MORTE EM MINICONTOS: Jorge Ventura lança “Libitina: elegias e alguns infortúnios”

O escritor Jorge Ventura. Foto:Vanessa Angelo

 

No próximo dia 18 de setembro, o PEN Clube do Brasil recebe o lançamento de Libitina: elegias e alguns infortúnios, novo livro do escritor Jorge Ventura, publicado pela Ventura Editora. A obra reúne 30 minicontos em que o autor mergulha na temática da morte sob diferentes ângulos — do trágico ao risível, do poético ao irônico — revelando um olhar agudo sobre a finitude. No pequeno volume, Ventura mistura elegia e sarcasmo para retratar o destino inexorável do ser humano. A morte aparece como presença cotidiana: ora inesperada e absurda, ora delicada e até cômica. “Nem toda morte é fim, algumas viram literatura”, resume uma das resenhas da obra. Entre quedas banais, partidas silenciosas e ironias do destino, os contos expõem a vida em seu aspecto mais frágil — e, paradoxalmente, mais surpreendente. Escritor, roteirista, ator, editor, jornalista e publicitário, Jorge Ventura é presidente da APPERJ, titular do PEN Clube do Brasil, membro da UBE-RJ e integrante do grupo Poesia Simplesmente. Com 13 livros publicados e participação em dezenas de antologias no Brasil e no exterior, Ventura tem poemas traduzidos para o inglês, o francês, o espanhol, o italiano e o grego, além de prêmios nacionais e internacionais como autor e intérprete. Em Libitina: elegias e alguns infortúnios, seu estilo enxuto e mordaz encontra no miniconto um espaço privilegiado para revelar a ironia e a delicadeza que podem nascer do confronto com a “indesejada das gentes”.

 

O ArteCult conversou com Jorge Ventura sobre o lançamento de Libitina: elegias e alguns infortúnios e outro temas. Confira:

César Manzolillo (ArteCult): Jorge, você é conhecido pelo seu trabalho na poesia. Esta investida no gênero prosa significa um marco em sua trajetória?

Jorge Ventura: Certamente. Apesar de, no dia a dia, dedicar-me muito mais à produção poética, eu reúno crônicas e contos que já foram publicados em muitas coletâneas, e, por incrível que pareça, alguns textos chegaram a ser laureados, porém eu nunca havia lançado  uma obra solo em prosa. Por esse motivo, Libitina: elegias e alguns infortúnios tem um significado especial para mim.

 

AC: Por que o tema “morte”?

JV: Sabemos que é um tema recorrente na literatura, mas confesso que jamais imaginei escrever, especificamente, sobre a morte. Não descarto a possibilidade de meu texto ter se tornado mais lírico-dramático após a pandemia de covid-19. As perdas que eu tive me impactaram de modo determinante.

 

AC: O título do livro se refere à deusa romana senhora dos funerais. De onde veio a ideia de Libitina?

JV: Me vieram à mente vários títulos, mas nenhum deles havia me agradado. Recorri, então, à mitologia romana para buscar um nome que simbolizasse a morte como elegia, ao mesmo tempo que simbolizasse o mistério como infortúnio. Pesquisei e cheguei a Libitina, a deusa dos funerais. Uma figura que traz o soturno como encantamento. Era o nome que eu precisava. O primeiro a saber do título foi o amigo escritor e intelectual Márcio Catunda. Ele gostou e aprovou sem mesmo ter lido a obra.

 

AC: É fato inconteste que, na atualidade, o gênero miniconto se encontra em alta. Na sua opinião, que características um bom miniconto deve apresentar?

JV: Para mim, o diferencial está na concisão do texto. No mais, um miniconto deve apresentar as mesmas características de um conto: narratividade bem construída, intensidade no enredo e, na medida do possível, um desfecho surpreendente e aberto (subtexto) para que o leitor tenha a liberdade de imaginar o destino dos personagens ou de concluir a história. Mas nem sempre isso ocorre. Vai de cada autor ou autora a escolha de seguir ou não a cartilha do conto tecnicamente perfeito. O que prevalece, a meu ver, é uma história bem contada, ainda que de modo sintético.

