Para nossa sorte, Zezé Motta no palco

Zezé Motta. Foto:
Divulgação.

 

Bilheteria esgotada, todos querendo assistir Zezé Motta, a mulher de todos os tempos, contando uma história como faziam os griôs: com doçura, imponência e uma força ancestral que se revela nos arrepios em nossas peles.

Após o terceiro sinal, uma música chega aos nossos ouvidos. Pensei ser uma canção mecânica, mas não: ao abrir-se a cortina, a atriz Zezé Motta, aos 81 anos, está de pé, cantando. Após esse “prólogo”, a plateia, ensandecida, aplaude e, com gritos ululantes, a celebra. Não poderia ser diferente.

A canção fala sobre Xangô, o orixá que representa a justiça com seus martelos cruzados. Diante do racismo enraizado no Brasil, ver uma mulher negra protagonizando no palco do Centro Cultural Banco do Brasil, trazendo consigo um histórico e um legado tão potentes, é como testemunhar um pouco dos mistérios da fé.

 

Sinopse

O espetáculo é uma adaptação teatral do livro da Dra. Maya Angelou, o best-seller Eu sei porque o pássaro canta na gaiola, lançado em 1969 e que agora chega ao Brasil com dramaturgia e direção de Elissandro de Aquino.

A história, que se tornou um clássico, é a primeira das sete autobiografias publicadas por Angelou. Em Pássaro, ela apresenta um tocante retrato da comunidade negra dos Estados Unidos durante a segregação das décadas de 1930 e 1940. Nele, parece ecoar o grito silencioso de um pássaro aprisionado, experiência que Maya vivenciou e que a tornou ainda mais forte. Como ela mesma escreveu: “O pássaro engaiolado canta com um trinado amedrontado sobre coisas desconhecidas, mas ainda desejadas…”

Angelou foi múltipla: poetisa, escritora, professora, roteirista, cantora, tradutora, atriz e militante. Conviveu com Malcolm X, James Baldwin e Martin Luther King Jr., tornando-se um dos nomes mais reverenciados do século 20. A peça valoriza a palavra oral, a palavra bem pronunciada, como força capaz de nos salvar da loucura, da tensão e do extremismo da contemporaneidade.

Maya Angelou

Foi a primeira mulher negra a ser roteirista e diretora em Hollywood. Nos anos 1960, tornou-se amiga de Martin Luther King Jr. e Malcolm X, servindo à Conferência da Liderança Cristã do Sul com Dr. King e trabalhando em prol do movimento de direitos civis. Nessa mesma época, viajou pela África, atuando como jornalista e professora, e colaborou com movimentos de independência africanos.

Foi indicada ao Prêmio Pulitzer em poesia, atuou na peça The Blacks, de Jean Genet, e no aclamado seriado Roots, pelo qual recebeu uma indicação ao Emmy.

Dramaturgia e direção

A dramaturgia e direção de Elissandro de Aquino têm a força de um Mertiolate sobre a pele ferida: arde, mas logo vem o sopro materno para aliviar. Assim é o texto — robusto, cruel ao retratar a infância de Maya Angelou, mas suavizado pela musicalidade da voz de Zezé Motta, que funciona como bálsamo.

Aquino, que também escreveu “Eu Amarelo” para a grande Cyda Moreno, parece encontrar nas mulheres a essência certa para um mundo melhor. Em “Vou Fazer de Mim um Mundo”, demonstra esse olhar mais uma vez. Nesta montagem, trouxe uma ficha técnica de excelência e, sobretudo, cuidou da soberana Zezé Motta com a delicadeza necessária, sem ferir o propósito cênico.

Música

Pedro Leal David assina a direção musical, oscilando entre a potência de uma rajada de vento de 138,9 km/h e a leveza de uma brisa que nos toca suavemente, é significante o trabalho por ele proposto. Alterna canções vibrantes e cadências contidas, sempre com precisão.

Ao seu lado, Mila Moura — premiada como melhor atriz — surpreende com sua musicalidade. Canta com maestria, toca percussão com elegância e atua como uma jovem leoa, em harmonia com a leoa maior que protagoniza a obra. Mila me surpreendeu!

Cenário

O cenário é inteligente e afetuoso: coloca Zezé Motta, em idade avançada, em uma poltrona confortável ao centro do palco, ladeada por uma plantação de algodão. Esse detalhe conecta o texto à história, remetendo também ao filme “A Cor Púrpura”, no qual mulheres negras lutam contra as mazelas que enfrentamos ainda hoje, em uma fazenda de plantação de algodão.

A delicadeza do cenógrafo Claudio Partes é evidente, como se pintasse com pincel fino, desenhando uma beleza histórica e simbólica.

