Mitologias pelo mundo, além da grega: a história de todos nós – Parte I

                                                                                                                                                                              

Quem não lê, aos 70 anos terá vivido só uma vida.
Os que leem, terão vivido cinco mil anos. Ler é uma imortalidade de trás para a frente.
Umberto Eco (1932-2016), filósofo, semiólogo, escritor e bibliófilo italiano

 

Este é o artigo inicial, de uma nova série que venho aqui, inaugurar, no Portal ArteCult, onde já escrevi sobre temas variados na minha coluna, como três sequências: a temática da primeira foi a vida em geral e as religiões; a segunda versou sobre três histórias da Mitologia Grega, quando interpretei algumas narrativas helênicas à luz do triste e nefasto momento histórico político brasileiro de 2016 a 2022 – felizmente, por hora, e sem baixar a guarda, nos livramos, em parte, de maiores autoritarismos e a terceira teve como tese central a ideia de que o Espaço Geográfico é, além de bidimensional, em termos existenciais, por assim dizer, uma mercadoria e um objeto artístico.

Em dezembro último, escrevi um texto autobiográfico para explicar meu momento de vida que, talvez, para quem leu, tenha sido de valia, pelas reflexões que fiz e que, com o referido texto, procurei dividir com você, querida leitora, prezado leitor. Agora, com esta nova sequência de artigos, retomo, com prazer, minha participação neste portal de cultura e de vida, com uma série de textos em que visei a busca por mitologias pelo mundo.

Há quem ouça ou leia a palavra “mitologia” e ache, por desinformação, talvez, que este gênero literário de explicação da vida se refere, apenas, aos gregos antigos. Engano. Mitos são comuns a todos os povos deste mundão. Longe de ser um especialista no assunto, busquei pesquisar algumas narrativas cosmogônicas de vários povos do planeta para trazer ao seu conhecimento, aqui e ali, procurarei, onde, se e quando considerei cabível, realizar e dividir algumas poucas observações e reflexões as quais, espero, possam ser de alguma valia para você (tal como fiz com a trilogia sobre a mitologia grega e com a quadrilogia sobre espaço e arte).

Essas pesquisas estão facilmente acessíveis a qualquer um, seja na rede mundial de computadores, popularmente conhecida como “internet” ou “www” e aqui, tanto, em parte, nos famosos “google/wikipedia”, quanto em artigos de, aí sim, estudiosos que se aprofundaram no assunto e que utilizei, ambos, para compor esta compilação que ora levo a você, com o carinho de um apaixonado por mitologias. Minha pesquisa foi uma busca, reforçando, pela rede mundial de computadores, garimpando, por assim dizer, notícias e textos sobre mitologia. Optei por não citá-los, diretamente, nestes textos que ora começo a publicar aqui, no Portal ArteCult, porque foram muitos, mas se você desejar, pode buscar, porque são de fácil acesso. Pesquise também, compare com o que vou lhes trazer daqui para frente; é um exercício delicioso de estudo e reflexão sobre a vida e sobre nós mesmos. Além disso, sim, fiz algumas consultas em alguns dos livros que, ao final de cada parte deste grande artigo, indico como sugestão bibliográfica.

Procurei ser o mais criterioso possível, tentando aferir, aqui e ali, até onde consegui e quando achei necessário, se o que pesquisei correspondia ao que é narrado em cada mitologia, usando o método comparativo, ou seja, lendo mais de um texto para cada história, quer dizer, procurando artigos e fontes alternativas que também pareceram confiáveis. Pode haver, claro, algumas inconsistências; talvez, admito, algumas omissões, até. Porém, no geral, creio que o resultado foi positivo e pode servir, como uma fonte, ao menos razoável, de conhecimento e de algum prazer para você, querida leitora, prezado leitor, como foi para mim. Ficará, entretanto, por óbvio, esta avaliação, ao seu critério.

