
Quando chegamos aos cinquenta anos, é tudo isso e muito mais que a atriz Claudia Mauro aborda com graça e simpatia.
A admirável Claudia Mauro está na Casa de Cultura Laura Alvim nos apresentando a vida de uma mulher de cinquenta anos — idade que conheço bem — e, com a experiência que tenho nessa casa decimal, posso afirmar: ela não pecou em uma vírgula.
A atriz conduz a plateia como um pescador que arrasta seus peixes — somos completamente capturados por ela. Mas, ao contrário dos peixes, queremos continuar com ela. E, assim como eles, nos falta oxigênio… porque ela nos faz rir o tempo inteiro.
É lindo ver a plateia entregue a ela, por contar a sua verdade — que, no fundo, é a nossa verdade. O tempo…
E essa verdade não pertence a um único gênero, mas a todos nós.
Penso ser um erro não falar da carreira da atriz, que vai muito além desta peça. São inúmeras montagens de sucesso, como, por exemplo, A Vida Passou por Aqui, que está em temporada há nove anos ao lado do talentoso Edio Nunes. Essa obra é lindíssima, um bálsamo para os amantes do teatro. Está entre as minhas preferidas, impossível não figurar no meu top five — e olha que já assisti a muitas peças. Mas essa está guardada a chave na minha memória afetiva.
Claudia também está na telinha da maior emissora do país — porque ela é assim: trabalha como qualquer trabalhador brasileiro. Como ela mesma diz na montagem que comento, não conseguiria ficar sem atuar.
Claudia assina um texto que aborda absolutamente tudo da vida do ser humano comum — pessoas como eu e você, que habitamos este corpo em nossos dias por aqui, nesta terra. Os embates diários que enfrentamos, inclusive os internos, espirituais. Em uma das cenas, durante uma meditação, ela desenha com perfeição a inquietude do ser humano na tentativa de se conectar com o além ou com o nirvana. Questiona diversas situações, desde as mais transcendentes até a fome e a vontade de fazer xixi. E a plateia se deleita com risadas gostosas de ouvir.
Durante o banho, a atriz confessa que tenta rezar, orar — ou seja lá o que for — e mais uma vez as risadas altas explodem na plateia. Ela se ajoelha, esquece os nomes dos líderes e mediadores espirituais… e por aí vai. E aquela sequência da oração? Gente, impossível sair de Tempo Que Existe em Mim sem estar completamente extasiado.
Leia mais em:
https://vejario.abril.com.br/programe-se/claudia-mauro-ritmo-sociedade-solo-escrito-vinte-anos/
Insatisfeito? Só se a pessoa estiver no clima do Zangado da Branca de Neve. Fala sério!
O texto foi criado há décadas, durante um papo com Ney Latorraca e Claudia Mauro — impossível ter dado errado.
A escrita é inteligente e recheada de comicidade. Não é uma forçação de barra. Cresce com o trabalho de corpo da atriz. E como não rir de uma formiguinha na pia do banheiro sendo salva por uma enxurrada d’água, apenas para logo depois ser “morta” por espuma mentolada da pasta de dente da atriz? E o peso na consciência dela? Parece bobagem, mas não é…
Ah, gente! Eu já me peguei tirando formiga viva da panela no fogão. Ora, não deixaria uma formiga queimar na minha frente, de jeito nenhum. Já bastaram as mulheres queimadas por serem consideradas bruxas durante a inquisição “santa do inferno”, né?
E o corpo da Claudia? Claro que dança. Quem acompanha as redes sociais da atriz percebe o encantamento dela com a dança, com o movimento. E quando ela dança no palco e termina com um espancar, ficamos boquiabertos com sua competência. De repente, ela mesma se sabota com humor: “Como sair daquela posição com a idade que tenho?” E mais uma vez começamos a rir ininterruptamente.
E como falar desse corpo de meio século? Já ouviu falar em “buldoguismo”? Basta olhar no espelho para entender — se você já tem mais de cinquenta. O que acontece? Risadas! Muitas. Com palavras inventadas por ela para descrever, com humor, as mudanças naturais dos nossos corpos.
Ao falar do seu corpo no carnaval — corpo esse que foi madrinha de bateria durante quinze anos — ela profetiza já estar a caminho da ala das baianas e, futuramente, da velha guarda. E mais uma vez, diversão garantida.
“Mas, Patrícia, você está dando spoiler?” Estejam certos de que não. Eu poderia escrever aqui o texto inteiro do espetáculo A Descoberta da América que, mesmo assim, o leitor não teria ideia do que falo. Porque o que faz a obra se tornar uma lenda é o trabalho de corpo do ator Julio Adrião. Da mesma forma, é a comicidade da Claudia, suas expressões faciais e corporais, que conquistam. É isso que nos dá o sabor de um espetáculo leve, que nos faz enxergar nossos dias, nossas vidas, e momentos que não voltarão.
Claudia é sólida. Sabe o que pode fazer — e faz. Teatro é isso: engrenado de coragem e vontade dos que o constroem. O resto é balela…
Sem mais, indico muitíssimo o espetáculo, que acima de tudo nos leva à aceitação da vida como ela é: a bunda cai, o peito cai, as bochechas caem… mas vale a pena viver. Vale muito estar aqui, rir com a Claudia, porque o que nos resta é rir de nós mesmos e aceitar a vida, dentro desses parâmetros tão bem abordados por essa talentosa dramaturga e atriz!
Viva o teatro!
Sinopse
O texto, escrito por Claudia Mauro há vinte anos, explora as reflexões de uma mulher ansiosa que questiona o tempo e a própria permanência neste mundo, misturando memórias, histórias e devaneios.
Sob a batuta de Alice Borges e Rogério Fanju, ela levanta questionamentos atuais sobre a existência, trazendo uma visão bem-humorada sobre o ritmo que a sociedade imprimiu para si nos dias de hoje.
Ficha Técnica
Tempo Que Existe em Mim
- Texto e Atuação: Claudia Mauro.
- Direção: Alice Borges e Rogério Fanju.
- Iluminação: Paulo César Medeiros.
- Trilha Sonora: Marcelo H.
- Coreografias: Edio Nunes e Lucinha Machado.
- Figurinos: Georgia Guimaraes.
- Produção Executiva: Junior Godim.

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

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Peça Linda, que toca a alma!!! É uma jóia Imperdível ✨
Texto Sensacional, muito emocionante.