Com Ana Lúcia Gosling

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Um raio cor de rosa invadiu o quarto no fim da tarde. O dia, cinza.
Os uivos do vento sugeriram ser perigosa a rua descampada. A tremedeira dos vidros lembrou-lhe da ameaça. As folhas passadas pelas frestas da janela, que a vida estava uma bagunça. Sentiu-se isolada, como desde a pandemia não mais se sentira. Além da solidão: isolamento. Mas, de repente, ficou rosa a sua vida.
À janela, o céu se vestiu de cores raras. Cobriu de rosa as paredes brancas dos prédios, o piso claro da sala, refletiu-se nos espelhos da casa. À noite, haveria estrelas, precisava havê-las, pensaria em cobrá-las.
Os vasos virados na varanda, a tampa de uma lixeira de outro apartamento no canto, as flores arrancadas da trepadeira jogadas pelo chão. O vento, em sua passagem, não querendo seguir discreto. Como enfrentá-lo, invisível, contra a tela escura da noite?
Para onde se vai quando o vento é ameaça? A quem se chama se as horas, de tão longas, não passam? Como manter os pés no chão se o apelo é pra asas?
As brisas mornas, nostálgicas, acolhimentos, viradas em movimento destruidor, assassino. As brisas, conforto para quem espera, sendo lembrança da destruição e do medo. Que olhos se fecham quando pedem passagem, se a mente pede atenção? Atenção ao alto, ao lado, à frente, de onde, num piscar, pode vir inesperado ataque. Atenção à caminhada que pode virar empurrão a precipícios não imaginados, de tráfego a abismos naturais, de afastamentos a separações.
Cerrou os vidros. Fechou os trincos pro vento não arrastar, pelos trilhos, janelas que queria fechadas. Ligou a tevê pra sufocar sua voz. Quis rezar, escreveu um poema.
Sei, o ciclone passou ou passará
o céu anuncia mistérios
a vida pede cautela.
Estou só e sei:
É tempo de esperar.
O programa se adiou
Sobraram mais horas pra fazer o que a falta de tempo sempre adia.
Escrever, trabalhar, estudar,
Tudo atrasado na correria.
Queria estar alegre mas ando triste.
Mas, às 18h, o céu é cor de rosa.
O quarto é cor de rosa.
Meu edredon cinza vira cristal: um facho passa partido em cores.
Quem pensa em perigo quando há, na cama, um arco-íris?
A noite se aquietaria nas altas horas. O silêncio chegaria com a madrugada. Pela manhã, arrumaria os vasos, varreria as flores, as folhas. A casa, a rua, o mundo voltariam a ser ambientes conhecidos. Reconhecíveis.
Mas, lá dentro, espalhara-se toda: pensamentos, planos, memórias. A quem se pede ajuda pra arrumar um lugar, em si, que o vento levou pra longe?
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