
Alguém sabia que um município localizado na região centro-sul fluminense do Rio de Janeiro, entre Petrópolis e Três Rios, está sendo considerada – inclusive por lei municipal e estadual – a “Capital da Uva” no Estado? Pois é, quando soube disso e passei a pesquisar os motivos que levaram essa cidade, localizada a uma altitude de 444 metros, de clima ameno e natureza exuberante da Mata Atlântica, a se tornar a maior produtora de uva, com mais de quarenta hectares de área plantada, mais de oito variedades de castas e expectativa de uma produção média de 60 mil garrafas de vinho anual, era certo de que eu faria de AREAL a minha próxima parada.
Areal é um município brasileiro localizado na região Centro-Sul Fluminense, no estado do Rio de Janeiro. Localiza-se a uma latitude 22º13’50” Sul e a uma longitude 43º06’20” Oeste, estando a uma altitude de 444 metros. A cidade ganhou o título de “Cidade da Uva” no Rio de Janeiro pela lei estadual Nº 9.388/2021, contando com mais de 30 hectares plantados e sendo um destino comum no estado para o enoturismo. Sua população, conforme estimativas do IBGE de 2022, era de 11 828 habitantes, e sua área territorial é de 110,919 km².
Sua principal atividade econômica é o turismo, sendo que a Lei Estadual Nº 10.658 de 7 de Janeiro de 2025 declara a cidade como “Cidade das Nações” do estado. O título se deve a construção de vilas temáticas de diversos países. A primeira vila construída foi uma réplica da região de Toscana, na Ítália.(Wikipédia)
Atualmente, AREAL conta com cerca de 15 a 20 vinícolas em atividade e em formação, com mais de 100 mil pés de uva plantados, dentre eles Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Shiraz, Sauvignon Blanc, Viognier, Malbec, Tempranillo, Sangiovese e Montepulciano. Nas minhas pesquisas, vi que o setor conta com a AVIVA (@aviva.rj) – Associação do Produtores de Uvas Vitis Vinífera da Serra do Rio de Janeiro, instituída em 2023 com o objetivo de fortalecer os produtores de uvas e vinhos da região serrana do Rio de Janeiro entre eles: Vinhedo Bemposta (Três Rios/RJ), Borgo Del Vino – Família Eloy (Areal/RJ), Vale dos Desejos (Paraíba do Sul/RJ), Vinícola Tassinari (São José do Vale do Rio Preto/RJ), Vinícola Arouca – Casa Vinnus (Areal/RJ), Casa Antunes (Paty do Alferes/RJ), Vinícola TerraBenta (Paraíba do Sul/RJ), Vinhedo dos Mendez (Paraíba do Sul/RJ), Vale da Bússola (Paraíba do Sul/RJ), Fazenda São João do Penedo (Areal/RJ), Fazenda Santa Teresa (Areal/RJ), Fazenda Joana (Três Rios/RJ), Vinícola Di Bento (Areal/RJ), Vinícola Comodoro (Areal/RJ), Vinícola Fortuna (Três Rios/RJ), Vinícola Terras Frias (Nova Friburgo/RJ), Quinta Ribeiro Cader & Filhos (Itaguaí/RJ), Vinícola Maturano (Teresópolis/RJ), Sítio São Miguel Arcanjo (Paraíba do Sul/RJ), Vinícola Caiaffa (Nova Friburgo/RJ), Quinta do Barão (Três Rios/RJ), Vinhedo Secretário (Petrópolis/RJ), Vinícola Somnium (Areal/RJ), Vinhedo Villarejo (Paty do Alferes/RJ), Videiras Quindins (Paty do Alferes/RJ), Vinhedo Teixeira Fernandes (Paty do Alferes/RJ), Vinícola Caniato (Paty do Alferes/RJ), Casa Rozental (Petrópolis/RJ) e Vinícola Altos do Rio (Petrópolis/RJ).