 

AC: Fale um pouco sobre o tratamento visual do livro: páginas pares (pretas) e páginas ímpares (brancas).

JV: Este livro foi escrito, durante o feriado do Carnaval 2025, literalmente, da noite para o dia, como um ato de sublimação. E a composição do seu projeto gráfico funcionou da mesma forma, com muita entrega, criatividade e rapidez. Cada detalhe do livro foi pensado, mas sem muito esforço ou demora. A ideia da capa, que apresenta uma árvore (símbolo da vida) com galhos secos sobre o fundo escuro (luto), com laminação fosca e letras góticas (e o realce da impressão hot stamping), foi bem assimilada e executada pelo meu capista e diagramador Victor Marques. No miolo, os 30 microcontos numerados e não intitulados são expostos nas páginas ímpares com letras pretas sobre um fundo acinzentado e alguns arabescos como elementos visuais, por sugestão do Victor. Nas páginas pares, fundo preto intercalando os textos e, a cada conjunto de dez microcontos, uma ilustração variada com a figura mitológica de Libitina desenhada por Waldez Duarte. A combinação do preto com o branco, o cinza e os detalhes em prata dá o toque fúnebre. A premiada escritora Raquel Naveira, que esteve presente no meu lançamento, em São Paulo, elogiou bastante o tratamento visual.
Segundo ela, cada página do livro é como se fosse um túmulo. Acredito, portanto, que o projeto gráfico tenha sido bem-sucedido.

 

AC: Um dos textos da obra é uma homenagem póstuma ao poeta Antônio Cícero. Comente algo acerca desse conto.

JV: Na verdade, a morte assistida do poeta, filósofo e letrista Antônio Cícero nos trouxe muitas reflexões sobre o assunto. Uns aceitaram a decisão dele, outros não. Fiquei imaginando se as leis, no Brasil, permitissem esse procedimento, como seria o comportamento da chamada “família tradicional brasileira”. O fato me serviu de inspiração e eu adaptei a história para um diferente contexto, transformando-a em uma espécie de homenagem póstuma a Antônio Cícero.

 

AC: Planos futuros: o que vem por aí nos próximos meses?

JV: Eu costumo dar um intervalo de um a dois anos para lançar um novo livro de cunho literário, porém minha produção textual não para. Pretendo, em 2026, lançar dois livros – um em cada semestre –, que são dois estudos jornalísticos ligados ao universo da cultura pop e retrô. Para quem acompanha a minha trajetória, será um deleite.

 

Vamos ver agora o que críticos e escritores estão dizendo sobre  Libitina: elegias e alguns infortúnios:

 

Em Libitina, Ventura lança um olhar poético e mordaz sobre a morte — não para contestar seu poder, mas para refletir sobre suas muitas formas. Algumas mortes são simbólicas, outras trágicas, muitas patéticas e até risíveis. O resultado é um pocket livro que mescla elegia e ironia, oferecendo ao leitor um retrato sensível e, ao mesmo tempo, inquietante da finitude. (Alexandre Brandão, poeta, contista e autor da orelha da obra)

 

COM AS BÊNÇÃOS DE LIBITINA, EIS A PROSA MORTÍFERA DE JORGE VENTURA

A literatura se alimenta de temas que conjugam o caráter universal e o atemporal em todas as línguas do mundo. A morte é um desses temas e, por si só, pode provocar (e provoca) desconforto nas pessoas, razão pela qual escritores ora lhe atribuem uma personificação em títulos de romances como Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis e A morte e a morte de Quincas Berro d’Água, Jorge Amado, ou em A morte de Ivan Ilicht, Lev Tolstói, isso para citar a literatura brasileira e a russa; ora o evento morte surge em abordagem interna em romances ou peças como é o caso de Dona Flor e seus dois maridos, também de Jorge Amado. (Luiz Otávio Oliani, poeta, escritor e crítico literário)