Dos mitos e das vidas

Mitologia é uma palavra formada pela aglutinação do grego “mythos” (mito; lenda; história) e “logos” (saber; conhecimento), ou seja, mitologia significa algo como “conhecimento/sistematização das lendas/histórias”. Mais aprofundadamente, mito é um relato fantástico de uma tradição local, normalmente, protagonizada, a história, por seres que encarnam forças da natureza e/ou sobrenaturais, sempre visando aspectos gerais da cosmogênese e da vida em geral, e da humana, em particular; também pode ser entendida como uma narrativa de tempos e feitos heróicos, mais ou menos fantasiosos, porém, muitas vezes, com alguma base em fatos reais. Na Astronomia, Cosmogênese, palavra que originou o termo “Cosmologia”, é o estudo da origem do Cosmos ou do Universo; já na Filosofia, igualmente com o termo (também) derivado “Cosmogonia”, levou à palavra “Cosmogênese”, que é o estudo do conjunto de teorias e princípios das lendas/mitos (e mesmo de todas as coisas).

O mito se estabelece, assim, por algo que é contado de geração em geração e essa informação se perpetua porque acaba fazendo parte da cultura de um povo, constituindo-o e identificando-o, para si mesmo e perante os demais povos. Quando este epifenômeno de antropofagia cultural acontece, o fenômeno mitológico deixa de ser, apenas, um sistema de crenças, embora também deste modo permaneça, para se transformar, simbolicamente, naquilo que colabora, decisivamente, para manter unido todo o sistema social que valora a cultura popular, naquilo que faz este povo ser o que é e não outra coisa, naquilo que faz com que as pessoas vivam do modo como vivem, com seus hábitos e princípios, e não de modos distintos. Perder esta força é apequenar-se, aculturando-se. A mitologia, na medida em que se transforma em cultura, deixa, em outras palavras, de ser um sistema imaterial de crendices, para ser um mecanismo de materialização das sociedades que, assim, constroem, historicamente, seus espaços de vivência, seja nas paisagens (naturais e artificiais), seja na vida social.

Além da História, da Filosofia e da Arqueologia, a Psicologia Analítica é um campo do saber que estuda os mitos e suas relações com vários de nossos conceitos, dentre outros, como “arquétipos, símbolos e inconsciente coletivo”. Um dos fundadores deste campo do saber humano, junto com outros estudiosos, como o austríaco Sigmund Freud (1856-1939) e o francês Jacques-Marie Émile Lacan (1901-1939), foi o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961); todos os três, médicos. Arquétipos, assim classificados originalmente por Jung no livro “A natureza da psique”, de 1960, seriam estruturas da psiquê pré-racional humana, sem um conteúdo específico, “herdadas” desde os mais remotos tempos; Jung as chamava de “impregnações de experiências típicas e passadas”. Esses arquétipos, padrões simbólicos e inconscientes do Homem, presentes no que chamamos de “imaginário coletivo” e que, comuns, alguns deles, à humanidade, nos identificam como espécie, não estariam prontos, digamos deste modo, no nascimento de cada indivíduo, mas haveria predisposições genéticas e psíquicas para que fossem e sejam “acionados”, coletivamente, de acordo com o contexto histórico-espacial e cultural de vida de cada ser e de cada sociedade. Vejamos alguns exemplos presentes no que podemos chamar de “inconsciente coletivo” de povos e culturas diferentes.

Primeiro exemplo: o Mito de Lilith

Lilith. Reprodução Internet

A história desta espécie de ente feminino (demoníaco, em algumas versões, as mais usuais; um tanto angelical, em outras) é, originariamente, babilônica/sumeriana, remontando, até onde se sabe, há aproximadamente 3.000 anos a.C., e foi incorporada pela tradição judaico-cristã. Para os babilônicos, Lilith foi uma prostituta do Templo de Ishtar ou Inanna (Deusa Mesopotâmica do Amor, da Fertilidade, da Guerra e da Vingança e que tinha como inimiga a própria irmã, a Deusa do Submundo, Ereshkigal), que seduzia os homens e os levava à perdição; ela era associada à lua, ao adultério, à morte, ao aborto e às doenças sexualmente transmissíveis. Lilith teria sido, na origem, a primeira mulher (e a primeira ex-mulher!) do mundo, antes mesmo de Eva; teria sido a primeira mulher de Adão e também teria sido feita do pó da terra. Se Litith também veio do barro, como Adão, a mulher tem a mesma origem e, portanto, deveria estar em pé de igualdade do que o homem; se veio de sua costela, mostra origens diferentes e, deste modo, passível de ser inferiorizada.