Como a distância para a Capital não é tão grande – aproximadamente 105 km, com fácil acesso pela rodovia BR-040 – resolvi fazer um bate-e-volta, para já começar a me inteirar do que é possível encontrar em AREAL. A região é cortada pelos rios Piabanha, Preto e Fagundes e cercada por montanhas, o que já a transforma em um excelente destino para caminhadas ecológicas, cavalgadas e passeios off-road.
AREAL está associada ao período do Ciclo do Ouro, quando os bandeirantes usaram o local como ponto de parada para as diligências. Com o declínio do Ciclo do Ouro em Minas Gerais, exploradores e colonizadores buscaram novas atividades econômicas para promover sua expansão e assentamento. Seu nome teve origem em um banco de areia que existia no local onde hoje se encontra uma Igreja Católica.
O crescimento da economia local, principalmente da viticultura, tem se transformado no ponto chave para o sucesso de AREAL, destacando-se como um destino turístico emergente. Esse cenário promissor, de ascensão – que combina desenvolvimento econômico, crescimento do turismo e um mercado imobiliário em expansão – faz com que o município se beneficie de investimentos em infraestrutura e, consequentemente, torne-se bastante atrativo para o surgimento de novos empreendimentos, especialmente no setor de serviços e turismo. Não à toa AREAL tornou-se um dos principais polos de crescimento da Região Serrana do Rio de Janeiro.
Aqui, preciso abrir um adendo, já que, certamente, todo mundo deve estar se perguntando como é possível ter-se vinho de qualidade no Rio de Janeiro, não é mesmo? Mas isso só foi possível com o advento de uma técnica desenvolvida no início dos anos 2000 pelo agrônomo e pesquisador mineiro Murilo de Albuquerque Regina do EPAMIG denominada Dupla Poda, Poda Invertida ou Colheita de Inverno. E o que seria isso, então? Bem, o método envolve a realização de duas podas na videira. A primeira poda (de formação) costuma ser feita em agosto, período habitual para esse tipo de intervenção; já a segunda poda (de produção) ocorre em janeiro. A 2ª poda “engana” a planta, alterando seu ciclo natural. Como resultado, a floração acontece apenas em abril e maio, e a colheita das uvas ocorre somente entre o final de junho e o início de agosto, durante o inverno. Assim, não se realiza a vindima em fevereiro e março (verão), meses de chuvas, para evitar a precipitação durante a colheita, que pode ser altamente prejudicial e afetar a qualidade das uvas.
Como ficaria só um dia pela região, fui conhecer uma das inúmeras vinícolas existentes e optei pela VINÍCOLA FAMÍLIA ELOY (@familia.eloy) e seu BORGO DEL VINO, que é uma expressão em italiano que significa “Vila do Vinho” ou “Povoado do Vinho”.


Reservei um tour com Degustação – como éramos em dois, uma seria de queijos e charcutaria e a outra de chocolates. Além de caminhar pelas áreas da chamada “Toscana Carioca” e conhecer a história do lugar, ainda experimentaria três rótulos da casa.
Na primeira parte, vou me limitar a colocar algumas fotos – afinal, uma imagem vale mais do que mil palavras, né? Realmente, o lugar é belíssimo! Como hoje, ali, funciona também um hotel de alto nível, alguns acessos específicos dos hóspedes eram restritos, mas foi possível se ter uma ideia do espaço.










Chegamos, então, na área de uma das castas plantadas na vinícola – a SYRAH, uva francesa que se consolidou como a casta tinta símbolo dos “vinhos de inverno” no Sudeste brasileiro. Fomos guiados por um dos enólogos da casa, o Diego, que foi bastante didático em suas explicações.




E, aqui, tive a deliciosa oportunidade de experimentar uma vitis vinífera direto do pé, uma vontade de muito tempo! Já estive em vários lugares com plantações de vinho mas, para meu azar, sempre foi fora de época. E, por isso, adorei a experiência! Havia uva esperando ser colhida. Não me contive e um cacho foi pra conta…


Depois de tocarmos o sino na torre, descemos para um túnel subterrâneo que levava à sala de degustação, localizada na enoteca, onde a mesa estava posta, com uma cesta de pães e grissini, pronta para o início dos trabalhos.





