AVENTURA GASTRONÔMICA: visitando restaurantes centenários (e icônicos) do RIO DE JANEIRO

Restaurantes centenários e icônicos do Rio de Janeiro

 

De repente, me deu vontade de embarcar em uma jornada pelos sabores centenários da cidade do Rio de Janeiro e contar um pouquinho dessa aventura aqui no ARTECULT.

É certo que esses lugares não são apenas restaurantes ou bares, mas testemunhos vivos de memórias familiares e histórias pessoais e, com certeza, todos nós, que moramos na cidade maravilhosa, passamos, em algum momento de nossa vida, por eles. E não nos damos conta de que, cada um desses estabelecimentos, carrega uma longa e rica tradição, que atravessa gerações… Passamos por eles, sem nos apercebermos da sua arquitetura, dos detalhes da sua decoração, da riqueza do seu cardápio e de que pratos criados ali  ganharam o mundo!

Esse é o primeiro capítulo dessa saga. Sei que ainda existem muitos outros desses “heróis da resistência”, que se misturam com a história da cidade, acompanhando suas transformações sem perder o caráter tradicional e que, contra tudo e todos, mantém uma clientela fiel. Continuarei essa caminhada, em breve. Por enquanto, vamos aos primeiros centenários

Começamos nossa aventura pela LEITERIA MINEIRA (@leiteria_mineira), que teve origem por volta de 1909, quando produtores de leite da Fazenda Sossego, em Minas Gerais, decidiram criar um ponto de venda para escoar o excedente de sua produção. Inicialmente localizada na Galeria Cruzeiro, no centro do Rio de Janeiro, a loja foi posteriormente transferida para a Rua São José e, desde a década de 1970, funciona na Rua da Ajuda. Em 2014, foi reconhecida como patrimônio cultural do Rio de Janeiro. Atualmente, é a única leiteria ainda em atividade na cidade, mantendo viva a tradição de pratos como mingau e coalhada, sendo um estabelecimento histórico relevante no centro carioca. O mais antigo registro de funcionário data de 1916.

O ambiente da LEITERIA MINEIRA conserva a atmosfera de um tempo em que os cariocas circulavam de paletó, chapéu e gravata pelas ruas da cidade. O interior do local, com sua madeira escura e lustres antigos, remete aos tempos retratados nas fotos em preto e branco que enfeitam as paredes.

Entre os destaques do cardápio estão a dobradinha das quartas-feiras – que foi a minha escolha! –  e a rabada das sextas. Além da comida, o atendimento cordial é uma das marcas registradas do estabelecimento.

A CASA URICH (@casaurich) é um tradicional restaurante da cidade do Rio de Janeiro, fundado em 1913 pelo imigrante alemão Edmund Urich. Tornou-se uma referência na culinária alemã e representa um verdadeiro marco histórico da cidade.

Ao longo dos anos, o restaurante passou por diversas gestões e mudou de endereço — inicialmente na Rua Sete de Setembro, foi transferido para a Rua São José em 1950. Atualmente, está sob o comando dos irmãos Orlando e Marisa Oreiro. O ambiente mantém seu charme original, com azulejos antigos e garçons vestidos com trajes tradicionais, servindo pratos típicos como o Kassler e o Apfelstrudel. Em 2015, o restaurante foi tombado como Patrimônio Cultural Carioca.

Internamente, a casa preserva o mesmo estilo adotado desde a reforma de 1950, assinada pelo arquiteto Francisco Riviera. Embora tenha passado por algumas melhorias ao longo do tempo, mantém sua essência, com quadros, móveis e os mesmos azulejos originais de décadas atrás.

O destaque do cardápio é o Kassler defumado, servido com chucrute, salada de batata com aipo e queijo roquefort — uma combinação generosa e de sabores marcantes – e que foi a minha (acertada) opção.

