhecido com o Prêmio Arlequim de Melhor Atriz, o Prêmio Cenym de Teatro Nacional de Melhor Monólogo por Cora do Rio Vermelho e a indicação ao Prêmio Zilka Salaberry. A atriz também acumula experiências no cinema e na televisão, incluindo participação na novela Vai na Fé.

Raquel Penner. Foto: Divulgação.
ENTREVISTA COM ATRIZ RAQUEL PENNER
Nesta entrevista ao portal Arte Cult, Raquel revisita os momentos que marcaram seus 20 anos de trajetória, conta como nasceu Te Conto em Cena, revela curiosidades sobre o processo de construção de seus personagens e compartilha sua visão sobre a permanência da obra de Machado de Assis nos palcos. Ela também adianta os próximos projetos e reflete sobre os caminhos que ainda pretende explorar no teatro.

1) Vinte anos de profissão costumam transformar não apenas a atriz, mas também a pessoa. O que mudou na Raquel que sobe ao palco hoje?
Hoje, sempre que eu subo no palco, primeiro de tudo eu agradeço por mais um dia de trabalho. A Raquel de hoje tem muito mais consciência da potência e da responsabilidade que o trabalho do artista tem na sociedade. E procuro ampliar cada vez mais essa consciência sobre o meu trabalho. Não dá pra separar a Raquel artista da Raquel da vida cotidiana. Está tudo entrelaçado. Uma alimenta a outra. De alguns anos pra cá, antes de começar um projeto, penso porque quero fazer aquele espetáculo, o que me motiva a dizer aquelas palavras e o que eu quero comunicar. Penso como aquela peça vai transformar de alguma forma, as pessoas da plateia.
2) Existe algum espetáculo que representa um ponto de virada na sua forma de entender o teatro? Por quê?
Tenho que citar dois espetáculos. O Te Conto em Cena e o meu solo Cora do Rio Vermelho. Com o Te Conto em Cena eu comecei a viajar com o teatro pelo Brasil, em 2012, chegando em cidades onde nem existe teatro. É uma experiência que ampliou o meu olhar pra vida. Conhecer o Brasil não de maneira turística, mas trabalhando com Cultura, é muito diferente. Isso mudou a minha percepção de muitas coisas na vida. E depois, em 2021, Cora do Rio Vermelho foi uma grande virada na minha carreira. Foi quando eu idealizei pela primeira vez, o espetáculo que eu queria fazer. E foi logo um solo. Meu primeiro solo. Trabalhei em cada passo e vi uma ideia que partiu de mim se transformar num grande sucesso, movimentando uma equipe maravilhosa, conquistando diferentes públicos e chegando em mais de 8 Estados, quase 30 cidades e 140 apresentações. Chegamos com a peça em teatros de mais 700 lugares, localizados em cidades do Norte e Centro-Oeste, com ingressos esgotados na maioria das vezes. Na Cora, eu começo o espetáculo entrando pela plateia, então eu fico na cabine acompanhando a entrada do público. Isso despertou em mim um outro olhar. Fico pensando que cada pessoa que está ali na plateia, saiu de casa, se interessou pelo trabalho, comprou o ingresso, se deslocou até o teatro e eu preciso tocá-la com a peça de alguma maneira.
3) O que o tempo ensinou sobre o sucesso? A definição que você tinha no início da carreira continua a mesma?
Sucesso é algo tão indefinido e impalpável, que se transforma muito rapidamente também. Comecei muito jovem. Em 3 anos de formada, já tinha circulado com um espetáculo do Ariano Suassuna por mais de 12 cidades do RJ, tinha recebido uma indicação de Melhor Atriz por essa peça e um prêmio de melhor atriz por outra. E já estava ensaiando o Te Conto em Cena, que está aí até hoje. Mas isso nunca me fez perder o foco. Meu foco sempre foi trabalhar e fazer o que eu mais gosto, que é atuar. Sempre tive noção que o trabalho por trás desses momentos é muito maior e mais árduo. Pensava, às vezes, que sucesso era ser reconhecida nas ruas por muita gente e trabalhar simultâneamente no teatro, na tv e no cinema. Durante a caminhada como atriz, fui percebendo que sucesso é tocar as pessoas com o meu trabalho. É me emocionar diante de uma plateia e sentir essa emoção que vem do público. É receber uma mensagem de alguém que se sentiu transformado a partir do meu trabalho. Às vezes a gente faz um espetáculo que não recebe tantas indicações e não é tão premiado, mas é sucesso de crítica, conquista muitas coisas e o público ama. Isso também é sucesso! E sucesso também é uma questão de ponto de vista.
4) Em um espetáculo baseado em literatura, como você encontra o equilíbrio entre preservar a força do texto e construir uma experiência teatral viva?
Eu adoro começar o meu trabalho pelo texto. O texto já me mostra muitos caminhos e me alimenta de diferentes formas. Eu gosto de falar as palavras do texto na boca do personagem que eu estou construindo. Dar corpo àquelas palavras. Esse é o grande barato! Em Cora do Rio Vermelho, por exemplo, o grande desafio era tirar a musicalidade da maneira como costumamos falar a poesia e transformar as palavras numa conversa gostosa com o público. Com a incrível construção dramatúrgica do Leonardo Simões e com a direção brilhante do Isaac Bernat, cheguei a uma forma de fazer o espetáculo, que o público chega até a desconfiar que os poemas da Cora estão ali praticamente na íntegra, interligados um no outro. Parece de fato uma conversa da autora com a plateia, com nuances divertidas, emocionantes, mais íntimas, mais extrovertidas. O grande desafio do ator é esse: repetir o texto todas as noites, inúmeras vezes, como se fosse a primeira vez. Precisamos deixá-lo vivo, quente!
5) Existe alguma personagem ou algum conto deste espetáculo que ainda a desafie a cada apresentação?
O Espelho é um conto muito desafiador. Durante os ensaios, há 15 anos, esse conto foi o mais difícil de ser trabalhado. Tem muitas palavras pouco usadas nos dias atuais. Além disso, o conto é uma reflexão filosófica sobre a alma humana. Foi necessário lermos e relermos muitas vezes o conto, entendermos palavra por palavra e o sentido detalhado por trás de cada frase. E, seguindo a dinâmica do Te Conto em Cena, ainda fazemos o revezamento dos personagens, os jogos das cadeiras e as camadas de interpretação: ator, narrador-personagem e personagem. Até hoje, damos uma atenção especial a esse conto, buscando sempre o frescor de cada palavra, para que a gente não perca o sentido e dificulte a comunicação com o público. Mesmo que a plateia não saiba o sentido de todas as palavras que estamos falando, precisamos saber muito bem o que estamos querendo dizer, para que a gente consiga estabelecer a comunicação e gerar emoção.

