Com Ana Gosling

Foto: Florian Klauer, em Unsplash
UM ESCRITOR NÃO VAI MORRER ASSIM
Sou pessoa comum. Uma ou outra característica me diferencia mas nada me faz única. Menina, brincava de bonecas e… carregava livros. Mas não fui a única a gostar de livros. Adolescente, desejava romance e… associava independência financeira a uma liberdade que não tinha. Mas não fui a única a fazer escolhas racionais para o futuro.
Ser jovem e fã do Roberto Carlos na época do “rock Brasil”, aprender coreografias de Michael Jackson, torcer pelo América, gostar de pão colegial com presunto, amar programação trash na tevê são idiossincrasias minhas mas não exclusivas.
Diferencial, só a escrita. Há outros escrevendo por aí, há quem escreva melhor ou pior. Mas não há quem escreva o que eu escreveria do jeito que escrevo.
A escrita é meu superpoder, embora disfarçada de saber ou fragilidade. Nomeia sentimentos que não encontram rótulo. Me obriga a desenhar beleza com o pé na desesperança. Cria versões mais bonitas do que me machucou, bordando palavras.
No mundo que dispara, velozmente, em direção ao futuro, o presente é uma piscada, o passado fica antigo ainda se recente. Minha escrita, artesanal: pede lapidação, reflexão para arbitrar a ordem das palavras, achar finais. Precisa de tempo de maturação. E tempo é argumento extinto no mundo automatizado. É dinheiro, demora, distração para quem menospreza os detalhes, ama algoritmos exigidos em volume de produção ou inteligências artificiais atropelando horas, profissões, realidades.
Insisto minha humanidade contra o texto da IA, produzido segundos após a encomenda: pego palavra melhor, jeito mais acessível, corto excessos, questiono afirmações. Às vezes, jogo tudo fora por me dar menos trabalho ser eu do que ensiná-la a sê-lo.
Ela processa modelos. Me ajuda no trabalho burocrático mas lhe escondo a produção literária. Não a quero íntima assim. Temo minhas metáforas se diluírem em textos que não me pertencerão. Ela escreverá quase como qualquer um de nós, depois de guardar nossos relatos e tentar imitar nossa escrita. Escolho processar músicas: “quase é mais um detalhe”.
Memórias e associações são únicas. Referências culturais também. O conjunto que compõe nossa individualidade é singular: o ambiente em que se cresce, as experiências, leituras, filmes assistidos, se a chuva é incômodo ou prazer, se a pele é morena ou branca, se pratica esporte ou religião, se o toque foi amoroso ou violento. Nenhum indivíduo é idêntico, apesar de pontos em comum. Ninguém percebe o mundo da mesma maneira.
Ser de carne e osso é um diferencial: inflige alma mesmo para quem não crê no espiritual. E minha humanidade há de me fazer transcender. Minhas imperfeições, associações próprias, memórias reais – diferentes até para quem as viveu comigo – meus sentimentos. A I.A. poderá emulá-los. Mas só eu poderei ser, dizer e escrever em meu nome.


com Chris Herrmann
com Márcio Calixto
com César Manzolillo
com Rose Araújo
Coluna de Thereza Christina Rocque da Motta


















Belo texto, como sempre. Essa história sobre IA ainda vai dar muitos textos, porém, bonitos como esse, acho difícil. Parabéns!