UM COZINHEIRO e a CIRURGIA BARIÁTRICA: DÚVIDAS, EXPECTATIVAS e a ROTINA DO PRIMEIRO ANO

 

Esse vai ser um artigo diferente. Não vou trazer receitas, nem visitas a restaurantes ou alguma outra experiência gastronômica. Vou trazer uma história pessoal que, indiretamente, pode ajudar pessoas que estejam atravessando o mesmo problema que atravessei e não esteja vendo alternativas. E, de fato, existem caminhos que podem ser trilhados, com segurança. E a cirurgia bariátrica é realmente uma opção de tratamento eficaz não apenas para a perda de peso, na medida em que controla e reverte diversas doenças. Como cirurgia metabólica, cujo aumento no país de procedimentos desse tipo nos últimos anos supera os 85%, ela pode apresentar resultados significativos a curto e longo prazo para o controle da glicemia, pressão arterial e lipídios.

Mas vamos do princípio…

De repente, me vi aprisionado em um corpo que se degradava dia a dia, sem que eu tivesse forças para reverter a queda. Em outros tempos, já havia conseguido vencer a batalha e, por mais de duas vezes, consegui recolocá-lo – a duras penas! – nos eixos. Mas isso foi bem antes, era mais jovem, tinha mais disposição e conseguia lutar contra a OBESIDADE, maldita doença crônica que é a segunda que mais mata no mundo,  perdendo apenas para as doenças associadas ao tabagismo.

Só que, naquele momento, reconheci que havia perdido a guerra. Não conseguiria mais reverter o quadro, por mais esforço que fizesse. E já estava cansado de sofrer bullying de todo mundo – de amigos, familiares… Eu sabia que estava gordo demais, não precisava ser lembrado disso a cada instante. Não me encontrava naquela situação por vontade, por querer estar daquele jeito, por “falta de vergonha na cara”, ou por “preguiça”, ou por “sem-vergonhice”…

Não, definitivamente não era esse o caso.

Assim como o Alcoolismo, a Obesidade, como já salientei, É UMA DOENÇA. E como tal, assim deve ser encarada. Se o seu IMC já chegou no 25, preocupe-se. Se você não sabe o que é e como calcular, fique atento. O IMC é a sigla para Índice de Massa Corpórea, parâmetro adotado pela Organização Mundial de Saúde para calcular o peso ideal de cada pessoa e esse índice é calculado da seguinte maneira: divide-se o peso do paciente pela sua altura elevada ao quadrado. E, com o resultado em mãos, basta consultar a tabela:.

Pois bem. Faltava um pouquinho só pra eu entrar na classe III. Então, era real e palpável o fato de que eu deveria fazer algo (bem) radical – não bastava mais dietas, medicamentos… Atividade física então, nem pensar, eu não conseguia. Tudo era muito, muito difícil e penoso, até mesmo amarrar o cadarço do tênis era uma tarefa hercúlea.

Quantos de nós já não ouviu que todo bom cozinheiro é, ou deveria ser, gordinho?  Este é o estereótipo que nós todos trazemos, quase um senso comum. E eu era – e sou – um cozinheiro… Será que eu só cozinhava bem por estar assim, bastante acima do peso ideal? Ora, é claro que não! Uma coisa não tem qualquer relação com a outra! Então, eu não precisava mais estar naquela situação. Aliás, eu não podia mais estar, sob pena de abreviar minha trajetória por aqui…

Mas, então, o que fazer? Abandonar tudo e deixar o barco correr pelas águas turbulentas até, eventualmente, afundar? Ou deveria, de algum modo, encontrar alguma saída viável? Foi aí que passei a cogitar a hipótese da cirurgia bariátrica. Para isso, contribuiu a situação de ter conhecidos próximos que já haviam operado, com resultados bastante satisfatórios.

