Com Ana Gosling

Foto: Gerada por IA/Gemini
Cinquenta e cinco anos, fiz, no último domingo. Uma idade engraçada, no meio da década entre os cinquenta e os sessenta quando, socialmente, serei considerada idosa. Mas algum dia o serei mesmo?
É inevitável, sei. Por outro lado, é difícil acreditar… algo acontece enquanto o corpo envelhece: a alma permanece jovem. Clichê? Pura verdade.
Ainda sinto saudades de colo de mãe. Ainda considero possível encontrar um amor de verdade, embora sabendo o amor romântico ser insustentável. Ainda quero dançar, mesmo o pé não atendendo à velocidade da mente. Tenho curiosidade e alegrias, ruborizo em algumas situações, sinto frio na barriga diante do desafio, coisas que a maturidade deveria ter arrumado em prateleiras mais cômodas.
Ainda faltam uns anos mas assusta-me, um pouco, beirar o rótulo da velhice quando em mim há riso de adolescência, grupo de escola, fim de semana com jogos, beijo sonhado, bloco de Carnaval. O tempo se congelou no espaço da alegria. Se o corpo sinaliza sua passagem, a alma a ignora, inaugurando um paralelo, outro tempo e lugar para todas em mim brincarem, sonharem, seguirem vivendo.
Numa lógica inversa, sou mais jovem hoje do que era aos vinte e poucos, focada nas responsabilidades, nos objetivos, na necessidade de conquistar minha independência, numa moral mais presa ao rigor da criação. Sou mais livre e mais interessante e risonha do que antes fui. Cubro com “glow” as cicatrizes; ficam à mostra mas brilham à luz do sol. Sou forte diante dos obstáculos: aprendi tudo passar; não perco o sono se há solução. Ofereço leveza por bastar-me os recursos próprios.
Aceito o corpo imperfeito. Aceito a falha como parte da jornada de tantas vitórias. Aceito a solidão como jeito de viver, tirando dela as vantagens oferecidas. Aceito o silêncio que me conduz ao equilíbrio, à paz interior. Que se alinha à travessura dos pássaros nas manhãs e às preces que harmonizam o meu desejo e o desejo de Deus. Se mais gente vier, se a porta abrir-se para entrar, terá valido rearrumar a casa. Nela, mesmo vazia, há música, sonho, livro, dança, alegria e harmonia.
Em que pesem os anos somados à casca e os efeitos sobre a elasticidade da pele e do corpo, não me imagino envelhecendo. A mente é flexível. O coração vive cheio de espera pelo que virá. Projetos iniciados, sentimentos investidos, planos adiados para um melhor momento. Se, às vezes, estranho, no espelho, o rosto cansado que me olha pela manhã, é porque minha alma brinca e lhe faz caretas, por não se ver ali.
Enquanto ela existir em mim, seremos jovens, eu e ela, em cada amanhecer.


Confira as colunas do Projeto AC Verso & Prosa:
com César Manzolillo














Ana, minha queirdissima amiga, também me sinto jovem com um certo frescor da juventude! Olho para trás e ainda sinto o cheiro das árvores no entorno dos blocos da eng. na UFRJ/Ilha do Fundão, assim como, das árvores próximas ao Cardeal Leme/PUC. Que doce lembrança! Vamos vivendo e esperando os desígnios de Deus para o futuro. Bj no coração ❤️
Nossa juventude fica em nós… por isso, seguimos jovens mesmo que os anos digam o contrário. rs Beijo, amiga.
Que texto belíssimo, verdadeiro, comovente! Vc escreve muito, menina! Viva sua juventude interior, eterna! Obrigado por essa beleza de crônica, que eu entendo tão bem, já que vou chegando à juventude dos meus 80! Viva à vida! Bjs
Viva!
Obrigada por essa devolutiva! Aqueceu meu coração!
Beijos, querido.
Ana, minha xará desconhecida, obrigada pelo lindo texto. Encontrei por acaso e encheu de sentido minha quarta feira solitária. Solidão é quando nos damos conta, quando nos incomodamos com ela. Nos meus 37, eu me sinto agora acompanhada, porque compartilho muitas dessas suas percepções, estranhando o passar do tempo. Um abraço!
Querida Ana, muito obrigada pela leitura e por esse retorno. Fico feliz de meu texto ter chegado até você. Um beijo!
Que texto lindo Ana…
De fato, sinto as marcas e o cansaço de um corpo ,que teve ○ seu limite físico sempre testado pelos esportes/tempo durante esses 45 anos de vida. Dor aqui, dor ali, as famosas “tendinites”, o fios brancos, as rugas… (obs: amo meus fios brancos e não as rugas! rs)
Mas a alma é de um garoto,que tenta ignorar cotidianamente tais “marcas”…
Obrigado por me fazer voltar ao tempo…. Um bj
Obrigada pela devolutiva carinhosa, André! É isso: somos “garotos” para sempre. Esse sentimento não nos abandona, né? Beijos, querido.