Figurinos

Margo Margot assina os figurinos. Os trajes dos músicos unem simplicidade e elegância. Já Zezé veste um longo de suave tom amarelo, referência proposital a Oxum, sua orixá. A túnica larga e de tecido espesso dá imponência sem restringir movimentos — escolha precisa.

Iluminação

A iluminação, assinada por pai e filho De Simoni, é um espetáculo à parte. O pai desenhou uma luz pulsante, e o filho a opera com sintonia perfeita com o texto e os artistas. Resultado: uma luz viva, que respira junto com a cena.

Zezé Motta, soberana

É um prazer escrever sobre Zezé Motta, que narra com sapiência e canta com encantamento. Sabia que seria grandioso — e mesmo que o teatro não estivesse lotado, eu estaria lá.

Zezé me ensinou sobre o teatro negro. No SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), defendeu seus pares quando foram chamados de “crus” por diretores. Atuou em “Roda-“Viva, de Chico Buarque; atuou em “A Moreninha”, “Hamlet”, “Arena Conta Zumbi” (no exterior). Na televisão, começou na TV Tupi; no cinema, foi a inesquecível Chica da Silva.

Jamais aceitou ser “robô” no mercado musical.

Ao lado de Gilberto Braga, discutiu racismo, ascensão feminina e homossexualidade na novela “Corpo a Corpo”. Levou Dandara à avenida com a Vila Isabel no Quizomba.

Zezé é mulher brasileira que costurava com a mãe, que se apaixonou pela música ao ouvir as canções que tocava para o pai economizar com partituras.

De todas as mulheres citadas, ela é aquela que também conta histórias alheias com maestria, porque carrega em si mundos inteiros. Talvez por isso os ingressos se esgotem tão rápido.

Agradecimento

Agradeço ao Centro Cultural Banco do Brasil pelos convites, à recepcionista Vanessa e aos socorristas do espaço cultural. Ao chegar, vivi um susto com a pressão arterial elevada, mas fui atendida com cuidado e responsabilidade. Fica minha gratidão a todos os profissionais.

 

Ficha Técnica

Do original “Eu sei porque o pássaro canta na gaiola”, de Maya Angelou
Com Zezé Motta
Dramaturgia e Direção: Elissandro de Aquino
Direção Musical: Pedro Leal David
Direção de Produção: Clara Bastos
Produção Zezé Motta: Vinicius Belo
Músicos: Mila Moura e Pedro Leal David
Stand in: Mila Moura
Cenografia: Claudio Partes
Figurino: Margo Margot
Iluminação: Aurélio de Simoni
Preparadora Corporal: Cátia Costa
Preparadora Vocal: Dafinne Santiago
Design, Comunicação e Artes Gráficas: Partes Estúdio
Fotos Divulgação: Wagner Loiola
Cabelo e Maquiagem: André Florindo
Assessoria de Imprensa RJ: Outra Atividade Produções
Montagem:
#interna #Pública
Operador de Som:
Operador de Luz:
Costureira: Maria de Fatima Monteiro Gestão de Projeto: Cris Moreira
Gestão financeira: Graziane Gonçalves
Consultoria Jurídica: Alessandra Ulrich
Produção: Viramundo

 

SERVIÇO

Vou Fazer de Mim um Mundo

Temporada: de 15 de agosto até 05 de outubro – Sexta e Sábado, às 19h e domingo às
18h
Local: Teatro I
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 60 minutos
Ingressos: R$30 (inteira) e R$15 (meia-entrada), disponíveis a partir de 04/08 (quarta),
no site bb.com.br/cultura e na bilheteria do CCBB Rio de Janeiro.
Acessibilidade em Libras em todas as sessões
Audiodescrição na sessão do dia 27/09, sábado
Bate-papo pós sessão do dia 13/09, sábado
Estudantes, maiores de 65 anos e Clientes Ourocard pagam meia entrada

Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

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Author

Dramaturga, com textos contemplados em editais do governo do estado do Rio de Janeiro, Teatro Prudential e literatura no Sesi Firjan/RJ. Autora do texto Maria Bonita e a Peleja com o Sol apresentado na Funarj e Luz e Fogo, no edital da prefeitura para o projeto Paixão de Ler. Contemplada no edital de literatura Sesi Fiesp/Avenida Paulista, onde conta a História de Maria Felipa par Crianças em 2024. Curadora e idealizadora da Exposição Radio Negro em 2022 no MIS - Museu de Imagem e Som, duas passagens pelo Teatro Municipal do Rio de Janeiro, com montagem teatral e de dança. Contemplada com o projeto "A Menina Dança" para o público infantil para o SESC e Funarte (Retomada Cultural/2024). Formadora de plateia e incentivadora cultural da cidade.

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