Antes que pensem que estou falando sobre algo que só é restrito para pessoas que possuem plano de saúde ou bancam no particular, a cirurgia bariátrica também é realizada pelo SUS, sendo um procedimento gratuito que exige o preenchimento de critérios como IMC acima de 40, ou acima de 35 com comorbidades, e o fracasso em tratamentos clínicos prévios. O processo começa com uma consulta em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) para avaliação e encaminhamento para uma equipe multidisciplinar. Caso seja indicado, o paciente passará por uma bateria de exames e avaliações para, então, entrar na fila de espera para a cirurgia.

Decidi, então, que esse seria o meu caminho.

Houve alguma resistência por parte de familiares mais próximos, que temiam eventuais riscos no procedimento e que gostariam que eu tentasse emagrecer “fechando a boca e praticando atividade física regularmente”. Mas nós sabemos que, depois de um determinado ponto, retroceder é muito difícil – e eu tinha, justamente, ultrapassado esse limite. Não me sentia mais em condições de reverter o quadro, havia me entregado completamente e, por isso, não havia alternativa, caso quisesse ter mais tempo por aqui…

A cirurgia bariátrica é uma intervenção no sistema digestivo para tratar a obesidade grave, com o objetivo de reduzir o peso através de alterações no estômago e intestino, limitando a ingestão de alimentos ou a absorção de nutrientes. O procedimento é indicado para pessoas com obesidade mórbida (IMC acima de 40) ou com IMC acima de 35 associado a outras comorbidades como diabetes ou hipertensão, e exige acompanhamento de uma equipe multidisciplinar após a cirurgia. 

A partir desse momento, passei a pesquisar profundamente sobre o tema. Me deparei, por certo, com procedimentos bem sucedidos mas, também, com aqueles que deram (muito) errado. Por isso, naturalmente, bateu uma certa insegurança acerca do caminho a ser seguido – se eu deveria continuar no processo ou desistir e tentar algo “mais natural” novamente, muito embora, lá no fundo, soubesse que não havia mais o que ser feito.

Por fim, resolvi prosseguir e ver onde é que tudo aquilo iria dar…

O primeiro passo foi entender o que era uma cirurgia bariátrica e seus tipos, para poder decidir, com maior conhecimento de causa, o que seria melhor pra mim. Basicamente, são dois tipos de cirurgia – no que pese haver outras modalidades:

Sleeve (Manga Gástrica): Uma cirurgia puramente restritiva que remove uma parte do estômago, cerca de 80%, transformando-o em um tubo. É indicado para pacientes que precisam de uma abordagem menos invasiva em relação à absorção de nutrientes.

Bypass Gástrico em Y de Roux: Combina restrição (criação de uma bolsa gástrica menor) e desvio intestinal, limitando a absorção de nutrientes. É uma das técnicas mais consagradas na cirurgia bariátrica, sendo amplamente utilizado por sua eficácia tanto no emagrecimento rápido quanto no controle de doenças metabólicas, como o diabetes tipo 2.

 Cada uma dessas técnicas trazem benefícios e adversidades, que devem ser mensurados no momento de decidir por qual delas aplicar. Por exemplo, o Bypass apresenta uma perda de peso sustentada, controle metabólico e redução do apetite mas, em contrapartida, é uma cirurgia complexa, com possibilidade de complicações pós-operatórias, além de promover riscos nutricionais, o que requer acompanhamento rigoroso e monitoramento e longo prazo. Já o Sleeve também apresenta perda de peso significativa, redução do apetite, é menos invasiva do ponto de vista metabólico e possui menor risco de complicações. No entanto, ela não permite reversão anatômica e alguns pacientes podem desenvolver ou agravar sintomas de refluxo gastroesofágico, podendo ser menos eficaz em casos de obesidade severa.

Ou seja: tem-se prós e contras, mas o fato é que a cirurgia bariátrica funciona ao modificar a anatomia do sistema digestivo para reduzir a ingestão de alimentos ou a absorção de nutrientes, ou ambos e essas mudanças resultam em perda de peso e controle de condições metabólicas associadas à obesidade. A escolha do melhor método depende do histórico e das necessidades individuais de cada paciente.

