
Coluna de Márcio Calixto

IArte – Chris Herrmann
Ao seu aniversário, Dona Olinda
Para quem não conhece, Dona Olinda é minha mãe. Tanto ela, quanto meu irmão mais novo, são arianos. Ranhetas, tinindos de opinativos, insatisfeitos crônicos, com a Lua em um mercúrio retrógrado com alguma constância. Se o mercúrio estiver retrógrado para eles, pode ter certeza, darão à mínima para o mercúrio. Pensei em fazer o mapa astrológico deles, mas seria perda de tempo, eles não acreditam nesses exotismos astrológicos.
Por eu não estar de novo escrevendo, e sim digitando, tenho a liberdade de abrir algum site do tipo João Bidu e puxar o mapa astrológico deles, principalmente o dela. Fui em busca do horóscopo deles:
Do site: João Bidu (não podia deixar de ir), isso, pra hoje, dia 07.04
“Trabalho: Manter uma atitude positiva pela manhã aumenta as chances de que os problemas se resolvam de maneira muito mais fácil do que estava esperando. À tarde, porém, será preciso controlar a impulsividade e fazer um esforço extra pra manter o foco.
Bem–estar: Contatos com pessoas de longe ou estudos contam com boas energias pela manhã. Mas isso muda depois do almoço, então evite agir antes de pesar os prós e contras.
Olha o para amanhã. Dia 08.04 (dia do aniversário de mamãe)
“Saúde: Você começa o dia precisando de cuidado extra ao lidar com a saúde. A ansiedade pode crescer, então evite atitudes impulsivas.
Trabalho: A Lua entra em Capricórnio e ressalta seu lado ambicioso e responsável. É um bom momento para ir atrás de uma promoção, mas não baixe a guarda com a concorrência à tarde. Marte e Urano se entendem e avisam que pode cair um pix que não esperava na sua conta!
A fonte é a mesma: João Bidu.
É impossível não pensar no cachorrinho da Mônica. Sei que não é ele quem organiza essa questão de horóscopo.
Minha mãe é aposentada. Já vive aquele momento da vida em que nos ocupamos de apenas nós mesmos, o que para muitos pode ser algo impensado, inimaginável. Ter o direito à inutilidade – escutei essa expressão em um show do Padre Fábio de Melo e achei fantástica – é um direito que todo ser humano precisa explorar ao longo de sua história particular. Em nossa sociedade, que vive a metaforização da engrenagem, a indisponibilidade a ser alguma engrenagem é uma liberdade maravilhosa. Nós, os pobres que precisamos trabalhar, organizar o tempo no entorno de monetização, não saberemos tão cedo o que é isso. Eu, que sou pai, de três, que muito de mim precisam, não posso ter a menor liberdade de ser cosplay de inútil. Além de eles também não deixarem eu ficar assim, totalmente inerte e vivo porque respiração é involuntária.
Quem disse essa expressão, “Vivo porque respiração é involuntária”, foi o Wagner, amigo meu da época de ensino médio. Estávamos na casa do Chico, na Ilha. Ele tinha um cachorro, um pastor alemão encorpado, que ficava deitado como um tapete de sala. Esse era seu maior talento: ser tapete de sala. Radar era seu nome. Peguei essa expressão para mim. Ficar vivo porque respiração é involuntária. É o máximo da liberdade, do ostracismo, do ócio em seu esplendor.
Minha mãe não consegue chegar a nenhum desses estágios particulares da inanição. Eu, que já sonho com a aposentadoria – até para poder escrever mais – penso no todo que não faria se estivesse aposentado. Meu pai, também um aposentado, vai pelo mesmo caminho, o de sempre encontrar uma sarna para se coçar. Hoje os dois apresentam os síbilos pouco sutis da idade em que estão. Eternizam-se em suas particularidades senílicas. Sentem o toque de algum vento exótico. Apresentam vontades, em que o corpo, como cárcere, os inunda de suspeita de inconquista. Mal sabem que o troféu já está ali. Do tempo. Do todo. Da singularidade do poder. Eles vivem, estão vivos, esse é o grande presente da vida.
Sobre ela, é importante sedimentar: por datar-se de vinda em 1956, chega aos 70 nesse 2026. Vivíssima.
Feliz aniversário, mãe.
Espero que goste.
Márcio. 7/4/2026
MÁRCIO CALIXTO
Professor e Escritor

Márcio Calixto | Foto: Divulgação

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