A CONFEITARIA COLOMBO (@confeitariacolombo) foi inaugurada em 17 de setembro de 1894, no Rio de Janeiro, pelos imigrantes portugueses Manoel Lebrão e Joaquim Borges de Meirelles. Com o passar dos anos, tornou-se um verdadeiro ícone da Belle Époque carioca — um período marcado por intensa atividade cultural e artística — graças à sua arquitetura no estilo Art Nouveau e seus salões luxuosamente ornamentados.

Frequentada por grandes nomes da história brasileira, como a compositora Chiquinha Gonzaga, os escritores Olavo Bilac e Machado de Assis, o jurista Rui Barbosa e políticos como Getúlio Vargas, Washington Luís e Juscelino Kubitschek, a Colombo consolidou-se como um símbolo cultural do Rio. Sua preservação arquitetônica e a atmosfera que remete ao passado encantam visitantes até hoje. Em 2023, foi reconhecida internacionalmente ao entrar na lista das 150 confeitarias mais lendárias do mundo, elaborada pelo site TasteAtlas — sendo a única do Brasil a integrar o ranking.

A decoração da confeitaria reflete fielmente o estilo art nouveau, com vitrais trazidos da França, espelhos belgas, cadeiras de palhinha e jacarandá assinadas por Antonio Borsoi (1880–1953), mesas de opalina azul com base de ferro — mais tarde substituídas por tampos de mármore —, tudo contribuindo para um ambiente que ainda hoje exala sofisticação e tradição.

Em 1922, foram adicionados novos elementos marcantes ao espaço, como o salão de chá no segundo andar, decorado no estilo Luís XVI, uma clarabóia francesa e um dos primeiros elevadores instalados na cidade do Rio de Janeiro.

Reconhecida pelo seu valor histórico e cultural, a CONFEITARIA COLOMBO foi tombada como patrimônio material pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural em 9 de fevereiro de 1983, e como patrimônio imaterial pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade em 31 de outubro de 2017.

A ideia inicial seria a de almoçar, sentado no enorme salão sob a belíssima claraboia. Mas o horário não permitiu, pois a fila era quilométrica e eu tinha o tempo contado. Então, aproveitei que o balcão estava mais tranquilo e resolvi lembrar dos tempos em que, ainda criança, minha tia me levava até lá para comer um croquete de camarão. Mas não era um simples salgado de camarão, desses esquecíveis que tem em todo lugar. Tanto é assim que até hoje me lembro dele, com sua textura perfeita, recheado com um camarão inteiro e gigantesco, que deixava apenas o “rabinho” à mostra… Hoje já não é mais a mesma coisa, o camarão diminuiu e já não tem o charme do acabamento  da cauda e o preço foi às alturas. Mas, ainda assim, valeu a visita – e a recordação.

Fundado em 1884, o Restaurante RIO MINHO (@restauranteriominho) é o mais antigo em funcionamento no Rio de Janeiro em um mesmo endereço e símbolo da tradição gastronômica da cidade. Inicialmente frequentado pela elite imperial, teve entre seus clientes ilustres o Barão do Rio Branco, que ajudou a consolidar o local como ponto de encontro da intelectualidade e da política brasileira, e o presidente Getúlio Vargas.

Outro frequentador notável foi Antônio Houaiss, acadêmico e diplomata, que chegou a participar da criação de pratos ao lado dos cozinheiros. A casa também é famosa pelo bolinho de bacalhau, considerado um dos melhores do Brasil. Nas paredes do salão em pé direito altíssimo é possível ver fotos de outros fregueses renomados.

Desde sua fundação, funciona no mesmo casarão na Rua do Ouvidor, nº 10, um lindo sobrado no atual Boulevard Olímpico. Em 2011, foi reconhecido com a Placa de Patrimônio Cultural Carioca e hoje, sob comando do chef Ramon Isaac, da quarta geração da família fundadora, segue sendo um ícone da gastronomia tradicional do Rio.

Em 1960, ganhou um bar anexo, reforçando seu clima boêmio e acolhedor. O cardápio à la carte com pescados e o ambiente com mesas ao ar livre preservam a atmosfera dos antigos restaurantes do centro.