Te Conto em Cena: – Foto: Bianca Oliveira
6) Se tivesse que definir sua trajetória artística em uma única palavra, qual seria? E por quê?
Construção. Porque construir algo leva tempo, demanda paciência e possui diversas etapas. Algumas mais difíceis, outras mais bonitas, outras desafiadoras. E construir algo não se faz de uma hora pra outra. É uma caminhada que não tem linhas retas ou definidas. Nada na minha carreira aconteceu de uma hora pra outra. Tudo é construído passo a passo.
7) Há algum personagem, autor ou projeto que ainda faça parte da sua lista de sonhos?
A personagem Joana da peça Gota D`Agua sempre me fascinou. Também tenho vontade de fazer alguma peça de Shakespeare, com um elenco grande e uma linguagem mais contemporânea.
8) Uma pequena felicidade do cotidiano:
Andar pelo bairro curtindo a paisagem, sentar pra tomar um café numa cafeteria gostosa e rir com a minha filha.
9) Um livro que sempre volta para a sua vida e porque.
Vou falar de uma autora que tem estado no topo das minhas referências, que é a Socorro Acioi. Li “A Cabeça do Santo” em 1 dia e logo segui pra “Oração para Desaparecer”. É uma gênia brasileira. Uma mulher incrível! Eu não conseguia largar o livro. Os personagens são interessantíssimos, brasileiríssimos. Ela tem uma maneira mística, bem humorada e mágica de escrever. Minhas referências na literatura, na música e no cinema são muito brasileiras e a Socorro é uma grande referência.
- Te Conto em Cena: – Foto: Divulgação
- Te Conto em Cena: – Foto: Divulgação
- Te Conto em Cena: – Foto: Divulgação














