Às Quartas – Copa e consciência

Com Ana Gosling

 

Imagem gerada por IA/GPT

 

Copa e consciência

 

A música-tema da Copa do Mundo, “Dai Dai”, é um grande salve à capacidade de superação associada ao esporte. Do carrossel de clichês amarrados à letra, um me deixa a pensar: we’ve taken all that our hearts can hold/from the dirt and the tears, we make gold/we are more than flesh and bones. Em livre tradução: pegamos tudo que nossos corações conseguem abrigar/fazemos ouro da sujeira e das lágrimas/somos mais do que carne e osso.

Na vida e no campo, viver é superação contínua. A dinâmica do esporte materializa o necessário à sobrevivência humana: paixão, disciplina, fé, solidariedade, interdependência.

Lembram-se do “não vai ter Copa!”, que se alastrou na época em que o Brasil sediou o evento? Em cada Copa, a ladainha recomeça: “futebol é alienação”, “o país está à beira do abismo”, “decisões estão passando no Congresso”. “Como ser alegre em guerra”? Penso diferente: como não aproveitar a chance de sê-lo, se sangra o mundo?

Sem o campeonato, substituiremos a torcida por consciência política? Cessarão os mísseis? Ou é ilusão? Da Copa de 70, em que a seleção encantou, sob críticas de servir à ditadura brasileira, o que restou de legado: a apropriação indevida da vitória por um governo autoritário ou a nostalgia por um time que fez história no futebol mundial?

Forjo teorias, contagiada pela emoção. Abraçamos a crença no triunfo, mesmo não sendo favoritos. Subvertemos lógicas. Há menino pobre virando estrela mundial, por magia (o dom) e trabalho (o treino da vida inteira) e inspirando gerações. A cooperação se revela a única maneira de vencer. O futebol impacta contextos sociais mundo afora.

Lembro o recente abraço de Marquinhos em Gabriel Magalhães, na final da Champions League. Antes de juntar-se ao seu time, em comemoração pela vitória após o erro de Magalhães, o capitão da nossa seleção abraçou seu adversário após o pênalti perdido. Vestiu a empatia antes da vaidade: conhecia aquela dor, por também ter errado na Copa do Mundo de 2022.

Quantos gestos políticos nasceram no campo? Sócrates, capitão de 82, comemorava gols com os punhos cerrados, em protesto silencioso. Atletas americanos, antes, adotaram o mesmo gesto, simbolizando apoio à igualdade racial. Pelé dedicou seu milésimo gol às crianças pobres do Brasil. Proibido o uso de braçadeiras em prol da diversidade, com cores arco-íris, jogadores da seleção alemã cobriram as bocas antes de uma partida no Catar.

Volta-me a história de “Invictus”, em que Clint Eastwood narra como Nelson Mandela uniu uma nação segregada pelo Apartheid usando a paixão pelo esporte. A trama é baseada em fatos reais: Mandela vira na Copa Mundial de Rúgbi (um esporte símbolo de domínio racista) a oportunidade de inverter o jogo separatista.

O futebol pode estar atrelado a interesses econômicos, mas o humano se revela mais à luz do espetáculo. Como na canção-tema, os elementos que nos formam e nos sustentam nos conectam. Não o frio placar do fim da partida, mas a saga para alcançá-lo: dribles, erros, cansaço, inteligência, gentileza, habilidade, treino.

Ah, do que é capaz a humanidade… Dias lúdicos nos põem frente à razão e paixão, ética e má postura. E se, por exemplo, um árbitro somali for barrado de entrar no país do campeonato – por uma política migratória que o marginalize – quando chegar em casa, horas depois, ele se consagrará herói, cercado em solidária acolhida.

Se não fosse a Copa a mostrar como o feio é grotesco, talvez nem parássemos pra olhar. Nem adiantará fazer pose; não há chance de sair bonito na foto quem não tem humanidade a exibir.

 

 

ANA GOSLING

@analugosling

 

 

 

DICAS DA SEMANA:

Imagem: Divulgação

GINGERS NO CINEMA

O Grupo de Sapateado Gingers (Sapatos Ageless) convida a todos para prestigiarem o documentário “AS GINGERS”,  do premiado diretor Pedro Murad, feito com os membros do grupo. A exibição será nos dias 26 e 27 de junho, no Novo Cine Jóia, em Copacabana.   Após a sessão do dia 26/06, haverá um bate-papo com o público sobre o processo criativo das obras exibidas.

SERVIÇO: 

GINGERS NO CINEMA

⏩ Documentário AS GINGERS (Exibido em festivais de cinema nacionais e internacionais em 2025 e vencedor do prêmio de melhor direção no Festival de Xerém)

⏩ Novo Vídeodança “Forró com as Gingers”.

Data: 26/06/2026 às 19:30 e 27/06/2026 às 18:30 e 19:30
Local: Novo Cine Jóia (Copacabana)

Endereço: Avenida Nossa Senhora de Copacabana No. 680 – Subsolo, Rio de Janeiro – RJ – (21) 2236-5671

ATENÇÃO: ingressos limitados! Os ingressos só poderão ser adquiridos através do SYMPLA, não sendo vendidos na bilheteria do cinema. Link para compra dos ingressos: https://www.sympla.com.br/evento/gingers-no-cinema—exibicao-do-documentario-as-gingers-e-videodanca/3436405

 

Imagem: Divulgação

LANÇAMENTO – NUVENS DE PALAVRAS – VOLUMES 7 E 8 – CURITIBA

No próximo sábado, dia 20/06, é a vez de Curitiba receber os autores da coletânea de crônicas “Nuvens de Palavras”!

Os textos foram elaborados pelos alunos da Oficina Literária Eduardo Affonso.

A Oficina, que iniciou seus trabalhos em 2020, permanece ativa, hoje contando com 60 alunos divididos em 5 turmas e com as vagas de inscrição momentaneamente lotadas.

Já foram produzidos seis volumes anteriores de coletânea de textos. No dia 23/5, será o lançamento dos volumes 7 e 8, que contêm 4 a 5 textos de 28 autores em cada livro. Dessa vez, o próprio Eduardo Affonso, instrutor da Oficina e colunista do Jornal O Globo e colaborador da coluna Lu Lacerda na Revista Veja, participará dos livros, com textos inéditos.

Estou entre os alunos, com textos no volume 8.

Apareçam para prestigiar-nos!

SERVIÇO:

Evento: Lançamento da Coletânea “Nuvens de Palavras, volumes 7 e 8”

Data e hora: 20/06/2026, às 19 horas

Local:  Floreria Café-Bar – Rua Manuel Eufrásio, 1550, Centro Cívico, Curitiba

Siga a Oficina nas redes sociais:

Instagram: @nuvens.de.palavras

Facebook: https://www.facebook.com/share/1CkzaidQR3/

Informações: oficina@eduardoaffonso.com

com Chris Herrmann

com Márcio Calixto


com Ana Gosling

com César Manzolillo


com Tanussi Cardoso

com Rose Araújo

Author

Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, no ArteCult, há crônica nova da autora, que integra o projeto AC VERSO & PROSA junto de Tanussi Cardoso (poemas) e César Manzolillo (contos). Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

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