UNION: Aguardado livro do escritor Marcelo Mourão será lançado nessa quarta-feira na Cofeebreak Cafeteria. Confira nossa entrevista exclusiva com o autor.

Após 9 anos de “gestação”, nessa próxima quarta-feira, dia 15/10, será lançado na Coffeebreak Cafeteria no Rio de Janeiro o novo livro de Marcelo Mourão: UNION (Ventura Editora, 2025).

Trata-se de um livro que trabalha com multilinguagens. Como assim? Ele é essencialmente um livro de poesia. Porém, em seu interior, costurando estes poemas uns aos outros está uma narrativa em prosa que é também ficção científica inspirada tanto pela literatura clássica (em livros como “Admirável Mundo Novo”, de Aldoux Huxley, “1984”, de Goerge Orwell, “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, “Laranja Mecânica”, de Anthony Burgess e tantos outros) quanto pelo cinema pop americano, tão idolatrado pela cultura nerd/geek (em filmes como “Star Wars”, “Star Treck”, “Duna”, “Metrópolis”, etc).

Além da poesia e da prosa, ambas se entrelaçando o tempo todo, temos a linguagem dos quadrinhos invadindo a história, quando a narrativa, lá pelos meados do livro, se dá através de uma autêntica HQ. Já quase ao fim, temos a linguagem dos grafites/grafitismo, em imagens de poemas grafitados em muros. Sobre a poesia, Mourão nos revela:

“Quem escreve estes poemas? Sim, sou eu, Marcelo Mourão. Porém, estes poemas são as vozes de 5 personagens diferentes (Dr. Macrole, Andracxa, Megalósofos, Galateu e um autor anônimo). São cinco as vozes líricas que estão regendo os versos de 70 poemas ao todo que compõem o livro. (O livro se divide em 4 partes)”

Union: Uma distopia poética entre sobrevivência, poder e guerra

Como bem diz Leila Míccolis (Pós-doutora em Teoria Literária na UFRJ, Pós-Graduada em Escrita Criativa, escritora de livros, TV e teatro) que assina a quarta capa da obra, Union é um livro que usa e abusa da Escrita Criativa, dá asas à imaginação febrilmente para imaginar um mundo futuro arrasado por um cataclisma mundial. Quando o dilúvio imaginado pelo livro passa, ele dá lugar a somente 4 países sobreviventes no planeta Terra. Vejamos a própria narrativa do livro:

Capa do livro UNION de Marcelo Mourão. Foto: Divulgação.

Somente em quatro países as águas baixaram e as terras voltaram a ser secas. Ao pé de suas montanhas, o que restou foi um imenso cemitério. Não somente de pessoas, mas também de vegetais, animais e… livros! Esses três últimos deixaram de existir? Não. Os que foram preservados eram, e são, propriedades exclusivas de poderosos magnatas que, em sua maioria, também são os donos das fábricas de oxigênio, de alimentos e de água potável. Devido à destruição da camada de ozônio, à infertilidade dos solos e à poluição hídrica quase irreversível, tornou-se indispensável que estes elementos essenciais à vida sejam produzidos artificialmente.

Anos depois da tragédia, três dos quatro territórios decidiram se unir para formar um só país, agora chamado UNION. A República da Uzuléa se recusou a fazer parte da fusão. A partir daí, não demorou muito a ter início uma guerra terrível, interminável, entre o novo país e o povo uzuleano, tendo como motivação maior a anexação, a todo custo, da Uzuléa.”

Do apocalipse mundial, renascem 4 nações. 3 se unem e uma se recusa a se unir. Temos uma guerra que parece nunca ter fim e perpassa o livro todo. Assim é UNION, guerra, fome, tirania, falta de esperança, medos, pesadelos, em que falta tudo: água, comida e ar. Como sobreviver a um mundo tão hostil? Andracxa, Galateu e Megalósofos vão nos ensinando o que é força, luta e resiliência quando se vive numa terrível distopia viva. Todo esse universo sofrendo com o poderio tirânico do ditador Zarc Gorion e seus correligionários, que querem, entre outras coisas, conquistar à força a República da Uzuléa. Andracxa, Galateu e Megalósofos lideram a resistência contra tamanha tirania.