Decisão tomada, era hora de me preparar para a cirurgia, que incluía uma avaliação médica completa, feita por uma equipe multidisciplinar, acompanhamento nutricional, exames pré-operatórios e ajuste no estilo de vida. Fiz diversas consultas com o cirurgião, com nutricionista, com clínica geral, com psicóloga.

Aqui, faço um mea culpa e um alerta, principalmente para aqueles que pensam em seguir por este caminho. Em síntese, façam tudo diferente do que eu fiz! Como assim? Eu explico. O correto é, realmente, mudar o estilo de vida, procurar já ir perdendo peso, condicionando a cabeça para a nova fase que está por vir. É uma mudança e tanto, que vai exigir grande adaptação e, por isso, todas as orientações dadas pela equipe devem ser seguidas à risca.

São recomendações importantíssimas, como: mastigar pelo menos trinta vezes; tentar fazer a refeição em vinte minutos, beber o líquido em goles, acostumar a comer sem beber líquido algum. E mais: evitar frituras e alimentos gordurosos, comer legumes e verduras, criar o hábito de comer frutas e tomar leite desnatado, tomar sol, alimentar-se regularmente, não usar açúcar.

Minha cirurgia foi marcada para o dia 29 de julho, apenas três dias após meu aniversário de 60 anos. E eu teria pouco mais de um mês até lá e, equivocadamente, resolvi utilizar esse tempo pra fazer “despedidas”. E foram várias! Apesar de possuir um IMC elevado, hipertensão arterial sistêmica, dislipidemias, doença hepática gordurosa não alcoólica e esteato-hepatite não alcoólica, resistência insulínica e apneia obstrutiva do sono, resolvi “meter o pé na jaca” até minha festa, programada para o dia 26, já que não tinha a menor ideia do que o futuro estaria me reservando. E dos 114kg das consultas iniciais fui parar em 120kg no dia da cirurgia. Uma tremenda irresponsabilidade, que poderia ter me trazido consequências bastante danosas!

Enfim, chegou o dia. Inicialmente, o médico iria fazer a técnica Sleeve mas, após uma troca de ideias, em que falei acerca de refluxo, acabou optando pela Bypass.

Eu sabia, de antemão, que os primeiros tempos após a cirurgia seriam difíceis, exigindo muita determinação e paciência. Além de todo o cuidado na preparação dos alimentos, ainda eram necessários cuidados especiais de higiene e organização para uma perfeita cicatrização. Agora, minhas etapas seriam contadas a partir de semanas e, na primeira, que começou a ser contada a partir do dia da alta, continuaria com a alimentação oferecida no hospital, em que o volume ingerido a cada intervalos era o equivalente a uma copo pequeno de café descartável, ou seja, de 50ml.

Sim, a primeira semana foi apenas de líquidos ralos, como água de coco, chás (exceto chá verde, mate e preto), sucos de laranja lima, pera ou maçã e sopas de legumes batidas com carne ou frango e coados em peneira fina, adicionados de suplemento proteico (whey hidrolisado e sem sabor). De hora em hora, entre 7:00 e 22:00h, alternava entre esse líquidos.

Não, definitivamente não é algo fácil, pois temos a sensação da fome ainda presente – talvez algo psicológico – e, no princípio, temos quase a certeza de que não daremos conta. Mas, com o passar dos dias, as coisas vão entrando no seu lugar e, dia após dia, a gente vê que está conseguindo vencer.

Na segunda semana, continua tudo coado, líquidos ralos, mas a quantidade dobra, passando de 50ml para 100ml. Nesse momento, são introduzidos os sucos de todas as frutas, o leite e a gelatina diet. Há, nesse momento, um ganho expressivo com a introdução do leite, já que a gente se sente um pouco mais fortalecido – são 400ml divididos em 4 porções ao longo do dia, e a gelatina, que nos dá a sensação de mastigar algo “mais sólido” e que foi motivo, pelo menos pra mim, de grande comemoração…

Na terceira semana já podem ser introduzidos suco com soja light ou zero adição de açúcar e iogurte líquido e coado. O suplemento proteico, a partir da segunda semana, migra da sopa para o leite. Vale aqui a observação de que, desde o início, recomenda-se beber bastante água, em torno de 1,5l.