Trouxeram as duas degustações. Em uma delas havia lombo e picanha suína defumados em madeira de amora, queijo brie e patê bem temperado e, na outra, havia bombom de pistache, chocolate branco, cereja, pimenta preta, café e caramelo com flor de sal.


Começamos com o primeiro vinho, um espumante brut, elaborado com uvas Chardonnay, Pinot Noir e Riesling Itálico, feito pelo método tradicional e que passou por 12 meses em contato com as borras. A orientação para harmonizar esse primeiro rótulo seria com o patê – uma harmonização por corte, já que a acidez do espumante corta a untuosidade do paté – ou com o Brie – aqui já seria uma harmonização por equilíbrio, uma vez que um não brigaria com o outro. Para o chocolate, a recomendação foi o de pistache ou o branco, encaixado dentro da primeira categoria (corte). Deu super certo!


Partimos para o segundo vinho, safra 2025, elaborado com a Syrah. Aqui a pegada foi diferente, e a orientação foi pelo lombo ou a picanha suína e, para o chocolate, o bombom de cereja ou de pimenta preta – afinal, a Syrah traz muito a pimenta preta nas suas características…

Finalizamos a experiência com o Cabernet Franc, também de safra 2025, um vinho de coloração rubi intensa, notas de frutas vermelhas, um leve toque herbáceo e nuances de especiarias. Perfeito com a picanha suína ou com os bombons de café e caramelo com flor de sal!

Depois, deu tempo pra dar uma voltinha pela bela enoteca…




Vale ressaltar que, no espaço, existem dois restaurantes: O DON ELOY RISTORANTE (@doneloyristorante) e a PIZZERIA DEL BORGO (@pizzeriaborgodelvino), com seu pôr do sol incomparável! Como também vale ressaltar que existem outros restaurantes dentro de vinícolas na região que também valem a pena conhecer – e que estarão, certamente, no meu próximo roteiro! – como é o caso da CAVE RISTORANTI (@cave.ristoranti), localizada na VALE DOS DESEJOS (@valedosdesejos), vinícola familiar que fica na divisa entre Paraíba do Sul e Areal e da CASA VINNUS (@casavinnus), centro exclusivo de experiências enogastronômicas e culturais situado na VINÍCOLA AROUCA (@vinicolaarouca).



Retornei ao local em que estava hospedado e resolvi dar uma volta à pé pelas redondezas. E não é que encontrei, ali pertinho, um pequeno empório com bastante coisa interessante? E olha que não é tão comum assim encontrar esse tipo de estabelecimento em uma cidade pequena, com uma boa diversidade de produtos de qualidade, inclusive com bastante itens de produtores locais, o que, por si só, já me deu indicativo de que ali seria minha próxima parada.
Trata-se da ARMAZÉM ZIMBRÃO (@armazemzimbrao) e, antes de qualquer coisa, dei uma volta pelo espaço, olhando tudo o que estava exposto nas prateleiras e refrigeradores. Havia muita coisa boa! Bebidas, mercearia, frios e laticínios, delicatessen, quitanda…



Aproveitei que haviam mesas espalhadas e me apossei de uma, pedindo uma cerveja local – a FRED BIER (@cervejariafredbier), a cerveja gluten free pioneira do Estado – e algumas coisas para petiscar. Foi muito legal ver que eles possuem à venda muitos produtos da região, não apenas os vinhos, valendo mencionar itens da DOCES D´ÂNGELO (@docesdangelo) e da WOLLEN CHARCUTARIA ARTESANAL (@wollen_charcutaria). Fui muito bem atendido pelos proprietários, quer fizeram questão de ressaltar que o armazém prioriza a valorização dos produtos locais. Ah, e fiquem ligados nas redes sociais, pois eles fazem degustações de vinhos e outros eventos…




