Poxa, não entendo como Shakespeare não é brasileiro!

 

Tem alguma coisa podre no reino da Dinamarca, e isso é culpa do Will…

Willian Shakespeare, ele parecia saber que suas histórias iriam acompanhar a humanidade para sempre, porque é tudo muito atual, é matéria-prima até para desenhos da Disney, algo inexplicável.

A história se passa em 1595, na Inglaterra, antes de Shakespeare escrever Hamlet, considerada sua obra de maior destaque. Nessa época, o dramaturgo já fazia enorme sucesso com Romeu e Julieta, entre outros trabalhos. Concorrentes do Bardo, os irmãos do Rêgo Soutto, Nick e Nigel, precisam montar uma nova peça, mas a falta de criatividade para lançar algo que faça mais sucesso que os trabalhos do rival os deixa em apuros. Nick, o mais velho dos irmãos, resolve, então, consultar um vidente para saber qual será o maior sucesso dos palcos no futuro. É aí que Nostradamus – o sobrinho – prevê que o público vai adorar peças em que a história é apresentada por meio de canções, além de muita dança; O até então desconhecido musical. (Sinopse)

Gostaria de deixar uma impressão, algo muito pessoal para esses artistas, para cada um deles. Sei e tenho noção das dificuldades que vocês enfrentam no processo para ocupar o espaço que cada um ocupa nessa obra e afirmo que são merecedores de estarem onde estão, pela grandeza de cada um. Vocês trazem emoção, nos proporcionam momentos divinos, nos levando a outra dimensão, nos fazendo esquecer dos nossos problemas, esquecendo alguma coisa podre que nos afeta lá fora, vocês não tem ideia do que orquestram em nossas vidas, por isso, posso dizer muito obrigada, por nos fazer sonhar, viver os bons momentos da vida, mesmo que sejam breves!

Tenho a responsabilidade de trazer a essa crítica teatral a importância do Ministério da Cultura devolver ao povo o que é do povo. Ingressos e transportes foram doados com responsabilidade para pessoas que moram longe do centro da cidade do Rio e tive a oportunidade de trazer parte dessas pessoas, muitas que nunca foram ao teatro e tiveram mergulhos individuais, provocando catarses, e a maior delas, o sentimento de pertencimento, que foi trazida por meio de uma produção extremamente comprometida.

“Gostaria de expressar minha enorme gratidão por proporcionar uma experiência única e inesquecível. Seu talento, dedicação e paixão pela arte do teatro musical são verdadeiramente inspiradores.
Fiquei impressionado com a qualidade das apresentações, a criatividade dos cenários, o desempenho dos atores e o profissionalismo da equipe. Foi um verdadeiro espetáculo!
Agradeço por nos transportar para um mundo mágico, repleto de emoções e significados. Suas produções nos fizeram rir, se alegra do começo até fim, por meio de uma aventura muito especial.”, palavras do jovem Igor, morador da baixada fluminense.

E vou começar esse texto falando do trabalho do senhor Wendell, eu jamais esquecerei esse personagem, tão encantador e divertido. Nostradamus é um manjar dos deuses para nós espectadores, ele é tudo que precisamos. Eu o vi em tantos personagens, no tio do Simba do desenho O Rei Leão, vi Wendell também naqueles personagens do Mágico de Oz, ele é tudo junto, eu viajei naquele personagem fanfarrão e apaixonante. Como ele advinha o futuro da dramaturgia Hamlet ou omelete, é de uma sagacidade impar, não digo somente pelo texto, mas pela interpretação cênica do artista. Tudo em Wendell conspira a favor do personagem dele, olhos, mãos, pernas, voz e certamente o coração. A primeira cena, quando apresenta o teatro musical para nós, o corpo de dança traz um sapateado de mais alto nível e o fanfarrão junto. Isso estará marcado em mim, até o Alzheimer chegar!