 

Ilustração de Waldez Duarte

 

NEM TODA MORTE É FIM, ALGUMAS VIRAM LITERATURA

Eis o cortejo inusitado de minicontos, em que o luto dança com o riso e a tragédia flerta com o deboche, histórias curtas, mas profundas como covas bem feitas. Entre tropeços fatais, partidas inesperadas e ironias do destino, surgem reflexões delicadas sobre o tempo, o luto, amor, sexo, família, infância e a beleza escondida até no último suspiro. Neste livro, a deusa romana dos funerais — Libitina — não veste preto nem carrega foice, mas traz seu nome no título da obra com a diligência de quem observa tudo de camarote. Assiste, impassível, ao desfile das fatalidades humanas sob a compostura de quem já viu de tudo, com uma taça de sarcasmo na mão e olhos cheios de zelo pela lavra que representa. (Val Mello, poeta, escritora e ilustradora)

 

Em Libitina: elegias e alguns infortúnios, Jorge Ventura reuniu 30 minicontos, em que nos diz da onipresença de Tânatos. Com sua versatilidade expressiva, o autor faz-nos lembrar do deus Shiva, de múltiplos braços e rostos, que suscita na mente humana uma espécie de alucinante obsessão. O somatório das circunstâncias descritas neste livro está a nos provar que a morte nos espreita de todas as janelas, de todos os ângulos e de todos os prismas. Ela nos impõe, permanentemente, um jogo que tem início, meio e fim. A vitória se confunde com a derrota, aceitemos ou não as regras desse embate. Augusto dos Anjos apreciaria, certamente, o registro implacável deste macabro memorial de Jorge Ventura. Manuel Bandeira atestaria que o poeta de Libitina definiu, com perfil indelével, as mil faces da ¨indesejada das gentes¨. (Márcio Catunda, poeta, escritor e ensaísta)

 

Ilustração de Waldez Duarte

 

LUTO, ADVERSIDADE, AZAR, FATALIDADE, TRAGÉDI,A, DESGOSTO, PERDA, CALAMIDADE…

A morte ronda, esperando sua vez de atuar. Mas, quem encena grandemente este livro é Jorge Ventura, a exemplo de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa), que escreveu, na noite de 8 de março de 1914, os 49 poemas do livro O guardador de rebanhos. Jorge teve a perspicácia de, num só fôlego, escrever, não poemas, mas 30 minicontos dignos da apreciação do mais exigente leitor. Recebo Libitina: elegias e alguns infortúnios e me surpreendo, logo no primeiro conto, quando um inofensivo “barulhinho de ventilador” leva um sonho “pelos ares”. Sigo lendo initerruptamente e, a cada página, sou tomada pelos mais diversos sentimentos: admiração, espanto, assombro, fascinação, estranheza, arrebatamento, choque… (Sonia Maria Mazzei, poeta e contista)

 

Desde que nascemos, somos assombrados pela perspectiva da morte. Crentes e ateus sempre se perguntam: Se foi para tirar, porque é que nos deram a vida. E todos acham, por mais percalços que passem, que ela é muito curta. Jorge Ventura, neste pequeno livro, sintetiza (claro, são minicontos), várias situações em que nos confrontamos com a morte que seriam cômicas, não fossem trágicas. Escrever minicontos não é fácil, exige uma habilidade especial de dizer muito com poucas palavras. Jorge complicou mais ainda essa tarefa ao escolher um tema difícil que, embora inevitável, não gostamos muito de comentar. E ele se saiu muito bem, vocês vão ver, é uma leitura leve e, ao mesmo tempo, profunda sobre o que é a vida. E o que é a vida, afinal? Apenas um miniconto. (Silvio Ribeiro de Castro, poeta, contista e cronista, integrante do grupo Poesia Simplesmente)