Novamente, como afirma Leila Míccolis:

“Eis uma obra tão diferente que irá surpreender você: trata-se de um livro de poesia, mas também de prosa, além de uma novela literária. Mais: à literatura tradicional, soma-se um material atualmente considerado da cultura de convergência – sendo uma parte do enredo apresentada em formato de HQ (história em quadrinhos) – inclusive, em Poememes (categoria criada pelo autor, no livro de mesmo nome), já encontramos uma amostra da inserção desta dinâmica incluída na Teoria das Mídias Digitais. (…) É justamente esta a saga de Andracxa, Galateu e Megalósofos que você lerá – passo a passo, surpresa a surpresa –, e que agrega diversas modalidades de Escrita Criativa, dentro, repito, de um único livro de poesia.”

Uma tapeçaria literária: poesia em estado híbrido e narrativa

O próprio autor descreve sua obra:

“Um distopia poética. Uma escrita híbrida. Um livro de difícil classificação. Segundo muitos críticos que já leram a obra, um livro bastante original. Diferente. Que mistura, embaralha linguagens. Poesia, prosa, quadrinhos, grafite. Novela? Conto? Romance? Poesia? No fim das contas é um livro essencialmente, volto a frisar, de poesia! É um livro de poesia!

70 poemas que ajudam a narrar. Uma narrativa que costura poemas uns aos outros. Poesia e prosa num casamento fortíssimo. Porém, é um livro também em que o leitor que não quiser ler a prosa, pode ler apenas os poemas e tudo bem também. Assim como pode ler a prosa e também ficar satisfeito. Um livro cheio de riquezas que fica complicado descrevê-las em tão poucas linhas e páginas…”

Confira nossa entrevista exclusiva com Marcelo Mourão sobre o tão aguardado lançamento:

ArteCult: Professor, pesquisador, poeta, ensaísta, produtor cultural e crítico literário. Alguma dessas facetas predomina na sua trajetória?

Marcelo Mourão: O professor e o poeta são as que predominam. Sou poeta desde os 16 anos e, professor, desde os 19. O ensaísmo e a crítica literária são frutos destas duas facetas. O produtor cultural nasceu tão somente a partir do poeta.

 

AC: Você foi um dos idealizadores e apresentadores do sarau POLEM (entre 2008 e 2011). O que poderia nos falar acerca dessa experiência?

Marcelo Mourão. Foto: Vitor Vogel.

MM: Na realidade, em 2008, quando o POLEM nasceu, nasceu junto com ele a Pelada Poética, idealizada pelo Eduardo Tornaghi. Os dois são irmãos de pais diferentes. Os dois vieram ao mundo juntos, na Pedra do Leme e, depois, engatinharam juntos no Quiosque Estrela de Luz, também na orla do Leme. A Pelada continua acontecendo lá, e o POLEM virou um movimento que mudou de endereços e de formatações. O POLEM sempre teve uma espécie de filosofia-guia bem diversa daquela que a Pelada até hoje apresenta. Daí que, hoje em dia, não digo mais que sou um dos idealizadores do POLEM; há muitos anos que entendi que o único idealizador do POLEM sou eu. Foi uma experiência maravilhosa. Aprendi muito recebendo uma gama muito ampla e variada de poetas e poetisas. O POLEM sempre foi antipanelas e anticlubinhos. Sempre foi um sarau que privilegiou misturar todas as tribos e todas as espécies de artistas. Justamente para evitar a formação de um grupo fechado. Eu aprendi tantas coisas que fica complicado citá-las todas aqui. Foi para mim, de fato, como se diz no senso comum, uma grande escola.

 

AC: Na sua opinião, qual o papel da arte em tempos tão sombrios quanto os atuais?

