
Não somos eternos nem soberanos de nenhum ser vivente
“Não somos mais que uma gota de luz
Uma estrela que cai
Uma fagulha tão só na idade do céu
Não somos o, o que queríamos ser
Somos um breve pulsar
Em um silêncio antigo com a idade do céu”
(Trecho da música A idade do céu[1])
No artigo de hoje, o primeiro deste novo ano, vou trazer alguns fragmentos do filósofo Epicuro de Samos (341 a.C.), sobre suas teorias em torno da Física (do grego φύσις – physis: natureza) e de como se compõe. Do pensador temos poucas obras remanescentes – embora sua produção bibliográfica tenha sido intensa – quase tudo se perdeu. Temos apenas três cartas: Carta a Heródoto[2], onde fala da física e do atomismo; Carta a Pítocles, sobre os fenômenos celestes; a Carta a Meneceu ou Carta sobre a felicidade e as Sentenças vaticanas, com breves frases do filósofo sobre os mais variados temas.
Epicuro nasceu na ilha de Samos, numa família simples. Viveu de modo igualmente humilde. Estudou filosofia e fundou sua primeira escola na cidade de Lâmpsaco (310 a.C.). Por suas ideias “revolucionárias” conquistou muitos alunos e dois deles (Leontes e Idomeneu) financiaram a abertura da sua Escola-Jardim nos arredores de Atenas por volta de 306 a.C. Um local diferente para uma escola de Filosofia, com jardim, horta (eles plantavam o que comiam) e aberto a todas e todos que quisessem estudar e debater temas do cotidiano com o mestre de Samos.
A época de Epicuro foi de profundas transformações sociopolíticas para a Grécia, após a morte de Alexandre da Macedônia, com a fragmentação geoeconômica e como pano de fundo a crise de valores ético-morais. A Filosofia foi, digamos, o ‘bote’ anti naufrágio humano. O pensamento epicurista, naquele momento histórico surge como um verdadeiro ‘farol’ da filosofia antiga, quando retoma as ideias do atomismo e do cinismo. Epicuro, com seu ‘martelo filosófico’, propunha uma mudança de pensamento para uma atitude ética da imanência, em detrimento da transcendência das outras escolas. O filósofo ensinava que não há uma posteridade e enquanto cada humano estiver vivendo não precisa temer a morte, nem temer os deuses. Para ele, o tempo de agir, ser e pensar é agora e aqui – não há um devir. Um verdadeiro levante de pensamento, e por isso, o indivíduo deve buscar realizar-se (satisfazer-se) neste tempo presente. Não há posterioridade.
E por isso, como forma de aconselhamento indicativo, o filósofo de Samos nos fala para não deixarmos escapar este instante, como na Sentença[3] número quatorze:
“Nascemos só uma vez, não é possível nascer duas vezes, teremos de não ser por toda a eternidade. Tu, porém, que não és de amanhã, postergas tua alegria; mas a vida se desperdiça com a demora e cada um de nós morre envolvido em seus afazeres.” (p. 23).
E assim, a ocasião propícia τό χαίρον (tó khairon) para a felicidade é aqui e agora. Porque não devemos sabotar o que temos à disposição. E com uso da razão, tentarmos uma resposta à pergunta feita na música O último dia, do compositor brasileiro Paulinho Moska[4]:
“O que você faria se só te restasse esse dia? Se o mundo fosse acabar. Me diz o que você faria”. O que você faria?
Na Carta a Heródoto o filósofo se endereça a seu discípulo para lhe falar sobre os princípios que formam a natureza. Inicialmente ele afirma que:
“Diga-se em primeiro lugar que nada é gerado do não ser; do contrário, tudo poderia ser gerado de tudo e nada precisaria de sementes.
[…]Ademais, o todo sempre foi tal como agora é, e sempre tal será; pois nada há em direção ao qual se transforme; porque para além do todo, nada há que possa lhe penetrar e produzir a mudança.
E ainda o todo consiste em corpos e vazio.” (FR 39[5]).
O que podemos apreender da Física epicurista? Quais as questões éticas relativas? Muito e muitas são as respectivas respostas! De saída a questão da dissolução de toda a matéria, exceto o Todo, que é ilimitado. Mais adiante, ele afirma:
“os átomos movem-se continuamente. <Escólio> E isso eternamente […].” (FR 43).
Ou seja (repito): nada dura, exceto o Todo composto de átomos e vazios. A Física atomista de Epicuro destrona todo tipo de hierarquia, porque diante da finitude não há soberania. Por isso novamente a pergunta: “o que você faria se só lhe restasse esse dia?”. Este princípio da Física abriga profundas reflexões éticas:
- O que estou fazendo enquanto estou aqui?
- Como estou agindo comigo e com meus semelhantes?
