POR QUE IBIS LIBRIS

Arte Digital: Chris Herrmann

 

POR QUE IBIS LIBRIS

 

O dia que escolhi o nome Ibis para minha editora é inesquecível para mim. Juntaram-se vários elementos: eu tinha que escolher um nome, pois estava preparando um livro para ser lançado. Ricardo Muniz de Ruiz fez com que eu revisasse e prefaciasse o livro de poesia dele e quando lhe entreguei o prefácio, ele me disse: “Agora, publica para mim?”. Como eu iria fazer um livro sem um selo editorial? Ricardo simplificou: “Então, cria”. Fácil falar. Mas, eu não hesitei. Quando sou desafiada, aceito o desafio. Saí para jantar no dia 11 de março de 2000, com essa finalidade: escolher um nome para minha futura editora.

No meio do jantar, lembrei-me de um livro que meu pai me deu aos 15 anos: eram as cartas de amor de Fernando Pessoa a Ophelia, e nelas ele se assinava como “Seu Íbis” e ela era sua “Íbis-Bebê”. Pronto. Escolhi o apelido de Fernando Pessoa como nome da minha editora. E, ainda por cima, a Ibis é carioca, pois está escavada na face interna do Pão de Açúcar, defronte à Praia de Botafogo, visível sob o sol do meio-dia. Incrível como até hoje pouca gente sabe disso. Vivo explicando para quem me pergunta: “Por que Ibis Libris?”

Fomos à Biblioteca Nacional solicitar o ISBN e lá descobrimos que já existia uma Editora Íbis, em São Paulo, e eu não poderia usar o mesmo nome. Voltamos para casa e meu irmão, que iria diagramar o livro do Ricardo, resolveu o problema: sugeriu Ibis Libris, “os livros da íbis” (Libris é livro em latim).

Daí criamos o logo. Eu queria a íbis egípcia, tal como ela era nas inscrições. Achamos o cartucho do nome de Tutmós, tiramos as outras letras e deixamos só a imagem da ave sagrada. O logo estava pronto. Aí descobrimos que a íbis emprestava sua cabeça ao deus Thot, criador do alfabeto e pai da literatura egípcia. Isso coincidia com o estudo que meu pai fazia sobre a origem do alfabeto desde que morava no Irã e visitou o Egito na década de 1950.

Então, houve várias coincidências: primeiro, Fernando Pessoa me deu o nome a partir do livro que meu pai comprou para mim e a íbis nos trouxe o deus da escrita que ele estudava. Depois, nesse dia 11 de março, fazia 18 anos que meu pai tinha morrido, no Rio de Janeiro. Como se eu tivesse sido levada a juntar todas essas peças para criar o nome e logo da editora.

Por último, Ricardo Ruiz escolheu a livraria do Museu da República, para fazer o lançamento de Poesia Profana, no dia 18 de agosto de 2000. Curiosamente, nos conhecemos um ano antes, numa sexta-feira, 13 de agosto, no mesmo no lugar, durante o evento do Paco Cac, a “Sexta de Palavras”. E o Palácio do Catete, que foi sede do governo até 1960, teve, como primeiro presidente, meu trisavô, Prudente de Moraes. Eu não poderia deixar de notar que minha editora começava na casa onde também tinha morado minha avó Therezinha. Achei essa coincidência um bom presságio.

Ano passado, comemoramos 25 anos da Ibis Libris Editora, com uma grande festa e um lançamento especial da antologia Poemas Cariocas 2025, com 110 poetas, que traz, na capa, a foto do Rio de Janeiro, tirada da Praia de Icaraí, em Niterói, a mesma paisagem usada desde a primeira antologia, de novembro de 2000, segundo livro da editora. A sorte estava lançada.

Fazer uma editora requer um bocado de coragem, pois começamos do nada. Apenas uma ideia, um livro e um selo editorial, e todas as coincidências possíveis que nos permitem seguir em frente.

 

Thereza Christina Rocque da Motta

Março de 2026

 

 

 

Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)

 

 

 

 

com Chris Herrmann

 

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com Thereza Christina Rocque da Motta

 

 

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

One comment

  • Parabéns, Thereza Christina, pela Ibis Libris Editora ! Ela reflete a sua dedicação, a sua competência e a sua coragem! Sou sua editada, tenho orgulho disso! A coleção
    Os melhores poemas escolhidos pelo autor tem os ingredientes para ser um grande sucesso. Longa vida para você e para a editora! Abraço.

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