BLACK SABBATH: O TROVÃO DO HEAVY METAL

Coluna de Chris Herrmann

Black Sabbath – IArte: Chris Herrmann

 

BLACK SABBATH

O TROVÃO DO HEAVY METAL

Quando a escuridão ganhou som e mudou para sempre a história do rock

 por Chris Herrmann

A TEMPESTADE QUE NASCEU EM BIRMINGHAM

Em certas épocas, a música parece caminhar em uma direção previsível. Então surge alguém disposto a romper o horizonte. No final dos anos 1960, quando o rock psicodélico ainda dominava boa parte da cena e o idealismo hippie ecoava pelos festivais, quatro jovens operários da cidade industrial de Birmingham decidiram seguir um caminho diferente. Em vez de cantar flores, sonhos e viagens cósmicas, passaram a traduzir em música a fumaça das fábricas, o peso do cotidiano e os medos que habitam o inconsciente humano.

Assim nasceu o Black Sabbath.

Formada por Ozzy Osbourne, Tony Iommi, Geezer Butler e Bill Ward, a banda surgiu inicialmente sob outros nomes até encontrar a identidade definitiva inspirada em um filme de terror italiano. A escolha não poderia ser mais apropriada. Desde o início, o grupo compreendeu algo que poucos haviam percebido: o medo também podia ser matéria-prima para a arte.

O álbum de estreia, lançado em 1970 e batizado simplesmente de Black Sabbath, permanece como um dos momentos mais revolucionários da história da música popular. Logo na faixa de abertura, o som de chuva, sinos fúnebres e um riff sombrio criavam uma atmosfera inédita. Era como se uma tempestade estivesse atravessando os alto-falantes.

Grande parte dessa sonoridade nasceu das circunstâncias. Tony Iommi havia perdido as pontas de dois dedos em um acidente industrial quando trabalhava em uma fábrica. Para continuar tocando, precisou adaptar sua técnica e afinar a guitarra de forma diferente. Sem querer, criou um som mais grave, pesado e ameaçador. Uma tragédia pessoal acabou ajudando a moldar o DNA do heavy metal.

A química entre os integrantes era igualmente essencial. Geezer Butler trazia letras influenciadas pela literatura, pelo ocultismo, pela guerra e pelas inquietações existenciais. Bill Ward oferecia uma bateria dinâmica, capaz de alternar violência e sutileza. Ozzy, com sua voz inconfundível, transformava cada música em um ritual.

Em poucos anos, o grupo lançou uma sequência impressionante de álbuns históricos. Paranoid, Master of Reality, Vol. 4 e Sabbath Bloody Sabbath não apenas consolidaram a banda, mas estabeleceram os alicerces de todo um gênero musical.

Canções como “Paranoid”, “War Pigs”, “Iron Man”, “Children of the Grave” e “Sabbath Bloody Sabbath” tornaram-se referências obrigatórias para gerações inteiras. O que antes parecia estranho ou excessivamente sombrio começou a ser reconhecido como uma nova linguagem.

A influência do Black Sabbath espalhou-se como um raio. Sem eles, seria impossível imaginar bandas como Metallica, Iron Maiden, Judas Priest, Slayer ou Pantera. O heavy metal, o doom metal, o stoner rock e inúmeros outros subgêneros carregam em seu DNA a marca deixada por aqueles quatro músicos de Birmingham.

Mas seria injusto reduzir o Sabbath apenas ao peso. Por trás dos riffs monumentais existia uma banda extremamente criativa. Havia crítica social em “War Pigs”, melancolia em “Planet Caravan”, reflexão existencial em “Changes” e uma constante busca por novos caminhos sonoros.

Ao longo das décadas, o grupo enfrentou mudanças de formação, conflitos internos, excessos e reencontros. Ainda assim, sua relevância jamais desapareceu. Em 2013, com o álbum 13, a formação clássica retornou aos estúdios e demonstrou que o trovão ainda podia ser ouvido.

O Black Sabbath não inventou apenas um estilo musical. Inventou uma atmosfera. Antes deles, o rock podia ser pesado. Depois deles, tornou-se capaz de encarar os próprios fantasmas.

 

O LEGADO DA BANDA QUE ENSINOU O ROCK A OLHAR PARA A ESCURIDÃO

Poucas bandas conseguiram redefinir tão profundamente o curso da música popular. O Black Sabbath fez mais do que criar canções memoráveis. Criou uma estética, uma filosofia e uma nova forma de compreender a potência emocional do som.

Se os bluesmen transformaram a dor em música e os pioneiros do rock transformaram a rebeldia em energia, o Sabbath transformou a sombra em arte.

O grupo mostrou que a música podia abordar temas desconfortáveis sem perder força popular. Falou sobre guerra, loucura, alienação, religião, medo e mortalidade. Fez isso sem abandonar o impacto visceral dos riffs e da performance.

Talvez por isso sua obra continue tão atual. Porque os medos humanos mudam de roupa, mas nunca desaparecem.

Mais de meio século após sua criação, o nome Black Sabbath permanece associado não apenas ao nascimento do heavy metal, mas à capacidade da música de transformar inquietação em beleza.