Contudo, logo nos primeiros atos sexuais, ela teria se recusado a ficar, sempre, por baixo do parceiro, alegando que também poderia e queria ficar por cima (olha a busca pela igualdade aí!). Adão não gostou da ideia e, após várias discussões, e com o apoio de Deus à Adão, Lilith decidiu ir-se embora do Paraíso; Adão pediu a Deus que a trouxesse de volta, mas ela teria se recusado a retornar (em uma das versões, ela teria sido condenada a fazer 100 abortos por dia, em face da desobediência). Para que Adão não ficasse sozinho, de sua costela, Deus teria criado Eva. Adão teria dito algo como “essa sim”, posto que Eva o obedecia, notadamente durante o sexo. Como vingança por ter sido substituída, Lilith teria se transformado em uma serpente para fazer Eva comer a maçã proibida, que representava, então, o fruto da sabedoria. Em outra versão, importante registrar, a mais recorrente, a serpente seria o próprio demônio (Lucifer; “luz de Deus” ou “portador da luz de Deus”) disfarçado.

Na tradição hebraica, a palavra “Lilith” é, muitas vezes, traduzida por “criatura noturna”. Em outras versões, Lilith, ao abandonar Adão, teria casado com Samael, anjo decaído, junto com Lucifer, porque ele a deixava ficar por cima (e em outras posições), no ato sexual. Estudiosos e estudiosas, consideram que esta história simboliza, como poucas, o desejo masculino de subjugar e controlar a mulher, a partir do controle do prazer sexual feminino.

Segundo exemplo: o Mito de Ramayana 

Caverna de Ramayana. Este lugar é uma atração especial na área das Cavernas Batu, na Índia.

Nesta história, o Príncipe Rama teria sido um dos Avatares de Vishnu, Deus responsável pela conservação e sustentação do mundo e do Universo, junto com Shiva e Brahma que compõem os principais deuses do Panteão Hindu, lembrando, talvez não à toa, a Santíssima Trindade cristã (presente, igualmente, em mitologias outras, como a Asteca). Avatar é uma palavra que vem do sânscrito hindu e quer dizer “descida; descido”, simbolizando as sucessivas (re)encarnações mortais de seres imortais. Shiva é o Deus destruidor do mundo, do Universo e de sua energia vital; a crença Hindu é que, para construir, não raro, é necessário, antes, destruir e vice-versa, para que o novo floresça e, por esta razão, Shiva é, igualmente, o Deus da criação. Já Brahma é o Deus Supremo dos Hindus, normalmente representado por quatro cabeças. Brahma teria feito isso, diz a lenda, para melhor vigiar sua esposa, a Deusa Saraswati, já que, para ele, uma cabeça apenas não daria conta; em outra versão, as quatro cabeças representariam os Quatro Vedas – conjunto de livros sagrados do hinduísmo. A título de informação, os Quatro Vedas são: o Rig Veda; o Yajur Veda; o Sama Veda e o Atharva Veda. Brahma teria mandado Shiva criar o Universo e a Terra e, depois, teria criado o Homem, seu pensamento, sua consciência e seu espírito. Conta a mitologia Hindu que um dos avatares de Brahma teria sido Krishna; em outra versão, Krishna seria o 8º avatar de Shiva (versão mais comum).

Outros livros sagrados no hinduísmo são: 1 – o Mahabarata, ou seja, “grande história dos Bharatas”, palavra que quer dizer “saqueadores”, liderados pelo Rei Bharata, filho de Rishabha, líder de um clã do norte indiano que deu origem, ao que sabe, aos arianos. Este é um livro igualmente sagrado, uma escrita épica, em forma de poema, com mais de 200 mil versos em sânscrito, língua Hindu, escrito entre os séculos II e IV antes de Cristo, e ricamente ilustrada, que narra a guerra entre os Pandava e os Kaurava, a qual culmina com uma aterradora batalha apocalíptica, com descrições, inclusive, de lutas áreas e explosões que, hoje, chamaríamos de nucleares e 2 – o Bhagavad Gita (sim, a música “Gita”, de Raul Seixas, baseia-se neste livro), que é, também, um livro religioso, também em formas de versos e que, sendo parte do Mahabarata, relata o diálogo entre Krishna e o herói Arjuna (“alma confusa”) sobre a jornada da vida.