- Por que tanta pré-ocupação?
- Por que tanto ódio/raiva nas relações?
- Por que vemos tanto ressentimento?
São muitas as questões éticas emaranhadas neste princípio do átomo, a menor unidade da natureza, que já tinha sido estudada por Demócrito de Abdera (século V a.C.). E mais adiante, na Carta, Epicuro afirma que:
“Deve-se admitir ainda que os átomos não levam nenhuma qualidade das coisas que se mostram, […]
Pois toda qualidade muda; os átomos por sua vez em nada mudam,
[…]
Donde é necessário ser indestrutível e de natureza imutável […].” (FR 54).
O mestre de Samos, como um bom professor, de modo muito pedagógico, volta e repete para Heródoto suas teses fundamentais (e que felizmente temos a chance de acessá-las). Não somos eternos, e por isso o chamamento para a destituição da pseudo superioridade diante de qualquer ser vivente. Ele usa outro verbo muito forte, que é o ‘abster-se’ (απέχω – apékhô) para nos ensinar que uma vida serena e tranquila é quando a alma afasta-se do que nos perturba, nos desconcerta. É a tal da ATARAXIA (αταραξία – ataraksía): imperturbabilidade da alma, tão ensinada pelas escolas do helenismo.
Já ao final da Carta, o filósofo diz:
“[…] nada em absoluto há na natureza, incorruptível e bem-aventurada submetendo-se à decisão ou a qualquer perturbação. E que esse é absolutamente o caso, pode-se captar pelo pensamento.” (FR. 78).
E ainda sobre o exercício (cotidiano) de tentar caminhar e agir serenamente, ele nos ensina que:
“a principal perturbação nas almas humanas se engendra no ter opinião de que são bem-aventurados e incorruptíveis, mas simultaneamente têm vontades, ações e motivos contrários àqueles atributos, e também, seguindo os mitos, no suspeitar ou esperar algo eterno terrível, ou temendo ainda a perda da própria sensibilidade no morrer, como se isso pudesse atingi-las, e no padecer tudo isso não por opiniões, mas por propensão irracional, donde, não limitado o terrível, colher igual ou mais prolongada perturbação do que se isso viesse de opiniões. A tranquilidade de alma é o libertar-se disso tudo e continuamente ter memória de todos os principais fatos.” (81-82) (FR. 81-82).
Ou seja, devemos entender (pelo logos) que não somos eternos, somos falíveis e finitos e por isso devemos (re)pensar reiteradamente como estamos sendo e agindo conosco e com os semelhantes viventes (qualquer outro). E livrar-se das inquietudes e dos maus afetos, porque o ódio e o rancor não promovem nada de bom. De um sentimento ruim emana tão somente um mau afeto. Já o amor, não: vem do Bem e gera bons afetos relativos, como canta Legião Urbana em Monte Castelo[6]:
“É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja ou se envaidece”
Encerro este primeiro artigo do ano desejando que cada dia de 2026 lhe apresente dias de bons afetos e que possamos refletir nosso modo de ser e agir, considerando nossa fragilidade material diante do Todo.
Deixo o trecho de uma música (Tolerância[7], de Ana Carolina) para embalar seu exercício filosófico:
“É que o amor é soberano
E supera todo engano
Sem jamais perder o elo
[…]”
E olha o título da canção: tolerância! Fica a dica.
Um abraço fraternal e até o próximo artigo na ArteCult.
[1] Compositores: Jorge Abner Drexler Prada / Paulo Correa De Araujo. Letra de A idade do céu © Ediciones Sea S.l., Ediciones Sea, S.l.
[2] A versão que utilizo aqui é: EPICURO. Carta a Heródoto. Tradução e apresentação Maria Cecília Gomes dos Reis. São Paulo: Penguin Companhia das Letras, 2020.
[3] EPICURO. Sentenças vaticanas. Tradução e comentários João Quartim de Moraes. São Paulo: Edições Loyola, 2014.
[4] Billy Brandão e Paulinho Moska. O último dia. Rio de Janeiro: EMI-Odeon: 1995.
[5] A numeração se refere à uma codificação internacional convencionada. Em qualquer idioma o fragmento será o mesmo. A Carta a Heródoto vai do número 35 ao 83.
[6] Composição: Renato Russo.
[7] Compositores: Ana Carolina De Souza / Antonio Villeroy











Que texto gostoso pra abrir o ano! Acessível, profundo e generoso, com intertextualidades interessantes e populares.
Lembrei de Fernando Pessoa também. Em Ricardo Reis e Alberto Caeiro há algo do epicurismo…também dessa ataraxia de que vc fala. Um é mais melancólico, o outro mais intenso mas ambos tocam no mote da busca pelo prazer diante da brevidade da vida.