PERGUNTAS MAIS FREQUENTES (O FAQ DOS LIVROS)

Arte Digital com IA: Chris Herrmann

 

PERGUNTAS MAIS FREQUENTES

(O FAQ DOS LIVROS)

 

Ontem, um autor me perguntou à queima-roupa: “O que é quarta capa?” Eu, num primeiro instante, pensei: “Ora! Todo livro tem e ele não sabe”. Depois, ponderei: “Eu deveria ter dito contracapa”. Mas acho que nem esse termo ele saberia, pois esse publiquês só é usado por editores e autores iniciados, e não iniciantes.

Há palavras que são utilizadas no dia a dia da editora e falamos sem pensar: “Veja o colofon”. “Está na página de crédito”. “Verifique a folha de rosto”. “Não se esqueça da falsa folha de rosto”. “Cheque o sumário” (essa é fácil). “Qual o tamanho da mancha da página?” “Qual a entrelinha?” “Vamos começar a diagramação”. “O projeto gráfico ficou interessante”. “Ficou bom o layout do livro”. Hã?

É como conversa de médico, advogado e economista, só eles entendem. “Falem português!”, diria um autor mais aflito. Então, quarta capa ninguém sabe. É que a primeira capa é a da frente, aí temos a segunda e terceira na parte de dentro do livro e a quarta é a última, de trás… “Ah, por que não explicou antes?”

Hoje, também me perguntaram: “O que é produção editorial?” Parece que estamos falando chinês, não é? É justamente o trabalho de fazer o livro: sem produção editorial, o livro não existe.

Tem pessoas que imaginam que livro é Xerox: “Imprime meu livro aí”, e apertássemos um botão e saísse um livro prontinho do outro lado. É quase isso, mas só depois de ajustar, alinhar, arrumar, checar, revisar e gramar para colocar tudo no lugar, e haja olho para achar todos os errinhos que ficam escondidos atrás de outros, pois vemos um e não vemos o outro logo ao lado.

Quantos mais erros houver num original, mais difícil será pegar todos: um erro sempre acaba passando, que vem desde a primeira digitação do autor e resiste a todas as revisões e passa, invicto, para a impressão, gritando: “Ehhhh, vocês não me pegaram!”

Que coisa!… É o pesadelo de qualquer editor. Há erros pavorosos, que ficam na capa, na contracapa, na orelha, no frontispício (essa é nova, né?), no cabeçalho, na dedicatória, etc., etc., etc.

Não existe edição sem erro. Se não houver erro aparente, haverá algum escondido, que só o editor viu. E ninguém vai saber onde está: só um olho mais experiente conseguirá perceber a discrepância.

Um dos meus livros, Lilases, de 2003, saiu sem erros. Nenhum erro ortográfico. Mas, na hora de imprimir a imagem na segunda e terceira capas (internas), esta saiu de cabeça para baixo. Só eu sabia disso. O livro se esgotou e ninguém percebeu, só se olhassem com muita atenção para ver que um dos quadros da capa estava reproduzido dentro, só que ao contrário.

Isso me convenceu que esses erros só acontecem para nos provar que não somos deuses. Que fazemos livros “quase” perfeitos. Que, para fazer livros perfeitos, é preciso muita, mas muita sorte e competência. Quem lida com edições sabe dos azares que assombram os livros na hora da impressão. Como existe o anjo da impressão, existe o anjo sabotador de impressão. Essa é uma antiga tese minha que vejo toda vez se repetir.

Quando digo a um autor: “Preciso de um texto para a orelha”, ele responde: “O que é orelha?” Os autores novatos me perdoem, mas um pouco de conhecimento editorial na hora de fazer livros é fundamental. Observem os livros à sua volta e descobrirão como fazer o seu, pelo menos, a entender como eles foram feitos.

Podemos evitar falar o publiquês, mas quando entramos na seara de um profissional, temos de chamar as coisas pelo nome que elas têm, e não dá para chamar colofon de outro nome – também é página de fechamento –, mas ninguém chama bisturi de “faquinha” – é bisturi e ponto.

Assim, aprendemos, aos poucos, as palavras que cercam o ofício de publicar – livros são sedutores: eles nos ensinam o que não sabemos, seja lendo ou fazendo-os.

 

Thereza Christina Rocque da Motta

Fevereiro de 2026

 

 

 

 

Colunista ArteCult e editora
da Ibis Libris Editora (@ibislibris)

 

 

 

 

 

 

Author

Thereza Christina Rocque da Motta (São Paulo, SP, 1957) é poeta, editora e tradutora. Foi Jurada de Tradução do Prêmio Jabuti, em 2018. Recebeu a Medalha Chiquinha Gonzaga da Câmara dos Vereadores, em agosto de 2021. Coordena a Ponte de Versos desde 2000, evento incluído no Calendário Oficial de Cidade do Rio de Janeiro, em 2024. Fundou a Ibis Libris no Rio de Janeiro, em 2000. Publicou Joio & trigo (1982), Capitu (2014), Lições de sábado (crônicas, 2015), Minha mão contém palavras que não escrevo (2017), O amor é um tempo selvagem, Lições de sábado Vol. 2 e A vida dos livros Vol. 2 (2018), Poesia Reunida 40 anos (1980-2020), Sheherazade: Novas lendas das 1001 noites e três já conhecidas (2022), entre outros. Traduziu, entre outros, Marley & Eu, de John Grogan (2006), A Dança dos Sonhos, de Michael Jackson (2011), 154 Sonetos, de William Shakespeare (2009), Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e O Corvo, de Edgar Allan Poe (2020), Mais mortais que os homens, org. Graeme Davis (2021) e A última casa da Rua Needless, de Catriona Ward (2023), vencedor do British Fantasy Award, como Melhor Romance de Terror de 2022.

2 comments

  • Thereza Rocque,
    A editora mais exigente que conheci no meio editorial. Com muito conhecimento do ofício, sempre ensinando. Os autores até reclamam mas, no final sabem que receberá o melhor resultado da sua obra para seu público.

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