 

Ilustração de Waldez Duarte

 

Jorge Ventura, em Libitina: elegias e alguns infortúnios, reúne pequenos textos que transcendem o espaço da página e caem no colo dos leitores para evidenciar o quão surpreendente é a vida. A leitura desse livro nos conduz à reflexão sobre o inusitado, o cotidiano e o aparentemente simples desfecho do percurso humano. Ironicamente, a “indesejada das gentes”, a cada texto, executa seu trabalho. E sempre sai vitoriosa. Ventura, em Libitina, proporciona uma pausa para confrontar o homem com seu destino inexorável, deslocando-o de uma situação confortável para o desconforto do seu reflexo no espelho de si mesmo. (Claudia Manzolillo, poeta, contista e revisora)

 

“Em Libitina, Ventura lança um olhar poético e mordaz sobre a morte — não para contestar seu poder, mas para refletir sobre suas muitas formas. Algumas mortes são simbólicas, outras trágicas, muitas patéticas e até risíveis. O resultado é um pocket livro que mescla elegia e ironia, oferecendo ao leitor um retrato sensível e, ao mesmo tempo, inquietante da finitude.” (Alexandre Brandão, Poeta, contista e autor do do texto de orelha do livro)

 

 

LIBITINA: ELEGIAS E ALGUNS INFORTÚNIOS

  • Autor: Jorge Ventura
  • Revisão: Claudia Manzolillo
  • Ilustrações: Waldez Duarte
  • Diagramação e capa: Victor Marques
  • Orelha: Alexandre Brandão
  • Prefácio: Almir Zarfeg
  • Foto do autor: Vanessa Angelo

Conselho Editorial da Ventura Editora:

  • César Manzolillo
  • Claudia Manzolillo
  • Rivane Oliveira

 

SERVIÇO:

Lançamento de Libitina: elegias e alguns infortúnios, de Jorge Ventura

Mesa-redonda com o autor e convidados: Claudia Manzolillo, Renata Quiroga e Alexandre Brandão

  • QUANDO: 18 de setembro de 2025, das 17h às 20h
  • ONDE: PEN Clube do Brasil (Praia do Flamengo, 172/11º andar – Flamengo – Rio de Janeiro)

SERVIÇO:

Jorge Ventura. Foto: Vanessa Angelo

Jorge Ventura é escritor, roteirista, editor, ator, jornalista e publicitário. Possui 13 livros publicados e participa de dezenas de coletâneas e antologias nacionais e estrangeiras. É presidente da APPERJ, titular do Pen Clube do Brasil, membro da UBE – RJ e um dos integrantes do grupo Poesia Simplesmente. Recebeu diversos prêmios, em nível nacional e internacional, como autor e intérprete. Alguns dos seus poemas foram vertidos para o inglês, francês, espanhol, italiano e grego.

@jorgeventura4758

 

Mais informações sobre o Livro

Título: Libitina – Elegias e alguns infortúnios

  • Autor: Jorge Ventura
  • Formato: 15cmx10cm
  • Miolo: 80 páginas
  • ISBN: 978-65-85705-37-0
  • Selo: Ventura Editora
  • Ano de publicação: 2025

 

 

Author

Carioca, licenciado em Letras (Português – Literaturas) pela UFRJ, mestre e doutor em Língua Portuguesa pela mesma instituição, com pós-doutorado em Língua Portuguesa pela USP. Participante de 32 coletâneas literárias. Autor do livro de contos "A angústia e outros presságios funestos" (Prêmio Wander Piroli, UBE-RJ). Professor de oficinas de Escrita Criativa. Revisor de textos. Toda quinta-feira, no ArteCult, publica um conto em sua coluna "CONTO DE QUINTA", que integra o projeto "AC VERSO & PROSA" junto com Ana Lúcia Gosling (crônicas) e Tanussi Cardoso (poemas).

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