MM: O principal papel da arte sempre foi o de provocar algum tipo de sensação no receptor do objeto artístico. Ser aceita ou rejeitada é vital para a
arte. O sentimento de indiferença frente a ela é que, creio eu, decreta a sua obsolescência. Costumo dizer que arte que não chove nem faz chover não me interessa. Arte que não me provoca e não me envolve, não me fisga, não me seduz. E, em tempos como estes que estamos vivendo, creio que a reflexão, a indignação e a estupefação estão entre as sensações que são importantes de serem suscitadas no público de arte.

 

AC: Union, seu próximo lançamento literário, é um livro que trabalha com multilinguagens. Poderia nos explicar o que isso quer dizer nesse caso?

Marcelo Mourão. Foto: Vitor Vogel.

MM: Nesta obra específica, senti uma forte necessidade de me expressar com alguns tipos de linguagens que, a princípio, parecem muito díspares para poderem se complementar. Começo o livro com um poema de uma página inteira que simula o início de um poema épico. Logo depois entra uma narrativa novelesca que, mais à frente, vai desaguar em uma História em Quadrinhos que, mais tarde, desemboca em poemas vários para, em seguida, se tornarem poemetos grafitados em paredes, registradas em imagens que parecem autênticas fotografias. Tudo isso inserido em uma poética das cores. O livro se inicia com branco, vai para tons em negro, depois entra o cinza e, mais adiante, fica cinza e azul. O uso das cores, ao longo do livro, é uma linguagem à parte, tem toda uma semiótica no emprego destas cores. Ao longo da obra, palavras, imagens e cores se unem para formarem sentidos múltiplos. Mesmo usando tantas linguagens, insisto em afirmar que é tão somente um livro de poesia.

 

AC: Sei que Union apresenta parte do enredo em formato de HQ. É a primeira vez que você utiliza esse recurso numa obra sua?

MM: Sim, é a primeira vez. Mas penso em aprofundar esse recurso em obras futuras. Adoro desenhar e adoro quadrinhos.

 

AC: Planos para o futuro: o que vem por aí nos próximos meses?

MM: Divulgar bastante este livro e começar a escrever dois outros. Um de crítica literária (meu quarto neste gênero) e um outro de poemas, o sucessor de Union.

 

Confira a resenha de Adriano Espínola sobre UNION:

“Com a manifestação cada vez mais frequente de eventos climáticos extremos  chuvas torrenciais, incêndios florestais, secas, ondas de calor e frio, elevação do nível do mar etc , as artes e a literatura não poderiam deixar de expressar e denunciar a escalada ecocida, uma vez que tais eventos estão vitimando e afetando populações inteiras em várias partes do mundo. A continuar assim, num horizonte não muito distante, estará em jogo a própria existência da humanidade e do planeta, como todos sabem.

Imbuído desse propósito ético e de um não menos empenho artístico, Marcelo Mourão entretece notável fábula distópica neste seu mais recente livro, Union. Nele narra, canta e conta um mundo pós-apocalíptico, decorrente do aquecimento global e da devastação da natureza, dando voz a personagens das quatro nações sobreviventes, bem como relatando os conflitos de poder político e territorial entre elas.

Meio ficção-científica (o narrador é um androide), meio crônica poética de uma tragédia anunciada, a obra tem forte impacto não só pelo cenário que pinta, mas igualmente pela própria fatura estética do relato. E ele o faz de modo admirável, em que a pegada narrativa segue entremeada de poemas escritos por diversos personagens, ao lado de ilustrações/desenhos de um autor-grafiteiro que, pelos muros da cidade, segue denunciando o estrago humanista e ecológico vigente (“quanto mais se alastra/o incêndio na mata/mais caem as máscaras”). Essa mistura bem equilibrada de linguagens assinala sem dúvida a originalidade da obra, conferindo-lhe caráter híbrido, de difícil classificação.