Bem, retomando, brevemente, a história de Rama, segundo narra o mito, deixou seu palácio para uma jornada épica, como o objetivo de resgatar sua esposa, Sita, que fora abduzida pelo demônio e Rei de Lanka, Ravana. É uma história conhecida, um mito amplamente disseminado pelo mundo, como na mitologia grega, dentre outras; do ponto de vista da Psicologia Analítica, é um Arquétipo: a valorização do herói, que realiza grandes feitos, que salva a mocinha… para os psicólogos analíticos, os mitos se referem, sempre, a realidades arquetípicas, pois tratam de temas comuns à humanidade, mesmo em épocas e lugares diferentes e, não raro, muito distantes e sem comunicação entre si, ou seja, seriam estruturas simbólicas comuns à humanidade; arquétipos junguianos, enfim..

Contextualizando nossas origens

Sobre as origens da humanidade, no geral, há três tipos de mitos podem ser reconhecidos: (1) aquele em que a humanidade é diretamente criada por alguma divindade ou ser pré-existente; (2) aquela em que o homem nasce espontaneamente ou de modo mágico e (3) onde a humanidade desce do céu. Ao longo da descrição das várias mitologias isso será constatado. Porém qual o contexto histórico-geográfico de nossas ancestralidades? Vejamos.

Paleolítico, Neolítico e Idade dos Metais: a trilogia Pré-Histórica           

O Triássico foi a Era dos Dinossauros; o Paleogeno, dos Mamíferos. Hoje, há quem atribua a nossa Era à humanidade, chamando-a de Antropoceno, posto o impacto significativo para a vida no planeta que as ações das civilizações humanas têm tido. Onde podemos situar a maior parte das mitologias e narrativas cosmogênicas? Vejamos a seguir.

I – Paleolítico

Paleolítico ou Pedra Antiga corresponde ao período da Pré-História que se iniciou há cerca de 3 milhões de anos atrás até aproximadamente 10.000 a.C., conforme estimativa de estudiosos da área, sendo a época quando os antepassados do atual homem moderno passaram a produzir objetos de pedra com pontas, no seu cotidiano, já no auge do Paleolítico Superior, possivelmente. Popularmente, é conhecido como Idade da Pedra Lascada. Os seres humanos desta época eram nômades e tinham uma alimentação baseada na caça de animais selvagens de pequeno e médio portes e n coleta de plantas silvestres, sendo caracterizados, por esta razão, como caçadores-coletores.

Fases Paleolíticas

O termo surgiu pela primeira vez com o historiador e político John Lubbock (1834-1913). Esse longo período da Pré-História pode ser dividido em três fases e cada uma delas possui características particulares.

Paleolítico Inferior se iniciou no momento em que apareceram os primeiros hominídeos, conhecidos como Homo habilis e Homo erectus, ancestrais que foram do Homo sapiens e do Homo sapiens sapiens; foram os primeiros a fabricar utensílios e ferramentas para usarem em seu dia a dia. Teve a duração entre 3 milhões e 250 mil anos passados.

Paleolítico Médio se estende de 250 mil anos passados até 50 mil anos passados. A principal marca desse período foi o surgimento do Homo Neanderthalensis ou Homem de Neandertal que habitou a Eurásia (massa de terra formada pela união do que conhecemos por Europa e Ásia), já no Paleolítico Inferior, mas com ápice deste período; este espécime viveu na mesma época que o Homo sapiens. Nesse período, pesquisas arqueológicas indicam que o modo de vida dos antepassados do Homem já estava um tanto aprimorado, com novos tipos de utensílios e com a descoberta e uso do fogo, sendo este último com início datado entre 100 mil e 50 mil anos atrás.

Paleolítico Superior foi a última das três fases do período Paleolítico, durando entre 50.000 a.C. e 10.000 a.C. e também é a que dispõe de maiores achados arqueológicos de ferramentas, machados, anzóis, dardos, entre outros. Os grupos humanos ficaram mais complexos. Alguns estudiosos, pelo aqui exposto, chegaram a estipular este, como o marco inicial efetivo do início do que chamamos de História, propriamente dita.