Cabe uma observação e um agradecimento: é uma cirurgia complexa, que demanda atenção e cuidado, sendo imprescindível o apoio da família nesse momento tão delicado. E eu tive isso. Minha mulher e minha filha me apoiaram desde o início e entraram inteiras nessa jornada. Por exemplo, após fazerem a sopa, utilizando a carne magra de boi ou filé de peito de frango, legumes e verduras, aproveitavam o que sobrava da extração do líquido, temperavam e consumiam. Ou seja, todos entraram na vibe! E foi muito legal – principalmente ver minha filha, que é a “chata pra comer” em pessoa, curtindo um purê de legumes…

Entramos, finalmente, na quarta semana. Essa, sim, deve ser aquela que todo paciente bariátrico sonha após os primeiros dias e não foi diferente comigo. Afinal, aqui é introduzida uma dieta pastosa, em que os líquidos não precisam ser mais coados. É uma mudança bastante radical e o paciente deve estar muito atento à mastigação.

Já são introduzidos purê de frutas e legumes, biscoito cream crackers light e carne moída, com a ressalva do volume, que não pode ultrapassar 100ml ou 100g e a alimentação que era de hora em hora pode ser espaçada para de duas em duas horas. A recomendação para ingestão de bastante água permanece.

É, realmente,  um novo patamar. Depois de um longo período, que nos parece interminável, podemos mastigar algo e é um verdadeiro delírio! E nós, cozinheiros, ainda podemos brincar um pouco com isso, fazendo algumas montagens para ajudar – afinal, comemos com os olhos também, né? E eu nunca pensei que iria gostar tanto de uma carne moída com purê e caldinho de feijão!

No primeiro mês, há uma perda de peso considerável, cerca de 10% do peso inicial – ou seja, depois dessas primeira quatro semanas difíceis, perdi cerca de 12kg! Depois, a perda passa a ser menos significativa e, por isso, deve-se evitar a utilização da balança com frequência.

Nessa nova vida, deve-se procurar selecionar alimentos mais nutritivos. Bebidas alcoólicas, refrigerantes, café e açúcar estão terminantemente proibidos e, nesse ponto, até que foi tranquilo, já que eu nunca fui uma pessoa que morre por um doce… Mas é muito importante que,  a cada refeição, se introduza um novo alimento, sendo que as proteínas – carnes e leite – são prioridades.

Detalhes que devem ser observados: não se deve ficar mais de três horas sem se alimentar, dormir somente após duas horas da última refeição sólida, utilizar temperos naturais para cozinhar e beber 2,5l de água por dia, pelo menos. O volume máximo de 100ml até 200ml ou 100g até 120g deve ser respeitado. Não sei se segui tão à risca como deveria, mas me esforcei ao máximo!

Passados três meses, a perda de peso já estava em 17% no total – ou seja, eu estava pesando em torno de 99kg. Caminhadas liberadas – academia somente após seis meses. E eu aproveitei minhas idas para Itanhandu/MG para caminhar por lá, e não só por lá. Foram muitos e muitos quilômetros caminhando…

É fato que o ritmo acelerado de emagrecimento é observado até esse momento e, a partir daí, passa a ser mais lento. Isso porque nosso corpo passa por um processo natural de adaptação fisiológica, o que faz que que o organismo passe a gastar menos energia diariamente para evitar que a perda de peso rápida leve à desnutrição e aos consequentes riscos à saúde.