Marcos Vera, ainda não é a vez dele, afinal Will merece também toda minha admiração. George Sauma, jamais falarei ou mencionarei o dramaturgo inglês, filho do luveiro mais famoso daquela época sem lembrar do Will. Caros leitores, esse artista traz ao palco um Shakespeare, meio roqueiro e picareta. Uma voz e um corpo criado para o teatro musical, não foi à toa que ganhou um dos maiores prêmios de teatro, o Bibi Ferreira, embora eu ignore prêmios, pois sabemos da politicagem envolvida, e isso me enoja, mas tem quem valorize, o que para mim importa mesmo é como o artista faz seu papel e ganha minha admiração, e esse foi o caso desse artista belíssimo em cena. Que me lembrou em alguns momento Roberto Carlos, avesso aos fãs, em certos momentos…

A senhorita Bell Lima, a conheci no musical “Coler Porter”, que foi simplesmente um desaguar de performance bem-vinda. Depois em Pippin, que mais uma vez a aplaudi de alma, e agora meu reencontro. Bell é uma atriz poderosa, ela entra no palco e pronto, fica tudo bem, tudo certo. Ela encena como filha de um pastor, com trejeitos divertidíssimos, milimetricamente desenhados. Bell é simplesmente uma das maiores representantes do teatro musical, a meu ver, faz parte de um grupo seleto de atrizes que nessa geração sabem fazer teatro.

Essa movimentação de corpo em cena pertence ao digníssimo Alonso Barros, que o conheci pessoalmente nesse espetáculo e tive a honra de dizer o quanto sou fã do trabalho desse profissional. Sapateados, danças medievais, pernas para o alto no cancan e tudo mais que assistimos, que se dane o nome das técnicas utilizadas por ele, o que importa é a sagacidade que esse homem tem e em suas execuções.

Laila, outra experta no assunto teatro musical completa o time ou dream time. Inicia-se como a esposa do irmão de um dramaturgo desconhecido. Entra no palco com representatividade feminina, querendo trabalhar para ajudar na economia da casa, sai da primeira cena como a princesa Valente da Disney, galopando com arco e flecha nas mãos, lindo! Ela e o marido, interpretado por Marcos Veras em uma das cenas, levam as espectadoras ao delírio. Quando ela trajada de homem para encarar um trabalho, em seus ombros carrega um pedaço de madeira, quando o marido (Veras), tira do ombro dizendo que aquele não era um trabalho de mulheres vai ao chão. Isso mexeu muito comigo, porque atravessamos com muita luta, um fardo anormal muitas vezes em nossas costas e continuamos pouco reconhecidas. Uma bela análise desse diretor. A voz de Laila como sempre chega não só aos nossos ouvidos, mas aos céus, certamente. E suas expressões corporais são riquíssimas. Laila é Laila, isso basta.

Não vou deixar de falar mesmo do Tauã Delmiro, se falamos de uma comédia, ele entra como uma atriz, todos sabemos que naquela época mulheres não eram bem vistas nos palcos teatrais, e lá vem ele. Entra majestosamente, faltando cornetas, porque se estamos falando de uma comédia, sua entrada é triunfal, pois faz a plateia rir, um verdadeiro deleite.  Delmiro é um artista que tem alavancado sua carreira pela força cênica que tem e esforços descomedidos, sempre em grandiosos musicais, afirmo que por merecimento.

Rodrigo Miallaret, interpreta um reverendo da família de bem, que ja conhecemos, mas o teatro é tão gentil, que fez questão de trazer desse personagem uma canção que fala do amor de Deus, o que achei fantástico e preciso. Nos dias atuais usaram tanto o nome do Senhor em vão que esquecemos a palavras que o representa, o AMOR!

Já Tony Germano, apresenta o possível patrocinador do espetáculo Omelete, não Hamlet, um homem do oriente, patrocinador, é uma comédia, o personagem se delicia nas apresentações, uma graça.