II – Neolítico

Também “batizado” por Lubbock, foi o período de aproximadamente, 10.000 a.C. a 5.000 a.C. Outra denominação pela qual é conhecida é a Idade da Pedra Polida, pois foi nela em que ferramentas de pedra (já um tanto modernas) foram produzidas, segundo os achados arqueológicos, como objetos de caça com cabos feitos de madeira, além de arcos e flechas. Abarcando o final da Quarta Era Glacial, a água derretida no período, reduzindo as geleiras, originou diversos rios, lagos e lagoas, trazendo maior fertilidade para o solo, o que fez com que o nível nutricional da terra aumentasse, possibilitando plantações de alimentos em grandes quantidades e favorecendo o surgimento das primeiras residências fixas. O desenvolvimento das técnicas humanas, igualmente, contribuiu para este processo, tanto no que diz respeito ao aumento da produção agrária quanto das aldeias, cidades e impérios, as chamadas, “grandes civilizações”, como, por exemplo, as do Crescente Fértil, no Oriente Médio.

Ao passar para o estilo de vida sedentária, o Homem Neolítico percebeu que alguns alimentos poderiam ser armazenados por algum tempo, caso do trigo e do milho, (além de outros); é suposto que também tenha sido neste período que instrumentos como o arado, cuja primeira tração foi a de animais de médio porte, boi e o cavalo, tenham sido descobertos. Animais como os cães começaram a ser utilizados na segurança ao redor dos assentamentos (com cabanas), o que levou ao aparecimento das primeiras aldeias, e também nas caçadas.

Os grãos eram moedas de troca e parâmetros de preços para diversos produtos e eram centrais para o funcionamento do sistema econômico; os bens, usando uma terminologia do economês moderno, eram de uso coletivo e não havia o sentido de posse, tão caro às sociedades humanas de um tempo depois para cá. A fixação em uma única localidade trouxe diversos avanços para as sociedades Neolíticas. Nesse período, atestam estudiosos, surgiu também uma das primeiras formas de divisão sexual do trabalho, onde os gêneros eram designados para tarefas específicas: as mulheres cuidavam da família, da casa e faziam a colheita dos cultivos locais; aos homens, cabiam as tarefas envolvendo a caça, a pesca e os demais afazeres externos, principalmente a guerra e a segurança da aldeia.

II – Idade dos Metais

Idade do Cobre

Estima-se, este período, entre aproximadamente 5.000 a.C e 3.000 a.C. O cobre foi o primeiro metal a ser encontrado e utilizado para a produção de ferramentas, utensílios e armamentos. O domínio do fogo desde o Paleolítico Superior e o Neolítico, em maior escala, foi crucial para a sobrevivência humana: além de proteção contra o frio, possibilitou que as pessoas cozinhassem os alimentos, o que diminuiu a contaminação pelo apodrecimento de carnes e vegetais. A fundição de metais alavancou as sociedades humanas e seus grandes impérios e civilizações.

Inicialmente o cobre era moldado a frio, com o uso de martelos e bigornas que davam a forma necessária e desejada aos artefatos então produzidos. Com a metalurgia a produção de utensílios para o cotidiano se intensificou, embora os produtos feitos a partir de outras matérias primas – madeira, por exemplo – nunca tenham deixado de existir. Assim, surgiram os objetos próprios para o dia a dia, como vasilhas e potes para armazenar comida. Essa foi uma prática que permitiu certa garantia de alimentos conservados por mais tempo do que antes, o que ajudou ao consequente crescimento populacional, em face da maior segurança alimentar. As produções em metais ocupavam várias esferas da vida humana, como a de ferramentas próprias para a agricultura, notadamente, de objetos como enxadas e picaretas. Tudo isso possibilitou, além do crescimento populacional, o desenvolvimento dos primeiros ofícios/trabalhos especializados.

Dada a complexidade da extração de minerais e de sua transformação em materiais úteis para os grupos humanos, podemos deduzir que foi necessário o desenvolvimento de um conjunto complexo de conhecimentos, como, por exemplo, do campo da geologia, para localizar e identificar os minérios, e do campo da química e da física para conseguir trabalhá-los e moldá-los no processo de fundição.

A divisão pré-histórica em diferentes Eras expõe, de algum modo, diferentes etapas econômicas, e para cada uma delas houve uma nova forma econômica de organização das sociedades; o mesmo vale para novas estruturas sociais. O domínio do bronze, por exemplo, envolveu a existência de locais especializados para sua fundição, além de um próspero comércio; por outro lado, para que um grupo da sociedade pudesse se dedicar à extração do minério foi preciso que outro grupo se especializa-se em produzir outras coisas e, deste modo, podemos identificar os primórdios do que, desde Marx e outros pensadores, conhecemos por estruturas diferenciadas de produção por grupamento humano ou ainda, de modo mais marxista, por classes diferentes na estrutura produtiva social, com hegemonia, como dizia Gramsci, de alguns grupamentos sobre outros. Nasceu, desde modo, segundo Marx, o que chamamos de “divisão social e territorial do trabalho”. Transportar os metais das encostas das montanhas, onde são mais facilmente encontrados, exigia um trabalho organizado e dedicado.