De quebra, conheci o Mateus Meira, engenheiro agrônomo que comanda a IN VITIS E ENOLOGIA (@invitiseenologia), uma iniciativa especializada em consultoria, manejo e educação vitivinícola. Focada no desenvolvimento do cultivo da uva (viticultura) e na elaboração de vinhos (enologia), atua prestando suporte técnico para vinhedos, desde a escolha de mudas e análise de solo até a produção, sendo bastante ativa na região Sudeste do país – principalmente nessa região objeto da minha visita. Por uma dessas coincidência da vida, ele estava lá trazendo uma garrafa de uma produção pessoal, feita em parceria com seu amigo Beto Calçados, sem passagem por madeira, apenas tanque de concreto.

Fizeram a degustação do primeiro exemplar – a garrafa 001!!! – ainda com um rótulo improvisado, colado às pressas. E como eu estava por ali, recebi a honra de estar entre aqueles que tiveram esse privilégio.


Tentei, depois, conhecer in loco a WOLLEN CHARCUTARIA ARTESANAL, que fica numa área rural, com acesso através de estrada de chão. Fui na cara e coragem, sem saber se haveria ponto de venda ou se estavam abertos. Mas, como toda boa Lei de Murphy, dei com a cara na porta e não tive o prazer de conhecer, de perto, os produtos. Deveria, por óbvio, ter tentado um contato anterior para saber como é o funcionamento… Vai ficar para a próxima vez.


Mas essa ida frustrada não foi de todo ruim já que, na volta, dei de cara com um belo restaurante. Trata-se do ANNUNCIATA (@annunciatamassaseblend), especializado em massas artesanais. Fica ali, nessa mesma Estrada do Morro Grande, bem no meio da natureza! Recém inaugurado e com um visual de tirar o fôlego, inova no projeto das instalações – na medida em que se aproveita de dois food trucks, um para a cozinha e outro para o bar, e os insere no espaço, tornando-os parte integrante do contexto e trazendo um pouco da história do caminho dos proprietários até aqui. Sim, pois pelo que me contaram, eles sempre trabalharam com eventos, utilizando-se desses veículos em feiras e afins.







Fiz a reserva através do contato que tinha no Instagram e quando a gente chegou, deu pra perceber o carinho no tratamento. Sobre a mesa, um pequeno cartaz dando as boas-vindas. Um mimo!

Minha mulher pediu um drink sem álcool, feito com limão tahiti, laranja, limão siciliano, açúcar, água com gás e alecrim, que estava lindo e muito gostoso. Eu, como ainda iria pegar a estrada, tive que me abster também do álcool e fui de refrigerante mesmo… Pedimos, também, de entrada, as brusquettas da casa e ela dividiu entre as duas opções: Napolitana, com muçarela de búfala, tomate e pesto de manjericão e Roast Beef, com molho de ervas, parmesão, mostarda e alcaparras. De quebra, já dei uma olhada no azeites aromatizados da casa, pra usar no prato principal…



Chegou a hora de escolher o prato principal. O cardápio é bem enxuto mas, mesmo assim, fiquei na dúvida do que pedir. Fomos de Fettuccine da Nona, ao molho bechamel de parmesão com medalhão de filé mignon ao molho Malbec e um Gnocchi de batata baroa com brie ao molho funghi. Os dois pratos estavam uma delícia! E, pra fechar a experiência com chave de ouro, uma café expresso emoldurado pela vista incrível…



Bom, esse foi apenas um bate e volta, para se ter um primeiro contato com a região. E já foi suficiente pra ficar com vontade de voltar… Certamente AREAL e seu entorno devem ser (muito bem) explorados, pois ficou bastante evidente seu enorme potencial turístico, tornando-se uma opção bastante válida para ser incluída em uma próxima viagem. Não deixem de considerar…
Fica aqui a minha recomendação.
A gente se encontra de novo em breve!