Marcos Veras e Leo Bahia, são dois irmãos que lutam pelo teatro e pelas escritas que servem para o palco. Marcos dança, canta e atua sem precisar chamar atenção para si, ele é sagradamente cordial com os colegas no palco, longe de querer parecer um artista de ponto e reconhecido, ao lado do artista Leo Bahia, cede o lugar de voz e ambos trazem os desdobramentos, porque tudo começa com eles. Leo faz um trabalho lindo, quando perde seu amor (Bell Lima) e ao lado da Laila também, sua voz é potência.  E esses dois artistas juntos corroboram com uma obra aplaudida e sucesso de críticas.

Namatame é o figurinista, perfeição deve ser seu sobre nome. Ele acerta nas cores e desenhos, tecidos, nesse trabalho não há nada de podre, embora eu não tenha visto as bainhas, risos.

E Feliciano San Roman,  o visagista foi riquíssimo nessa construção de personagens, casa-se com o figurino e pronto, deu tudo certo!

O cenário saiu de um livro, só pode, Duda Arruk, mergulhou nas verdades da época contada e seguiu o caminho, ao lado dele Quinderé, que assina a iluminação, e chegamos no tempo de Shakespeare.

A versão brasileira é do Claudio Botelho que um dia desses falava em um grande veículo de comunicação a importância de fazer o que o povo quer ver, e percebi que ele sabe bem do que está dizendo, porque o povo realmente se interessa pelo belo e pelo o que é bom, coisas que determinantemente Claudio sabe montar.

Quanto ao diretor, Gustavo Barchilon, um jovem que tem o dom de fazer grandes musicais, e vem mais novidades por aí, fiquem atentos. O profissional não para e se depender dele, já estaremos na Broadway, porque há nele competência de sobra. Palco cheio, artistas bem ensaiados, uma grande festa vinda dessa mão arteira. O vi acomanhando todo processo, inclusive recebendo todos os convidados com demasiada educação. Gustavo é simplesmente uma referência do teatro musical e profissionalismo. E sabe trazer aos textos contemporneidade, o que acho perfeito, abrasileirar que se chama? Se é ele faz com competetência.

Rodrigo Miallaret, Thiago Perticarrari, Tony Germano, Renato Bellini, Daniel Cabral, Marcelo Vasquez, Andrea Marquee, Sandro Conte, Bruno Kimura, Nathalia Serra, Andreza Meddeiros, Carol Botelho, Ana Araujo, Ingrid Gaigher, Sara Milca e Roberto Justino, são os nomes que abrilhantam também esse espetáculo, não mencioná-los seria uma estupidez.

Se houve alguma coisa podre no reino da Dinamarca segundo Shakespeare, por aqui ainda temos, o Brasil parece uma máquina de fazer coisas podres, politicamente então, mas também tem coisas maravilhosas entre elas nossos artistas de teatro e fazedores das artes cênicas que deixariam esse dramaturgo inglês ALUCINADO.

 

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SERVIÇO

ALGUMA COISA PODRE

Data : 05/04/2024 até 05/05/2024
Local: Teatro Casa Grande
Endereço : Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 – Loja A- Leblon – Rio de Janeiro/RJ
Horário: Quinta às 20h30 | Sexta às 20h30 | Sábado às 19h30 | Domingo às 17h30
Abertura da casa: 1h antes
Classificação etária : 14 anos. Menores a partir de 10 anos entram acompanhados dos pais ou responsáveis. Crianças até 1 ano e 11 meses possuem gratuidade permanecendo no colo do responsável.

Elenco:

  • Marcos Veras como Nick do Rêgo Soutto.
  • Leo Bahia como Nigel do Rêgo Soutto.
  • George Sauma como Shakespeare.
  • Wendell Bendelack como Nostradamus.
  • Rodrigo Miallaret como Irmão Jeremias.
  • Bel Lima como Portia.

Para comprar os ingressos: site EVETIM

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Paty Lopes. Foto: Divulgação.

 


 

 

Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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