Temos tempo?

 

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Temos tempo?

 

“Toda substância viva é um espelho vivo e perpétuo de todo o universo”.

(Leibnitz)

 

Há uma música do cancioneiro popular brasileiro, ‘O último dia’, do cantor e compositor Paulinho Moska que nos faz uma pergunta intrigante, e também para alguns, perturbadora: “O que você faria se só te restasse esse dia? Se o mundo fosse acabar. Me diz o que você faria”. O que você faria? É o que vamos debater e refletir agora aqui neste espaço.

Inicialmente é preciso explicar a origem etimológica da palavra tempo. Sua referência no grego antigo possui três substantivos: o tempo físico e cronológico, krónos. O tempo oportuno, kairós. E o tempo indeterminado, o aión. Cada termo com seu uso e sentido específicos. Já o latim tem apenas um substantivo: tempus. Este engloba todas as denominações para o tempo que nós, ocidentais, utilizamos na nossa linguagem para nominá-lo.

Ainda na origem grega temos também a referência ao deus Crónos, filho de Uranó (céu noturno estrelado) e Gáia, a mãe terra. Já na mitologia romana é o deus Saturno. Um deus poderoso, que controla o tempo de todos os mortais e também pode devorá-los. Esta representação foi retratada num clássico quadro, do pintor Francisco de Goya (séc. XIX), que está no Museu do Prado, Madri (“Saturno devorando a su hijo”):

Neste caso, como deus eterno e absoluto, reina soberanamente sobre os humanos mortais. E sendo um deus, como na mitologia, não podemos ‘tê-lo’, porque somos hierarquicamente inferiores ao deus que porta numa das mãos uma ampulheta e na outra uma foice. E como na mitologia, devora tudo o que desejar. 

Séculos depois temos Freud, considerado pai da psicanálise, que nos diz que o mundo é uma imensa estranheza para cada um de nós. E por mais impactante e verdadeira que seja a frase, vivemos nos dias de hoje uma permanente disputa interna para entender e aceitar este fato. Somos afetados a todo instante por angústias e incertezas. Em alguns casos, fingimos não enxergar as constantes dúvidas que nos aparecem e com isso criamos mecanismos de fuga e ilusão. Mas a estranheza ou o incerto do e no mundo é inalienável. E inescapável. O fato certo é que não temos garantia de nada. 

Em outros casos, entende-se e aceita-se: porém não sem dor, mas com bastante aprendizado, acompanhado de muita philia. E neste último caso, acredito que nos tornamos não só mais vividos e experientes, mas também menos perturbados. Epicuro nos diz na Sentença número 13: “de tudo aquilo que a sabedoria nos proporciona para a felicidade de toda nossa vida, de longe o mais importante é a posse da amizade”. (EPICURO, 2014, p. 21). Conservar e partilhar uma φιλία (philía) assimétrica.

Uma vida mais serena, com o apoio da reflexão racional, num caminho para a ataraxia, um dos mais famosos preceitos do estoicismo e do epicurismo: uma vida feliz longe do que perturba nossa alma. Uma vida feliz, para eles, significava uma vida imperturbável. Difícil, porém vale o exercício filosófico e espiritual. E aqui o tempo é soberano. É o tempo-já. O tempo-aqui – que pode – em se desejando, ser plenamente vivido e aproveitado. Sem cobranças, sem expectativas, sem angústias. Voltar-se para este tempo-aqui, que é. Intransitivo e indeclinável. É singular e não pede complemento verbal ou nominal. Porque é. E tão simplesmente quanto falamos e pensamos a frase anterior, deveríamos também agir – sem temores, mas numa entrega de si para esse instante-já, como nos fala Clarice Lispector em Água viva:

“Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais porque agora tornou-se um novo instante-já que também não é mais. Cada coisa tem um instante em que ela é. Quero apossar-me do é da coisa. Esses instantes que decorrem no ar que respiro: em fogos de artificio eles espocam mudos no espaço. Quero possuir os átomos do tempo. E quer capturar o presente que pela sua própria natureza me é interdito: o presente me foge, a atualidade me escapa, a atualidade sou eu sempre no já. Só no ato do amor – pela límpida abstração de estrela do que se sente – capta-se a incógnita do instante que é duramente cristalina e vibrante no ar e a vida é esse instante incontável, maior que o acontecimento em si: no amor o instante de impessoal joia refulge no ar (…)”. (p. 9-10).

 

Dar-se para o todo, assimetricamente. Porque ao contrário do que diz o senso comum: nós não ‘temos’ o tempo. Lembremo-nos do implacável deus grego!

Mas para entender e refletir este argumento é preciso um imenso descolamento metafísico desta realidade que nos cerca. E para nos auxiliar nesta trilha, temos o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han e sua obra Sociedade do cansaço. Como o próprio título diz, o filósofo fala da nossa contemporaneidade e de como nos tornamos, em diversos aspectos, indivíduos exaustos e doentes. Diz Han que :

“… a sociedade do século XXI não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade de desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais ‘sujeitos da obediência’, mas sujeitos de desempenho e produção”. (p. 23).

Esse sujeito vai se afastar da negatividade (não à toa temos hoje um excesso de positividade nas redes sociais), vai buscar ser seu próprio ‘empresário’, vai se exigir cada vez mais, porque afinal, como se fala muito no senso comum anglo-saxão: if you want, you can. Go and get it! E em nome da superação cada vez maior, o sujeito da performance vive uma vida de procrastinação, afirmando para si (talvez como desculpa): ‘quando tiver tempo, eu faço etc.’….olha aí a linguagem a serviço de outrem.