Especializado em frutos do mar, o restaurante é conhecido por ter criado a sopa Leão Veloso, um clássico da culinária carioca e que tem origem no diplomata Pedro Leão Veloso, que a criou por volta de 1910 no Rio de Janeiro, inspirada na bouillabaisse francesa. É claro que esse foi o prato que escolhi…

Saindo, agora , do centro do Rio de Janeiro, vamos finalizar essa primeira parte de nossa viagem no Restaurante CAFÉ LAMAS (@cafelamas), fundado no Rio de Janeiro em 1874 e que é um dos mais tradicionais e renomados da cidade. Inicialmente localizado no Largo do Machado, sempre foi ponto de encontro de intelectuais, artistas, políticos, executivos e estudantes, atraídos tanto pela excelente gastronomia quanto pelo ambiente acolhedor.

 

Com cozinha internacionalmente reconhecida e um cardápio diversificado criado por chefs da casa, o CAFÉ LAMAS se tornou referência em publicações turísticas estrangeiras. Muitos clientes fiéis o consideram uma segunda casa, graças ao atendimento próximo e familiar.

Desde 1974, está localizado na Rua Marquês de Abrantes, após a mudança forçada pelas obras do metrô. Mesmo após décadas, mantém sua reputação como um dos grandes nomes da gastronomia brasileira, sustentado por tradição, qualidade e dedicação ao cliente.

Eu pedi um dos pratos de maior saída – e, talvez, o mais famoso – um filé a Oswaldo Aranha, que é formado por uma união equilibrada entre um generoso – e alto –  bife de filé-mignon, coberto com alho dourado e crocante, acompanhado de farofa feita com farinha de mandioca, arroz e batatas portuguesas. O prato recebeu seu nome em tributo ao diplomata brasileiro Oswaldo Euclydes de Souza Aranha, que foi ministro durante o governo de Getúlio Vargas na década de 1930. Ele frequentemente almoçava no Restaurante Cosmopolita, apelidado de “Senadinho”, situado na Lapa, no Rio de Janeiro, um local bastante frequentado por políticos naquela época. Além disso, Oswaldo Aranha também costumava pedir essa mesma preparação no Café Lamas, que logo passou a incluir o prato em seu menu. Por conta disso, os dois restaurantes disputam a criação da iguaria.

E, aqui, encerramos essa primeira etapa de nossa (deliciosa) viagem. O assunto não se esgotou, pois ainda temos muitos outros lugares centenários espalhados por essa Cidade Maravilhosa, verdadeiras testemunhas de mais de um século da boemia carioca. Outro ícones como a Casa Cavé (1860), Casa Paladino (1906), Armazém Senado (1907), Aurora (1898), Armazém São Thiago (1919) dentre outros são patrimônios culturais do Rio de Janeiro que merecem ser visitados – e nós faremos isso juntos.

Portanto, meus amigos, apertem os cintos.

Preparem-se!

Nossa viagem pelo mundo do sabor e da tradição está apenas começando…

 

DEL SCHIMMELPFENG

@del.schimmelpfeng

 

 

 

 

 

Author

Del Schimmelpfeng é Analista Judiciário do TJERJ, mas desde que se lembra - e coloca tempo nisso! - ama cozinhar! Apesar de ter feito as faculdades de arquitetura e direito, é se misturando aos pratos, panelas e temperos que se sente inteiro, completo, pleno. É autodidata, nunca fez curso de culinária, tampouco se imaginou um profissional da área. Considera-se apenas um curioso, que procura o conhecimento em tudo e que tenta, de todo jeito, viver da melhor forma possível - apesar de todas as dificuldades. Afinal, não haveria graça se elas não existissem... Participou da seletiva da segunda edição do Masterchef e da décima nona edição do reality "Jogo de Panelas", apresentado por Ana Maria Braga no programa "Mais Você" da Rede Globo, na qual sagrou-se campeão. Possui, ainda, textos publicados em livros de conto e poesia. Blog: http://delschimmelpfeng.blogspot.com Instagram: @del.schimmelpfeng

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