Diria, por fim, que, se a mensagem do conjunto dos textos nos parece assustadora, Marcelo Mourão, no belo poema final (“O fio de Ariadne”), sabe, entretanto, restaurar a esperança de um mundo melhor, ao reafirmar a crença na “vida ainda viva além da janela”.

Adriano Espínola

Poeta, ensaísta, crítico literário e escritor.

 

Confira mais comentários sobre o trabalho de Marcelo Mourão

 

“Marcelo, o seu talento faz muito bem para a humanidade.Marcelo, o seu talento faz muito bem para a humanidade.”
Jane Duboc, cantora, compositora, multi-instrumentista.

 

“Entre os autores que influenciaram a minha escrita, destaco Marcelo Mourão, um cientista da palavra.”
Jorge Cardozo, poeta, jornalista, produtor cultural.

“Gosto de autores que elaboram bem seus projetos, que pensam o livro para além do texto, que estejam sempre se desafiando, arriscando sair do lugar comum, do raso, do clichê. Marcelo Mourão é um deles. Um destes raros artistas neste meio onde transitamos.”
Igor Fagundes, poeta, ensaísta, Doutor em Poética e professor da UFRJ.

“O que torna um escritor (re)conhecido é a sua capacidade de marcar sua obra com características e estilo próprios. E Marcelo Mourão faz isso; traz, em seus textos, a marca de sua obra. ”
Hugo Pontes, poeta, escritor, professor universitário.

“Estudioso e bem informado, com humor e sensibilidade, Marcelo Mourão é um dos melhores poetas desta nova safra, do século XXI.”
Cairo de Assis Trindade, poeta, contista, professor da oficina poética Cairo Trindade.

“Caberia estudo à parte, específico, quanto à estilística, a poética de Marcelo Mourão. Nesta, nada escapa à Arte da palavra. No caso, há muito exercida, e já consagrada, por Marcelo Mourão.”
Ivan Cavalcanti Proença, professor Mestre e Doutor em Literatura e Ensaísta.

“Li seus livros e sorvi, com deleite, a sua literatura, que possui como marcas indeléveis a fértil imaginação e a engenhosidade esmerada. Sua poesia, Mourão, é o puro feitiço de uma poética do inusitado.  ”
Gilberto Mendonça Teles, poeta, crítico literário e professor universitário.

“O poeta da emoção, da ironia, do compromisso social. Você, Mourão, é um dos maiores poetas da atualidade.”
Laura Esteves, poeta, contista e fundadora do Grupo Poesia Simplesmente.

“Marcelo Mourão se manifesta sempre numa dicção radicalmente pessoal, o que é o bastante para abrir-lhe um espaço na nova poesia brasileira.”
Pedro Lyra, poeta, professor e crítico literário.

“Marcelo Mourão é poeta. Um dos melhores que temos atualmente. E todo o mais que tiver que ser dito que o seja pela história da literatura brasileira, que com certeza se lembrará dele.”
Iverson Carneiro, poeta, professor e produtor cultural.

“Não tenho dúvida alguma em afirmar ser Marcelo Mourão um dos mais envolventes poetas da atualidade.”
Tanussi Cardoso, poeta.

“Marcelo Mourão  fala do tempo-presente,  assim, fala do espírito do tempo. A sua poesia tem um alcance universal.”
Ronaldo Ferreira de Almeida Poeta, terapeuta e teólogo.

 

 

Não perca o lançamento do livro UNION nessa quarta-feira, a partir das 18h, na Coffeebreak Cafeteria!
Avenida Henrique Valadares, 17A, Lapa – Rio de Janeiro (RJ)

 

Confira um dos video-teasers de lancamento:

 

 

 

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Author

Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de 32 coletâneas literárias. Autor do livro de contos "A angústia e outros presságios funestos" (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos. Toda quinta-feira, no ArteCult, publica um conto em sua coluna "CONTO DE QUINTA", que integra o projeto "AC VERSO & PROSA" junto com Ana Lúcia Gosling (crônicas) e Tanussi Cardoso (poemas).

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