Filme ‘SEXA’: Uma análise sobre autonomia afetiva e sensualidade na maturidade

Guilherme Gonzalez com Glória Pires (à direita) e Isabel Fillardis (à esquerda) no set de gravação de SEXA — Foto: Arquivo pessoal

 

Se cuidar…pode! Desejar e ser desejada não?

 

O filme “SEXA“, com Glória Pires, desmonta uma falsa tolerância: podemos até aceitar que mulheres maduras cuidem da aparência, mas questionamos ferozmente quando ousam exercer autonomia afetiva e sensual. Como se cuidar-se esteticamente fosse permitido, mas desejar e ser desejada exigisse autorização social.

A protagonista nos coloca diante do espelho – literal e metaforicamente. Não se trata de negar os cuidados com o corpo ou os procedimentos estéticos que ela própria menciona fazer. A questão é outra: por que uma mulher pode investir em sua aparência, mas precisa negociar com a sociedade o direito de viver plenamente sua afetividade? Por que o corpo bem cuidado pode existir, mas o corpo desejante precisa pedir licença?

O que torna “SEXA” particularmente tocante é como aborda a afetividade na maturidade sem romantizar nem dramatizar. A possibilidade de encantar-se por alguém mais jovem surge não como transgressão, mas como direito. Um direito sistematicamente questionado por uma sociedade que trata pessoas acima dos 60 anos como incapazes de suas próprias escolhas, especialmente mulheres.

Existe uma permissão social cruel e bem delimitada: mulheres maduras podem “sair” com homens mais novos, mas transar? “Já deu, passou a fase”. Como se a menopausa fosse atestado de óbito da sexualidade. O filme desmonta esse absurdo ao mostrar o que a ciência e a experiência já confirmam: o desejo sexual persiste, pode se transformar, mas continua ali – vivo, legítimo, digno de ser vivido plenamente.

A diferença de idade entre parceiros expõe uma ferida cultural: a dificuldade em validar a sensualidade e o desejo feminino para além da juventude. Como se o corpo que gestou, trabalhou, amou e viveu perdesse sua legitimidade erótica. Como se a experiência acumulada não servisse justamente como bússola para escolhas mais conscientes e profundas.

O filme ilustra com precisão como os vínculos familiares podem se tornar armadilhas quando filhos adultos assumem postura paternalista. Questionam capacidade de discernimento, manipulam afetivamente – tudo enquanto negam à mãe o que reivindicam para si mesmos: autonomia, prazer, escolha. É a inversão perversa de papéis: tratam como incapaz justamente quem os educou para a vida.

Há algo particularmente cruel nessa dinâmica: a mesma sociedade que valoriza “sabedoria da experiência” em contextos profissionais nega essa mesma sabedoria quando se trata de decisões afetivas e sensuais. Como se lucidez fosse etária, como se discernimento tivesse prazo de validade.

“SEXA” nos lembra que envelhecer não é abdicar da própria natureza. Não é renunciar ao encantamento, ao desejo, à possibilidade de vínculos profundos. A diferença de idade pode ser aposta, descoberta, encontro genuíno – se conseguirmos atravessar o ruído social que insiste em reduzi-la a problema.

A dor de uma possível separação existe, sim. Mas existe em qualquer vínculo, em qualquer idade. O que o filme questiona é por que essa dor seria mais “legítima” ou “esperável” quando há diferença etária, como se o sofrimento amoroso também precisasse de autorização social para ser vivido.

Ao final, “SEXA” não é apenas sobre relacionamentos intergeracionais. É sobre o direito fundamental de existir plenamente, de habitar o próprio corpo sem pedir licença, de fazer escolhas a partir da própria história – não apesar dela. É sobre recusar a invisibilidade que tentam impor a quem ousa continuar desejante, vivo, presente.

Num país que estica a pele mas não dilata a mente, esse filme chega como convite urgente: e se, em vez de negociar com o espelho, simplesmente nos olhássemos com a mesma generosidade que gostaríamos de receber do mundo?

 

O Filme SEXA está em circuito exclusivamente nos cinemas!

Fotos: Helena Barreto (@helenabarretophoto)

 


Katia Salvaterra

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Author

Katia Salvaterra se formou em Psicologia em 1989 pela UFRJ. Começou sua vida profissional no mundo Corporativo, trabalhando em R.H, mas o atendimento clínico lhe chamava por sua forte curiosidade em compreender o comportamento humano e poder usufruir do poder transformador da arte do encontro. Deu início a sua formação em Gestalt-terapia tendo atuado por 5 anos com essa especialidade da Psicologia. Nessa época, sem perceber, começou a colocar o seu pé no Oriente, já que uma das bases teóricas dessa linha de pensamento, Gestalt, está no Zen Budismo. Simultaneamente aos atendimentos terapêuticos, começou a praticar Tai Chi Chuan tornando-se instrutora. Nesse caminhar, entrou em contato com as massagens orientais, SHIATSU (Japonesa) e TUI NÁ (Chinesa), através de curso de formação no IARJ. Trabalhar com o toque curativo, com o poder milenar da Medicina Chinesa lhe encantou e a fez seguir na sua busca. Em SP, continuou a prática com mestres chineses, aprimorando a massoterapia e se formando em acupuntura. Esteve, também, na Espanha e na China, em contato com outros mestres que pudessem contribuir com a sua busca e aprofundar ainda mais seus conhecimentos. Essa inspiração a fez abrir um ambulatório de terapias integrativas numa comunidade carente, onde, junto com uma equipe de estagiários, ajudou a muitas pessoas através da acupuntura e da massagem. A sua inquietude continua movendo-a para um novo formato, através da atenção plena ao corpo, à respiração, à emissão dos sons, onde todas as histórias da vida ficam registradas e podem ser acessadas. O oriente e o ocidente estão, juntos, contribuindo para servir ao paciente. Esse é um novo caminho que está sendo delineado, gestado, mas, ela já sente o influenciar desse conjunto de habilidades conquistadas nos seus atendimentos, ampliando possibilidades e oferecendo ferramentas para servir. Meu objetivo é entregar uma leitura do olhar oriental sobre espírito, mente, emoção e corpo através do mundo da terapia integrativa. Site: http://bit.ly/34FXVA5

One comment

  • Já fiquei a fim de assistir ao filme, só pela resenha crítica! O tema é atual e relevante e propõe um olhar novo sobre essa nova maturidade feminina. Já é difícil garantir os espaços de respeito individual à mulher nas estruturas convencionais de relações, imagina agora que o feminino (não só ele) está empurrando pra frente a velhice, com novas posturas. Amei, Katia, seu texto. Agora vou ver se o filme está a altura dele rs

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