Tudo isso levou ao início da formação de cidades populosas, que atingiram um nível considerável de complexidade crescente, desenvolvendo atividades hoje tidas como setor terciário da economia, como o comércio e os serviços, para além do setor extrativista (primário) e do fabrico artesanal (produção meramente individual), manufatureira (produção já com alguma racionalidade, produtividade e com fins comerciais) e, posteriormente, industrial, de coisas, com aumento da escala e com alto emprego de tecnologia (secundário).

Idade do Bronze

Estima-se, este período, entre aproximadamente 3.000 a.C e 1.500 a.C. Simboliza, para alguns estudiosos, uma transição da história anterior à escrita, nominada como Idade Antiga, para o período da História, propriamente dito. Foi um período marcado pelo domínio de técnicas para fundição do ferro e seu emprego em armas e ferramentas, utilizadas no cotidiano. Essas  ferramentas e utensílios diários passaram a ter, por base, neste período, e por óbvio, a partir da classificação, o bronze, que é uma liga metálica feita a partir da junção do cobre com o estanho. O período que define a Idade do Cobre é estabelecido pelo início da fundição deste metal, especialmente, até onde se sabe, nas regiões do Oriente Médio, do Sudeste da Europa e na China. A metalurgia, com esse aprimoramento tecnológico, passou a substituir, definitivamente, segundo apontam estudiosos da área, o uso das pedras como base para as ferramentas e utensílios diários que usávamos; nossos artefatos mudaram de patamar e, com eles, a própria humanidade. Por esta razão, dizem os especialistas, a Pré-História é um período humano que já pode ser objeto de ser estudado, compreendido e narrado, através das análise de achados arqueológicos de artefatos e ruínas e não pela escrita; quando esta surgiu e se estabeleceu, passamos a dizer que entramos no que, hoje, chamamos de História.

Idade do Ferro

Marca uma Era arqueológica, sucedânea da Idade do Bronze, referente à utilização deste metal na fabricação, especialmente, de armas e ferramentas. O auge deste período vai, estimam estudiosos, de 1.500 a.C. a 100 a.C. (ferro é de mais fácil localização e durabilidade do que o cobre). Esta técnica envolvia a capacidade de fundição do minério de ferro, a remoção das impurezas e a regulação da quantidade de carbono. Assim, mesmo que os primeiros artefatos encontrados no Egito datem de 3.000 a.C., eles não foram suficientes para que os estudiosos se propusessem a estabelecer o início da Idade do Ferro a partir deste século, pois, o bronze era o material mais utilizado para confeccionar as armas e ferramentas necessárias para as sociedades até então.

No Oriente Médio o ferro teve um uso limitado, inicialmente, e era conhecido, como dito, desde aproximadamente 3.000 a.C. como um metal precioso e raro. Somente séculos depois, contudo, o conhecimento do manuseio desse material se difundiu e marcou a vida cotidiana dessas populações. Entre 1.500 e 100 a.C., deste modo, estima-se, o que se viu foi uma troca de conhecimento que se espalhou e que fez do ferro um metal utilizado para além da confecção de artefatos cotidianos, mas também para a feitura de adornos vários, como joias.

Tudo considerado, e levando-se em conta este contexto histórico-espacial, que minha pesquisa revelou, o qual, certamente, influenciou decisivamente a formação da cultura e, por conseguinte, as histórias dos povos, ao redor do mundo, vamos às mitologias.

Antes, contudo, é bom frisar que, a partir dos arquétipos e mitos, as sociedades moldaram parte de suas culturas simbólicas; é bom lembrar, igualmente, que mudanças históricas, geográficas, político-ideológicas, econômicas, filosóficas e culturais, podem alterar um mito, que tem o potencial para se tornar um objeto de poder, porque pode ser tido como mais um fator do que o filósofo Antônio Gramsci (1891-1937) chamou de “hegemonia cultural”, que é um tipo de dominação de um grupo, sobre outro, a partir de certo consentimento das classes subalternas às classes dominantes.

