Às Quartas – Absurdos

Com Ana Gosling

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ABSURDOS

 

No Grajaú, um clube tradicional foi destombado para permitir-se a construção de um condomínio moderno, no estilo “resort”. Preocupa o aumento do volume de esgoto e trânsito na região, por uma área de lazer tornar-se um condomínio com quase 400 apartamentos. Mas o que moveu a comunidade foi a derrubada de 55 árvores no terreno.

A perda da biodiversidade local, os efeitos climáticos, a beleza, a identidade do bairro e, acima de tudo, a vida das árvores e dos seres vivos que abriga ocuparam o centro do debate. A arborização é marcante da região e os moradores têm apego a essa característica. Organizaram-se ato e abaixo-assinado. Foi tímida a veiculação na grande imprensa. Na manifestação, chovia e tudo parecia ainda mais triste. A empresa prometeu, em substituição, o plantio de 1.960 mudas no espaço de 90 dias.

Morreram 55 árvores. Novas surgirão, prometidas, e crescerão, tornando-se casa para a fauna de outra geração. Torcemos para a atual, despejada, encontrar refúgio. O contrassenso se expõe no anúncio de venda dos imóveis. Após derrubar 55 árvores, a empresa as usa como chamariz para morar-se aqui: “venha viver num dos bairros mais arborizados”. A vida é assim. Eu não me acostumo.

No Flamengo, situação parecida: 71 árvores derrubadas, com protestos e maior alcance midiático. Por ora, obras paralisadas, aguardando-se laudos que confirmem o compromisso da construtora com as compensações ambientais e históricas.

Por lá, no último domingo, ocorreu uma passeata (do Aterro a Copacabana), em reação à brutalidade cometida contra o cão Orelha. Comovente. Cartazes de cartolina, famílias inteiras, gritos de protesto contra leis permissivas e inócuas que não punem nem um crime tão perverso como o praticado. Misturada à gente, apesar da sensação de fim dos tempos no peito, enchi-me de esperança.

Não falta ao mundo coisas fora do lugar, reverberando injustiças: governantes, políticas públicas, leis, omissão da sociedade. Não damos conta de todas as vítimas sociais e insistimos nas lutas.

A reação ao caso Orelha passa pelas mesmas questões humanas e éticas de vítimas dos variados grupos sociais (crianças, mulheres, índios, negros etc). Mas a inexistência de uma maior consciência da necessidade de apoiarmos o trâmite do debate e das leis voltadas aos crimes praticados contra animais levou as pessoas à rua. Mesmo se ineficaz a justiça, contra humanos, é mais fácil chegar à conclusão de que crimes hediondos são hediondos. Contra os animais, não. O caso Orelha expôs essa questão de maneira enfática.

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Não é sobre o cão; é a partir do que lhe aconteceu. Sobre respeito aos seres vivos de todo tipo, contra a dessensibilização social, para mudar o olhar das gerações que nos sucederão. Sobre ensinar e cuidar de nossos filhos. Por amor e preocupação com o adoecimento social e por proteção: punição justa, pedagógica e o despertar da sociedade para todas as fragilidades.

Talvez o mundo não esteja mais absurdo, embora pareça. Afinal, animais sofrem maus tratos e árvores são derrubadas há tempos. Mas, agora, o absurdo protagoniza a cena, convoca o debate não podemos ignorar a chance. Lembro-me de Thiago de Mello, em “Já Faz Tempo que Escolhi”:

 

“(…) entre ver e fazer

de conta que nada vi

ou dizer da dor que vejo

para ajudá-la a ter fim,

já faz tempo que escolhi”

 

Foram as árvores do Parque do Flamengo que me acomodaram quando o sol tornou pesada a caminhada. As árvores, sempre abrigo. Recuperada, segui, pedindo justiça. Evoluirmos numa consciência ética e humana protege e cria vínculos de respeito não só com árvores e cães. Muda a vida para todos nós, para nossos filhos. Muda o mundo, a nossa casa, para melhor.

 

ANA GOSLING

@analugosling

 

 

 

 

 

Confira as colunas do Projeto AC Verso & Prosa:


com Ana Gosling

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Coluna de Chris Herrmann (@_chrisherrmann):

 

Author

Ana Lúcia Gosling se formou em Letras (Português-Literatura) em 1993, pela PUC/RJ. Fixou-se em outra carreira. A identidade literária, contudo, está cravada no coração e o olhar interpretativo, esgarçado pra sempre. Ama oficinas e experimenta aquelas em que o debate lhe acresça não só à escrita mas à alma. Some-se a isso sua necessidade de falar, sangrar e escorrer pelos textos que lê e escreve e isso nos traz aqui. Escreve ficção em seu blog pessoal (anagosling.com) desde março de 2010 e partilha impressões pessoais num blog na Obvious Magazine (http://obviousmag.org/puro_achismo) desde junho de 2015. Seu texto “Não estamos preparados para sermos pais dos nossos pais” já foi lido por mais de 415 mil pessoas e continua a ser compartilhado nas redes sociais. Aqui o foco é falar de Literatura mas sabe-se que os processos de escrita, as poesias e os contos não são coisa de livro mas na vida em si. Vamos falando de “tudo” que aguçar o olhar, então? Toda quarta-feira, no ArteCult, há crônica nova da autora, que integra o projeto AC VERSO & PROSA junto de Tanussi Cardoso (poemas) e César Manzolillo (contos). Redes Sociais: Instagram: @analugosling Facebook: https://www.facebook.com/analugosling/ Twitter: https://twitter.com/gosling_ana

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