Não escapei da queda de cabelo, que acontece a partir dos três meses. Apesar de ser um evento impactante e assustador, ele é comum, geralmente causada pelo chamado “eflúvio telógeno”, um tipo de queda temporária ligada ao estresse físico e nutricional da cirurgia e da rápida perda de peso. Com a estabilização do peso e do estado nutricional, o que ocorre entre os 6 e 12 meses, o cabelo costuma se recuperar gradualmente. Ufa, ainda bem!

Agora já podia comer cerca de 200g de comida, metade do prato ocupada pelo grupo das carnes. As fontes de proteínas devem ser ingeridas tanto no almoço quanto no jantar, dando-se preferência às carnes vermelhas. Feijões, folhosos verde escuros, beterraba e inhame e frutas ácidas (a acidez melhora a absorção do ferro) não podem ser esquecidos.

Enfim, chegamos ao final do ano. Eu ainda iria fazer cinco meses de operado, mas aconteceu algo aqui que preciso contar.

Até as festas do Réveillon, eu me sentia bem pra baixo, muito triste, já que, comer tinha se tornado, para mim, uma obrigação. E, por conta disso, parei até mesmo de fazer o que eu mais gostava, de ir pra cozinha. Meu paladar parecia não ser mais o mesmo e eu não mais sentia prazer, seja em cozinhar ou em comer. Para um cozinheiro, isso é algo impensável!

Naquele momento eu já tentava encontrar outras motivações que mantivessem minha vontade de caminhar, porém sem sucesso. E, com isso, a temida depressão insistia em me rondar, cada vez mais próxima., já dava pra sentir ela “bafejando no meu cangote”…

Mas, aí, do nada, veio o inacreditável. Tão logo o ano virou, as coisas, de repente, foram voltando ao normal. Fui reencontrando os sabores e, com eles, o prazer que achei ter perdido. Passei a cozinhar e a sentir vontade de comer. Claro, não eram mais as quantidades enormes de antes, às vezes até sem noção, mas o suficiente para afastar, de vez, o risco de me ver mergulhado em um abatimento profundo e patológico.

Já sentia a vida sorrir pra mim de novo! E isso era o mais importante… Havia superado uma fase difícil do processo e, agora, cabia a mim aprender a caminhar novamente, com os cuidados que a minha nova vida exigia, mas sempre pra frente. Voltei a ser o cozinheiro de antes, a criatividade na construção dos meus pratos, antes perdida, voltou e a cozinha, novamente, era meu templo sagrado.

E isso foi um tremendo alívio!!!

Quando fiz seis meses da cirurgia, voltei a frequentar a academia. E até de corrida de rua participei…

É importante ressaltar que a bariátrica não é um “milagre”, a solução definitiva do problema. Essa ideia é completamente equivocada! Como vimos, a obesidade é uma doença e a cirurgia é apenas uma ferramenta científica que exige compromisso contínuo do paciente. Nós devemos fazer a nossa parte e o sucesso, a longo prazo, depende de uma mudança completa do estilo de vida, incluindo reeducação alimentar e atividade física, além do acompanhamento médico e psicológico multidisciplinar.

Sei que ainda tenho um longo caminho pela frente e a batalha é diária. O risco do reganho é real e, por isso, deve-se estar atento SEMPRE. Repito: boas práticas alimentares, atividade física regular…  Tenho em mente que não devo sair de casa em jejum e que deveria comer com moderação pelo menos duas porções por dia, preferir de duas a três porções e reforçar de 4 a 6 porções ao dia – a conhecida “pirâmide do bariátrico”. Algumas coisas como gordura, álcool e carboidratos simples eu deveria simplesmente evitar, mas eu sou um mero mortal, né? Cometo meus erros e abusos, e até me permito isso.

Com certeza, ainda preciso ter um pouco mais de disciplina, mas o que conquistei até agora valeu muito a pena. Para quem era hipertenso, tinha o açúcar no limite, dormia utilizando CPAP e já tinha uma dificuldade enorme para amarrar o tênis, estar apenas com o compromisso de suplementar vitaminas, minerais e proteína já foi um ganho enorme.

