

Silvero Pereira em “Pequeno Monstro”. Foto: John Ramatis
Pela primeira vez, eu sinto que não tenho esse lugar de fala para justificar uma crítica do espetáculo “Pequeno Monstro“, do artista Silvero Pereira.
A primeira coisa que fiz foi pesquisar a respeito das mortes de homossexuais no país. Infelizmente, o primeiro semestre mostra o aumento no número de assassinatos da comunidade LGBTQI+.
Obviamente, o espetáculo apresenta uma performance teatral de mais alto nível. Afinal, o artista nos apresenta expressões faciais e corporais carregadas de beleza. Há excelência no trabalho que ele executa no palco.
Parabéns ao Sesi, que em um mês com tanta representatividade abriu as portas para essa montagem. Junho é considerado o Mês do Orgulho LGBTQIA+ em referência à Revolta de Stonewall, que ocorreu em 28 de junho de 1969, em Nova Iorque, quando membros da comunidade LGBTQIA+ protestaram contra uma série de batidas policiais violentas no bar Stonewall Inn. Este evento é amplamente considerado um marco importante na luta pelos direitos LGBTQIA+.
O cenário é construído com objetos de cena, a iluminação é perfeita, assim como a projeção que ele entrega à plateia.
Eu já tinha assistido ao espetáculo “BR Trans”, do artista, e me emocionei com o que assisti.
Dessa vez, Silvéro traz a história de sua vida para os espectadores. Trata-se de uma dramaturgia precisa, que conta também outras histórias, como se dissesse que não é uma particularidade dele, e abrimos nossas escutas para histórias de várias outras pessoas. Assassinadas…
Ao sair do espetáculo, fiquei um pouco pensativa sobre como escrever sobre essa peça. É muito complexo quando não temos experiências mais profundas em relação à obra que se vê — até onde foi tocante para cada um de nós?
O Guardião do Sesi, Alessandro Martins, falou para mim uma palavra interessante: exorcizar! E por que não? Exorcizar a dor, as amarguras, as decepções, calúnias e tantos outros ressentimentos um dia deixados.
Sempre convivi com pessoas homossexuais. Eu não entendo o motivo, só sei que foi assim ou é assim — e está tudo bem. De alguma forma, me identifico com essas pessoas.
Na companhia de um amigo gay, ouvi coisas pesadas. Questionei para ele até que ponto a peça tinha chamado sua atenção — afinal, era a quarta vez que ele estava assistindo ao espetáculo.
Foi então que ele desabafou e contou todas as mazelas da vida dele. Eu jamais pensei em ouvir coisas tão esdrúxulas — posso dizer, cruéis — da vida de alguém.
No último sábado, fui até a feira dos nordestinos. Lá, pude ver vários casais homossexuais no meio do povo, curtindo uma noite de São João. Isso, há alguns anos, era praticamente impossível de ser visto. Demos alguns passos à frente, mas, ainda assim, essas pessoas sofrem preconceitos — e muitos pagam com a vida.
Segue a notícia no link abaixo:
https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2025/01/18/mortes-lgbtqiapn-brasil.ghtml
Um espetáculo pode mudar uma sociedade? Não tenho essa resposta. Mas sei que, ao assistir a essa montagem, fiquei perplexa em saber que ainda precisamos mudar tanto…
Silvero provoca algumas catarses, principalmente quando traz a história dos membros da sua família — alguns comportamentos inaceitáveis. Mas o ruim mesmo é ser viado, o pecado é ser viado, o mal é ser viado!
Até quando não poderemos reconhecer a importância dos casais homossexuais?
Lembro que recentemente li a respeito de um aumento de 700% na adoção de crianças — e isso deve-se aos casais gays, que, de maneira biológica, não podem ter seus filhos. Será que isso não conta? Será que nos tornamos tão egoístas a ponto de não perceber a importância de crianças terem pais que as eduquem melhor e as amem, deem a elas a chance de terem oportunidades melhores na vida?
https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2024/12/25/adocao-de-criancas-por-casais-homoafetivos-cresce-no-rj.ghtml
São tantas violências cometidas que me pergunto: como poderemos avançar e nos tornarmos um país desenvolvido?
Será que o desenvolvimento está conectado somente à economia de um país? Eu não acredito nisso. Até porque os homossexuais são pessoas que ocupam bons lugares nas empresas, seja em multinacionais ou por meio de concursos, e que consomem cultura, arte, viajam, entre outros afins — sem esquecer a moda.
O espetáculo pode ajudar a exorcizar algumas coisas do passado — para alguns que já sofreram, e para quem cometeu a violência. Pode ensinar que não precisamos sacrificar ninguém por conta de orientações sexuais. É preciso somente respeitar — o que não dói, não mata e não fere.
O espetáculo oferece uma trilha sonora sem pecados — perfeita — com eruditos de mais alto nível.
Ao finalizar o espetáculo, o ator ensina como se desligar do passado, do presente e de tudo mais que não nos orienta, que não nos ensina a evoluir.
Depois de tudo que compartilhou, nos ensina que tudo aquilo deve ficar lá — guardado no passado sombrio. Não repetir todas as intempéries que o outro pode causar.
Sou fã do Silvero. Gosto do jeito dele, das emoções que ele nos traz. Certamente, esse menino um dia sofreu as amarguras da vida por seguir sendo quem é. Mas isso não foi o suficiente para que ele não se transformasse na estrela que é.
A obra vai para além de cenário, figurino, direção — fala o que precisamos ouvir!
ÚLTIMA SEMANA.
SINOPSE
O mónologo “Pequeno Monstro”, com Silvero Pereira, nos coloca diante da nossa própria inabilidade ao relatar episódios de homofobia e bullying sofridos, desde a infância, pelas pessoas com comportamentos consideradas desviantes da norma. Texto de Silvero Pereira. Direção de Andreia Pires.
SERVIÇO
PEQUENO MONSTRO
Onde: Teatro Firjan SESI Centro. Av. Graça Aranha, 1 – Centro – Rio de Janeiro – RJ
https://firjan.com.br/sesi/guia-de-cultura/pequeno-monstro-firjan.htm
Até 24/06 – 19h
Duração:
60 min
Classificação:
14 anos
FICHA TÉCNICA
Direção: Andreia Pires
Dramaturgia e atuação: Silvero Pereira
Cenografia: Dina Salem Levy
Desenho de luz: Sarah Salgado e Ricardo Vivian
Trilha sonora original e desenho de som: Arthur Ferreira
Criação audiovisual e figurinista: Alice Cruz
Assistência da cena: Tina Reinstrings e Juracy Oliveira
Assistente de operação: Gabriel Salsi
Operador de luz: Luana Della Crist
Coordenador de palco: Iuri Wander
Cenotécnica: Michele Souza e Walquer Sobral | MW Serviços Cenotécnicos Ltda
Designer gráfico: Karin Palhano
Quintal Produções
Direção de produção: Verônica Prates
Coordenação de projetos: Valencia Losada
Produção executiva: Camila Camuso
Assistente de produção: Dandara Lima



Paty Lopes (@arteriaingressos). Foto: Divulgação.

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Cara Paty, falar ou escrever sobre assuntos complexos também serve para exorcizar o nosso eu. Parabéns pela crítica cirúrgica sobre o trabalho deste grande ator Silvério Pereira, isso prova a grande mulher e crítica teatral. Bravo.