Nos dias de hoje temos em evidência a vontade do indivíduo voltada para compensações, consumo e projeções sociais e econômicas, sobretudo através das redes sociais. Uma espécie de ‘suborno’ pessoal para suportar o sofrimento e a opressão da máquina neoliberal capitalista no binômio escravizante produçãoconsumo. A felicidade é colocada na ‘gaveta’ do condicionamento: ‘quando eu tiver isso ou aquilo, serei feliz…’. Uma espécie de felicidade adiada ou projetada

E para se ‘ter’ felicidade, o sujeito da performance se lança numa busca solitária, cansativa e vazia. Neste sentido, o filósofo sul-coreano Han afirma que

“a preocupação pelo bem viver, à qual faz parte também uma convivência bem-sucedida, cede lugar cada vez mais à preocupação por sobreviver”. (P. 33).

E nesta trilha desmedida por mais e mais ‘ressarcimento’, o ‘sujeito da performance’ descarta o outro semelhante numa espécie de ‘altericídio’: não se reconhece mais a existência do outro ou de outra personalidade. O filósofo encerra este seu livro afirmando que

“a vida hoje se transformou num sobreviver. A vida enquanto um sobreviver acaba levando à histeria da saúde”. (p. 117). 

Iniciamos este texto com uma pergunta: Temos tempo? Ao longo desta breve reflexão procurei fazer uma linha de pensamento e linguagem, desde a origem da palavra no grego antigo, por Epicuro, passando um pouco pela psicanálise de Freud até o filósofo contemporâneo, Byung-Chul Han. Naturalmente há uma infinidade de outros pensadores que refletem sobre este tema tão ancestral quanto o próprio homem: o tempo. Aqui é uma breve e modesta contribuição de pensamento acerca do tema.

Em última consideração, acredito que o sujeito da performance, forjado pelo sistema neoliberal capitalista, acredita que sempre terá um tempo futuro para acertar o que ficou pendente no presente. Como falei anteriormente, este sujeito ‘engaveta’ sua felicidade/propósitos pessoais em detrimento de compromissos outros, como por exemplo o excesso de trabalho e de tantos outros fins. 

Vivemos um engano contínuo, uma ilusão permanente de que “temos tempo” e com isso, não nos concentramos, nem nos dedicamos ao que realmente importa. Uma vida dispersa. E o que temos, de fato, é este instante-já, este momento-aqui. 

Há uma música de Jorge Drexler e Paulinho Moska – A idade do céu – que se encaixa muito bem ao que me propus refletir hoje aqui e que deixo um trecho para embalar mais e belas reflexões: 

“Não somos mais que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só na idade do céu
Não somos o, o que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo com a idade do céu

Calma, tudo está em calma
Deixe que o beijo dure, deixe que o tempo cure
Deixe que a alma
Tenha a mesma idade que a idade do céu”

 

ZAL

Zalboeno Lins (ZAL). Foto: Divulgação

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUSTER, PAUL. O inventor da solidão. Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves. São Paulo: Editora Best Seller, 1982.

LISPECTOR, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.

EPICURO. Pensamentos: textos selecionados. Tradução e comentários de Johannes Mewaldt e outros. São Paulo: Editora Martin Claret, 2014.

EPICURO. Sentenças vaticanas. Tradução e comentários de João Quartim de Moraes. São Paulo: Edições Loyola, 2014.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Tradução Enio Paulo Giachini. 2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.

 

Author

Me chamo Zalboeno Lins, mas pode me chamar de Zal.☺️ Sou graduado em Filosofia pela Faculdade de São Bento do RJ e atualmente faço Mestrado em Filosofia Antiga pela UERJ. Também apresento palestras de temas de Filosofia num programa interno da Claro. E mais recentemente, também dou aulas para o CEFS - Centro de Estudos Filosóficos de Santos. Mas acima de tudo, sou um grande admirador da Filosofia, como meio de nos resgatar do senso comum...☺️ Num direcionamento de uma vida feliz!

7 comments

  • Maravilhoso seu texto! Uma leitura que traz momentos de tranquilidade e reflexão a esse nosso mundo tão turbulento! Parabéns!

  • Saúdo a lúgubre reflexão, irmão Zal! em um momento ancestral também fiz o meu exercício de pensar o tempo, porém, sem os mesmos subsídios. Pensei sobre os aspectos da termodínamica pois cursava química e tinha ali as minhas referências. Entendi naquele momento que o tempo é um construto do intelecto humano ao que buscamos superá-lo. Explico. Superar a morte e as limitações do físico nos impulsionaram na construção de artefatos que mediassem nossa relação com a Natureza e quem sabe a subjulgassêmo-la (essa foi boa!). Mas somos em si parte dela. Para dominá-la deveríamos deixar se ser e passarmos a contê-la. Mas tal assombro de pensamento me levou a outro edito, o da nossa existência. Parei por aí, pois Rousseau se inclinará a essa tarefa e na ocasião não tinha, como ainda hoje, a maturidade de leituras que me amparassem. Sou grato ao seu texto por reviver aquele momento, Zal!

  • Zal, uma bela contribuição para refletir… Quase como trilha sonora da leitura, surgiu a canção do Legião Urbana,Tempo Perdido, que em algum momento registra: “Temos nosso próprio tempo”. Temos? Em que momento deixamos de valorizar o SER para TER? O adquirir em detrimento do usufruir? Afinal, como você “musicaliza” sua reflexão… Somos “una chispa, tan solo”, “una broma de Dios, un capricho del Sol”. Saúde, sorte e tempo para celebrar!

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