

Mulher em Fuga por Leonardo Bonato
MULHER EM FUGA
Entre o texto e a língua existe um espaço enorme a ser trabalhado. Não basta movimentar palavras; é preciso expressão, coração e um apreço legítimo por fazer teatro.
Saí do teatro profundamente impressionada com a beleza cênica concebida pelo idealizador e artista Tiago Martelli. Há nele um teatro muito bem estruturado, robusto e ao mesmo tempo respirado, daqueles que permitem ao espectador mergulhar na narrativa.
Ao lado da parceira de cena Malu Galli, ambos conquistam o público. De repente, o espetáculo termina, e essa sensação abrupta é quase sempre um bom sinal: era bom, muito bom.
A iluminação é precisa e delicada. Figurino e cenografia não se impõem de forma ostensiva, mas cumprem com inteligência seu papel, permitindo que a força dos intérpretes se destaque. No centro da dramaturgia, a adaptação de Pedro Kosovski amplia a complexa relação entre mãe e filho, revelando traumas, frustrações e afetos mal resolvidos. Devemos ao artista uma salva de palmas pela concepção certa de um texto alheio.
“A dramaturgia planifica as tramas sobrepostas de duas obras literárias de Édouard Louis, cujo protagonismo está na relação ‘impossível’ que enlaça e desenlaça mãe e filho. Busquei a ação emocional da escrita autobiográfica de Louis, uma ação que rompe decisivamente com o estado de anestesia que muitas vezes marca existências em nossa sociedade. Entre dívidas e reivindicações, algo do impossível desse encontro entre mãe e filho pronuncia imperativamente um chamado emocional: é urgente que se façam sentir as existências neste mundo, apesar desse mundo.” – Pedro Kosovski
A narrativa acompanha uma mulher em fuga, sustentada pelo amparo de um filho que, apesar de ter sido tratado com dureza pela mãe, amadurece ao longo do tempo e aprende a acolhê-la, superando a fragilidade muitas vezes presente nas relações humanas.
“Nunca é bom para os filhos que os pais se mantenham em uma relaçao toxica” (Amores que nos fazem Mal – Patricia Delahaie).
A direção musical também se destaca pela excelência. Da sonoplastia à música-tema do espetáculo, tudo revela um refinamento raro. A escolha da canção Wind of Change, da banda Scorpions, encaixa-se com precisão dramática. Nas cenas em que a música surge, o efeito é arrebatador.
Confesso que ainda estou em êxtase ao lembrar de um dos momentos mais marcantes do espetáculo: os dois artistas em cena discutindo enquanto o hino do rock ecoa pelo teatro, em um som limpo, quase translúcido, como um rio mágico atravessando o palco. Foi uma cena visceral, daquelas que nos fazem duvidar do que estamos vendo, tamanha sua força.
Outro elemento expressivo são os assovios utilizados em determinadas passagens. Pequenos gestos sonoros que arrepiam a pele, mesmo que seja pele de jacaré, e que revelam uma conexão poderosa entre texto e música.
A história de mulheres como Monique se repete com frequência dolorosa na vida real. A dependência emocional e as dificuldades de romper relações abusivas fazem com que muitas mulheres permaneçam presas em ciclos de sofrimento. Como diz a personagem de “Mulher em Fuga”, o primeiro passo para sair dessa situação é o mais difícil. Criam-se desculpas, justificativas e medos para voltar ao lugar de onde se deveria partir.
“A Busca de Autonomia não significa incapacidade de permanecer em uma relação a dois, mas sim, a recusar de pagar qualquer preço por ela” (Novas Formas de Amar – Regina Navarro)
Talvez por isso ecoe tanto o pensamento de Frida Kahlo, que nos lembra da importância de partir quando não somos amadas.
Todos os dias milhares de mulheres pagam um preço alto, muitas vezes aprisionadas em situações que também exigem um processo interno de reconhecimento e libertação. O conhecimento, a autonomia e a possibilidade de construir uma profissão ainda são ferramentas fundamentais para que muitas consigam, de fato, recomeçar.
Uma das coisas que afirmo é que o amor também não é permanente, como diz Martha Medeiros no livro “Liberdade Crônica”, isso é uma ilusão das grandes, nem o nosso amor próprio resiste tanto tempo sem umas reavaliações! Caramba! precisamos muito acordar!
A peça é real, necessária e urgente. Se eu tivesse uma filha de 14 anos, certamente a levaria ao teatro para assistir a este espetáculo. E, ao final, diria a ela: pense sobre isso, porque essa história não é ficção — ela continua acontecendo todos os dias.