 

 O PRÍNCIPE DAS TREVAS: A SEGUNDA VIDA DE OZZY OSBOURNE

Ozzy Osbourne | IA: Chris Herrmann

 

Quando deixou o Black Sabbath em 1979, muitos acreditaram que a trajetória de Ozzy Osbourne havia chegado ao fim. Os excessos pessoais e os conflitos internos pareciam ter consumido o cantor que ajudara a fundar um dos grupos mais importantes da história do rock.

Mas a história estava apenas começando.

A carreira solo de Ozzy tornou-se uma das maiores reinvenções já vistas na música pesada.

O primeiro álbum, Blizzard of Ozz, lançado em 1980, apresentou ao mundo um novo capítulo. Ao seu lado estava o extraordinário Randy Rhoads, guitarrista cuja combinação de técnica, melodia e agressividade redefiniu os limites do instrumento.

Faixas como “Crazy Train”, “Mr. Crowley” e “Goodbye to Romance” tornaram-se clássicos instantâneos. O que surpreendia era que Ozzy conseguira preservar a identidade que o tornara famoso ao mesmo tempo em que construía algo diferente.

A morte trágica de Randy Rhoads, em 1982, poderia ter encerrado esse ciclo. Em vez disso, tornou-se um dos momentos mais emocionantes da história do rock. Ozzy seguiu em frente carregando a memória do amigo e consolidando uma carreira impressionante.

Ao longo dos anos, trabalhou com guitarristas extraordinários como Jake E. Lee, Zakk Wylde e Gus G. Cada fase trouxe novas nuances ao seu som, mas manteve intacta a personalidade que o tornara único.

Álbuns como Diary of a Madman, Bark at the Moon, No More Tears e Ozzmosis ampliaram sua influência e consolidaram sua posição como uma das figuras centrais do heavy metal mundial.

Ao contrário da imagem caricatural frequentemente associada a ele, Ozzy sempre demonstrou uma inteligência artística notável. Sabia reconhecer talentos, construir repertórios sólidos e conectar-se emocionalmente com o público.

Sua figura pública tornou-se ainda mais popular nos anos 2000 com o reality show The Osbournes, que apresentou ao mundo um lado inesperadamente humano e bem-humorado do chamado Príncipe das Trevas.

Por trás da maquiagem, dos escândalos e das histórias lendárias, havia um sobrevivente. Um homem que enfrentou dependências, problemas de saúde, críticas e desafios constantes sem jamais abandonar a música.

 

UM ECO QUE NUNCA SE APAGA

A trajetória de Ozzy Osbourne é uma das mais improváveis da história do rock. Poucos artistas conseguiram ser protagonistas de duas carreiras tão relevantes. Primeiro como fundador do Black Sabbath. Depois como ícone absoluto em carreira solo.

Sua voz continua imediatamente reconhecível. Sua presença continua magnética. Seu legado continua crescendo.

Se o Black Sabbath foi o trovão que anunciou uma nova era, Ozzy tornou-se o rosto dessa tempestade.

O trovão distante que ainda faz a terra tremer e sonhar…

 

Fontes:

  • Rolling Stone – Black Sabbath Biography
  • Rolling Stone – Ozzy Osbourne Biography
  • BBC Music – Black Sabbath Overview
  • AllMusic – Black Sabbath Artist Profile
  • AllMusic – Ozzy Osbourne Artist Profile
  • Guitar World – Tony Iommi and the Birth of Heavy Metal
  • Loudwire – The History of Black Sabbath
  • Classic Rock Magazine – The Legacy of Black Sabbath
  • Kerrang! – Ozzy Osbourne Career Retrospective
  • Ultimate Classic Rock – Black Sabbath and Ozzy Osbourne Archives
  • Metal Hammer – Black Sabbath: The Complete Story
  • Rock and Roll Hall of Fame – Black Sabbath Induction History

 

 

 

CHRIS HERRMANN
Escritora, musicista, editora, designer.
Editora-chefe Redação e Colunista ArteCult.com

 

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Author

Chris Herrmann é escritora/poeta, musicista, musicoterapeuta, editora e webdesigner teuto-brasileira, nascida no Rio de Janeiro. Estudou Literatura na UFRJ, Música no CBM e pós-graduou-se em Musicoterapia na Universidade de Münster, Alemanha. Tem 13 Livros publicados (poesia contemporânea, haikai, romance, contos e literatura infantil); bem como participação e organização em inúmeras coletâneas de poesia no Brasil e exterior. Recebeu diversas premiações ao longo dos últimos 20 anos, como escritora, poeta, webdesigner e curadora de sarau. É editora-chefe da revista eletrônica Ser MulherArte (www.sermulherarte.com | @sermulherarte); articuladora do Mulherio das Letras na Lua (Grupo de Poesia ligado ao Movimento Mulherio das Letras); editora do Sarau da Varanda (@sarau.da.varanda) e Arthéria Viva (@artheriaviva) no Instagram. Desde Outubro de 2025, é colunista do Portal ArteCult (www.artecult.com | @artecult).

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