Em julho passado fiz um ano da cirurgia que me deu uma sobrevida. Consegui bater a meta de 30% – estava com 81kg à época. Em teoria, quando completar dois anos, o percentual final deverá ser de 40%, ou seja, 72kg, mas acho que não quero perder tanto assim…

Sou um cozinheiro que fez bariátrica e que, atualmente leva uma vida normal, gostando de tudo que gostava – principalmente de cozinhar. e que ainda tem muito pra viver e fazer nesse mundo! Ainda existem muitos sabores que pretendo conhecer…  E se esse meu artigo, de alguma forma, fizer com que pessoas que sofrem com o problema da obesidade e com toda a (pesada) carga que ela traz, e que já não conseguem mais vencê-la sozinho, sem ajuda, puderem considerar a possibilidade da cirurgia, já vale. Eu sou prova viva de que pode dar certo e eu conheço, no meu entorno, diversos outros casos de sucesso.

Sei que existem riscos – aliás, tudo na vida envolve alguma dose de incerteza. Porém, se me perguntam: faria de novo? Claro.

E teria feito bem antes…

Até a próxima!

Em tempo: relendo o meu artigo, vi que cometi uma falta grave, na medida em que omiti, não intencionalmente, duas condições que ocorrem com frequência moderada em pacientes bariátricos e que devem ser mencionadas quando se tem por foco passar as informações reais sobre o procedimento – sejam elas as flores, sejam elas os espinhos. Talvez o tenha feito por não ter sentido nenhuma delas durante todos esse primeiro período, que foi o objeto desse meu relato.

Porém, no último dia 30/10/2025, vivenciei uma dessas situações que me fizeram aditar essa postagem no ARTECULT.

Apesar de ser uma ferramenta eficaz para o controle de peso e de várias doenças crônicas, a cirurgia bariátrica pode acarretar algumas complicações, como a síndrome de dumping e hipoglicemia reativa, principalmente para quem passou pelo bypass gástrico. Embora possam ser desconfortáveis e compartilhem sintomas, essas condições são quadros distintos, com causas, momentos de surgimento e mecanismos fisiológicos diferentes e podem ser prevenidas e gerenciadas com a orientação de um nutricionista e alterações nos hábitos alimentares.

A SÍNDROME DE DUMPING é uma condição que se manifesta quando os alimentos se deslocam rapidamente do estômago para o intestino delgado, provocando sintomas como náuseas, vômitos, diarreia e tonturas. Por outro lado, a HIPOGLICEMIA REATIVA é definida por uma redução acentuada nos níveis de açúcar no sangue após as refeições, resultando em sintomas como fraqueza, tremores e sudorese.

É fundamental saber diferenciá-los para ajustar a dieta, interpretar os sinais do corpo e procurar o acompanhamento adequado com profissionais qualificados no período pós-operatório.

Pra fechar, vou contar o que passei. Ainda estou tentando entender, para evitar, no futuro, cometer o mesmo erro pois, definitivamente, é algo que não pretendo sentir novamente… Pois bem: almocei tarde naquela quinta feira, por volta de 14h. Preparei um camarão à provençal, um tempurá de camarão e cebola, berinjela asiática e gohan – ou seja, tinha bastante fritura e temperos. Tomei, ainda, uma lata de cerveja. Por volta das 19h, do nada, comecei a sentir um frio insuportável, meu corpo tremia todo. Não consegui segurar o copo pra beber água ou me levantar e caminhar… Entrei embaixo de 3 cobertores e nada dava jeito.