Inclusive o livro “Mulheres que Inspiram” da psicóloga Anita de Souza Coutinho, conta dezenas de histórias como essa, todas reais, livro lançado em 2023. Digo que há como se libertar, mas é preciso querer.
A história é verídica, é a vida da mãe de um autor famoso e que parece infelizmente enlaçada a histórias que se repetem. Precisamos mudar isso, e o teatro tem essa força de rever conceitos.
Minhas palavras finais seguem para o ator e idealizador Tiago Martelli, que parece buscar com intensidade e alma o sucesso de sua criação. E acerta ao escolher Malu Galli como parceira de cena. Ela não exagera, não ultrapassa o limite da personagem. Pelo contrário: constrói uma presença genuína, por vezes insolente, atrapalhada, errante. Exatamente tudo o que a personagem precisa ser para sustentar a narrativa.
A abordagem da homossexualidade também surge com naturalidade e sensibilidade, refletindo situações que muitas famílias enfrentam ao lidar com a orientação sexual de filhos e filhas. O espetáculo toca ainda nas disfunções familiares provocadas por relações que perderam o respeito e o diálogo.
Trata-se de uma obra que merece reconhecimento por apresentar uma dramaturgia de alto nível, sólida como uma coluna dorsal bem estruturada, sustentada por artistas que fazem do teatro um espaço de catarse e transformação.
Porque, no fim das contas, uma simples apresentação teatral pode, sim, salvar uma vida.
Viva o teatro e seus fazedores responsáveis!
A diretora Ines Viana conduz o espetáculo com a precisão de uma gueparda. Sua direção revela velocidade, força, foco e determinação: qualidades de quem sabe exatamente onde quer chegar.
Como o animal que simboliza agilidade e potência, Ines demonstra a capacidade de alcançar seus objetivos com precisão, mas também revela algo ainda mais raro na direção teatral: o domínio do tempo. Sabe quando avançar, quando acelerar a cena e, sobretudo, quando permitir que ela respire.
A gueparda é um corredor de explosão, não de resistência. E talvez seja justamente aí que reside a beleza de sua condução: intensidade no momento certo, pausa quando necessário.
Há, em sua direção, uma conexão intuitiva com a natureza viva do teatro. Essa arte que exige instinto, escuta e coragem para atravessar desafios.
Diante disso, pouco mais há a acrescentar.
Nada mais a declarar.
Sinopse
A narrativa da peça acompanha Monique, a mãe do autor, em diferentes momentos de sua vida: gesto literário ao mesmo tempo, íntimo e político, que expõe as engrenagens sociais que silenciam e subjugam mulheres da classe trabalhadora. Entre a luta e a libertação, o que vemos é uma mulher que insiste em recomeçar. E, nesse gesto, Monique se torna também o retrato de tantas mulheres brasileiras que, contra todas as adversidades, assumem a chefia de suas famílias e reinventam suas vidas. Édouard Louis participa da encenação “Mulher em Fuga” por meio de voz off, na cena em que ele e sua mãe conversam ao telefone.
Ficha técnica
- Autor: Édouard Louis
- Dramaturgia: Pedro Kosovski
- Direção artística: Inez Viana
- Elenco: Malu Galli e Tiago Martelli
- Assistência de direção: Lux Nègre
- Cenografia: Dina Salem Levy
- Cenógrafa assistente: Alice Cruz
- Desenho de luz: Aline Santini
- Trilha sonora: Felipe Storino
- Figurino: Ticiana Passos
- Orientação de movimento: Denise Stutz
- Assessoria de imprensa: Ney Motta
- Fotografia: João Pacca
- Designer: Opacca e Fernando Vilarim
- Operador de luz: Paulo Maeda
- Operador de som: Cauê Andreassa
- Direção de produção: Gabriela Morato | Associação Sol.te
- Coordenação geral de produção: Cícero de Andrade | Mosaico Produções
- Produção: Dani Simonassi, Tiago Martelli, Matheus Ribeiro, Thais Cairo
- Idealização: Tiago Martelli
Serviço
Mulher em fuga
- Temporada: 5 de março até 5 de abril. Quintas e sextas, às 19h, sábados e domingos às 17h.
- Local: Teatro Firjan SESI Centro – Av. Graça Aranha, 1 – Centro, Rio de Janeiro (Próximo ao Metrô Cinelândia)
- Ingressos: R$ 40,00 (inteira)
- Classificação: 14 anos
- Duração: 80 minutos



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.









