
IDALINA E O POEMA
Em meio ao frenético ritmo de mundo e de vida – de vida entre mundos – causado pelos últimos acontecimentos, uma senhora de cabelos nevados, xale florido e olhos cor de mel pôs-se a pensar alto, como quem perguntasse a si mesma: poderia um ano inteirinho condensar-se em um poema?
Notei que seu olhar parecia alcançar além-tempos e que o movimento das suas mãos sugeria a regência melódica dos fatos.
Não respondi de imediato, pois o tema exigia maturação das imagens, acessando histórias, memórias e sentimentos.
Dias depois, no intervalo de uma ou duas luas, a encontrei novamente, na fila do supermercado. Trocamos uma ou duas impressões sobre chuva e sóis e ela voltou a me/se indagar: poderia trezentos e sessenta e cinco anos habitarem um único poema? Dessa vez, com olhos ávidos e mãos inquietas, bordou cenas, ensaiando palavras no ar.
Sorrindo, após uma pausa, respondi que sim, que tudo que nos afeta, no encanto das horas, pode tornar-se dádiva de versos. Que a vida – efêmera, singular, aguerrida – é manancial inegável de poesia.
Com a minha resposta a percebi, com os olhos marejados e distantes, esboçou concordância com a cabeça e suspirou
longamente; como se transportada a lugares, mistérios e significâncias.
Disse-me seu nome, passou suas compras, guardou calmamente a nota em sua bolsinha, deu dois tapinhas em minha mão, um abraço de acolher e seguiu, nomeando seu ano-poema. Sim, certamente o fez, assim, secretamente, batizando futuros, pois ano corrente é poema e novo a nascer também.
: feliz poema-novo a todos nós.

Na CasAmarÉlinha, cinco anos se acendem e transcendem: espaço das artes bordado em encontros, tecendo versos em sorriso que alumia. Que venham mais cinco, passarelando em poesia!

Instagram: @rose_araujo_poeta
ROSE ARAUJO

Rose Araujo (@rose_araujo_poeta). Foto: Divulgação.

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