Minha filha, preocupada, trouxe o termômetro. Não havia febre. Ela começou a pesquisar pelos sintomas na internet e quando leu sobre queda de pressão ou hipoglicemia, me lembrei de tudo que havia estudado antes da cirurgia – já que ambas as situações não me eram desconhecidas. Como já haviam se passado quatro horas desde que havia almoçado, deduzi não se tratar do Dumping – que se manifesta, geralmente, logo após a refeição – mas da Hipoglicemia Reativa. Imediatamente, para reverter o quadro, consumi uma pequena quantidade de carboidratos de ação rápida – no caso, foi um suco de maracujá com açúcar, uma colherinha de mel e balas de cupuaçu. Depois de um tempo, que pareceu uma eternidade, a situação foi se resolvendo. Aí comi uma proteína… E tudo se estabilizou.

Mas sendo essa a minha primeira vez, me senti na obrigação de compartilhar. E, é certo, estudarei mais um pouco sobre essas duas situações, para que não seja obrigado a enfrentá-las novamente. Fica aqui meu alerta.

Portanto, lembram-se: após a cirurgia bariátrica, os pacientes podem experimentar Síndrome de Dumping e a Hipoglicemia Reativa, que podem afetar sua qualidade de vida. Contudo, é viável gerenciar os sintomas e levar uma vida mais saudável com as orientações adequadas e alterações nos hábitos alimentares.

Tudo (SEMPRE) vai dar certo!

Vamos em frente!

 

DEL SCHIMMELPFENG

@del.schimmelpfeng

 

 

 

 

 

 

 

 

Author

Del Schimmelpfeng é Analista Judiciário do TJERJ, mas desde que se lembra - e coloca tempo nisso! - ama cozinhar! Apesar de ter feito as faculdades de arquitetura e direito, é se misturando aos pratos, panelas e temperos que se sente inteiro, completo, pleno. É autodidata, nunca fez curso de culinária, tampouco se imaginou um profissional da área. Considera-se apenas um curioso, que procura o conhecimento em tudo e que tenta, de todo jeito, viver da melhor forma possível - apesar de todas as dificuldades. Afinal, não haveria graça se elas não existissem... Participou da seletiva da segunda edição do Masterchef e da décima nona edição do reality "Jogo de Panelas", apresentado por Ana Maria Braga no programa "Mais Você" da Rede Globo, na qual sagrou-se campeão. Possui, ainda, textos publicados em livros de conto e poesia. Blog: http://delschimmelpfeng.blogspot.com Instagram: @del.schimmelpfeng

5 comments

  • Parabéns, Dell, em relatar a sua experiência, a ousadia de tentar e se por as mãos dos médicos, indica que há sempre o recomeço, afim de continuar o que mais queremos, a vida, a plenitude de viver, em busca do que a ciência aponta e se pondo em prova que, sempre devemos tentar, pois superar é pra quem tenta, a vida é continua , transcorre em etapas e acredita
    que vale o esforço.

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  • Parabéns,
    A matéria é de autoconhecimento, conhecimento bariatrico, gastronômico, e passando pelo esporte que AULA. Estou impressionado como as palavras, decorrem pelas mãos do autor como se estivesse fazendo uma deliciosa e delicada sobremesa que nós encanta a cada linda com sua narrativa que é real de sua vida.
    Parabéns, parabéns, devorei, cada palavra é além de linda e como disse acima deliciosa e delicada. Na verdade, É um alerta de VIDA, um acorda, menima, acorda menino… Como diz a ANA MARIA BRAGA. Só que esse é VIDA. Que bom que existem ou ainda existem pessoas como vc, leio sempre suas coluna. Porém essa não poderia deixar passar em branco de deixar um comentário, pq isso não foi só uma coluna e um livro escrito … “Vc está fazendo um alerta da SAÚDE, um alerta de VIDA HUMANA AO PRÓXIMO. E dizendo que Bariátrica, pode salvar milhares de vidas posse nosso Brasil a fora e existe um holofote no fim do túnel.

    Atenciosamente,
    Ranieri Mutti
    Chef de Cozinha

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  • Parabéns Del pela superação e por conseguir relatar sua experiência de forma tão real e ainda alertar sobre esse problema no Brasil . Sempre bom ler seus artigos .
    Letícia Chaves

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