Gramsci afirmava que esta dominação se baseava, fundamentalmente, em princípios ideológicos que atuariam na cultura, na política e na economia, especialmente quando imersos em uma sociedade de classes. Assim, afirmava Gramsci, chegamos ao “Estado Ampliado”, quando o poder público deixa de ser, apenas, um instrumento de força das classes dominantes para ser, também, um fator de consenso e coerção, com base na hegemonia cultural, e esta transformação dividiria os grupos humanos em “Sociedade Política” e em “Sociedade Civil”. As classes dominantes, pela hegemonia cultural e ideológica, detêm o poder estatal e político e sobrepõem-se, deste modo, às classes subalternas da Sociedade Civil. Porém, vale a ressalva, esta é uma ideia que não será aprofundada nestes artigos, ficando, quem sabe, para textos futuros, com temática diversa, já que fugiria demais do assunto que estou aqui, a tratar. Para os interessados, a concepção de grupos hegemônicos pode ser aprofundada em livros Gramscianos como “Os intelectuais e a organização da cultura” (SP: Círculo do Livro, 1985) e “Memórias do cárcere” (RJ: Civilização Brasileira, 1999).

Pelo momento, fiquemos apenas com as lendas/mitos, ao redor do mundo, de várias culturas, que podem ter tido alguma influência na construção de vários de nossos arquétipos, mas que, sem dúvida, influenciaram nossa cultura e o que somos. Busquei, repito, textos e artigos de especialistas, para além dos verbetes da internet, para trazer para você, informações as mais precisas possíveis sobre as lindas histórias que passarei a descrever a partir da segunda parte deste, que será um longo artigo.

Entremeadas às histórias, recordando também, procederei do mesmo modo que o fiz quando, em 2022, publiquei um artigo com três partes sobre a mitologia grega especificamente, quer dizer, talvez você veja enxertado, aqui, ali e acolá, um ou outro comentário sobre os mitos descritos, umas poucas reflexões que tenha realizado, tentado extrair sentimentos agradáveis e reflexões úteis para minha vida – e quem sabe, para a sua vida. Vale frisar que não há uma única versão para cada um dos mitos que serão narrados (nem para outros tantos que ficaram de fora de minha pesquisa). Por vezes, para um mesmo mito, há duas, três, até mais, versões. Então, o que vamos trazer para vocês, leitores, é uma versão do mito narrado – caso decidam se aprofundar mais, vocês, poderão achar outras versões, tão belas e instigantes quanto as que ora lhe trago. Sinta todas elas como a devida remissão a muitas de nossas origens; um mergulho em muito do que somos, ainda que, muitas vezes, talvez nem percebamos.

Aguarde, querida leitora, prezado leitor, cenas dos próximos capítulos, opa, desculpe, das outras partes, deste longo artigo, desta nova sequência, aqui mesmo, no Portal ArteCult. Vamos “viajar juntos pelo mundo” através das lindas e instigantes mitologias dos povos?

 

Carlos Fernando Galvão,
Geógrafo, Doutor em Ciências Sociais e Pós Doutor em Geografia Humana
cfgalvao@terra.com.br

 

 

 

 

 

Bibliografia de consulta e sugerida para aprofundamento

  • CLARKE, John Grahame Douglas. A Pré-História. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 19075.
  • LEAKEY, Richard. A origem da humanidade. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1995.
  • PENTEADO, Margarida Maria. Fundamentos de geomorfologia. 2.ed. Rio de Janeiro: IBGE, 1978.
  • PINSKY, Jaime. As primeiras civilizações. Rio de Janeiro: Editora Contexto, 2001.

 

 

Author

Carlos Fernando Galvão é carioca, Bacharel e Licenciado em Geografia (UFF), Especialista em Gestão Escolar (UFJF), Mestre em Ciência da Informação (UFRJ/CNPq), Doutor em Ciências Sociais (UERJ) e Pós Doutor em Geografia Humana (UFF). Autor de mais de 120 artigos, entre textos científicos e jornalísticos, tendo escrito para periódicos como O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e Le Monde Diplomatique Brasil (atual colaboração), também foi colaborador do Portal Acadêmico da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) entre 2015 e 2018. Além deste, o autor publicou outros 9 livros, textos acadêmicos e literários.

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