
com César Manzolillo

O ÚLTIMO PÔR DO SOL
Pedro tinha 6 anos e carregava desde sempre um enfado que não pertencia à infância. A partir do primeiro choro, que mais pareceu um lamento do que um anúncio de vida, o menino passou a habitar um mundo tingido de cinza. Ele nunca correu atrás de pipa nem riscou o chão de giz. Seu passatempo predileto era observar o movimento das sombras na parede do quarto, sentindo o peso da existência, algo que não sabia explicar. Sua alma era um barco pequeno demais para o oceano de melancolia que o cercava.
Certa tarde, o Sol entrou decidido pela janela desenhando poeira dourada no ar. Pedro, embaixo da coberta que cheirava a alfazema e silêncio, sentiu uma leveza inédita. O aperto no peito se desfez como fumaça. Pela primeira vez, fechou os olhos sem que o fardo da angústia o acompanhasse. Soltou um suspiro longo e calmo e se permitiu desatar o último nó que o prendia ao chão. Deslizou então para outra dimensão, silencioso e sutil como o cair de uma pétala de rosa no inverno, enquanto lá fora o Sol se punha pela última vez.
CÉSAR MANZOLILLO

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